Greve e contas de luz devem pressionar IPCA em junho

Publicado em 11/06/2018 por Valor Online

Greve e contas de luz devem pressionar IPCA em junho

Depois de ficar acima do esperado em maio, a inflação deve avançar ainda mais em junho, sob efeito da greve dos caminhoneiros e do acionamento da bandeira vermelha patamar 2 nas contas de luz. Com isso, a taxa acumulada em 12 meses deve passar dos atuais 2,86% para algo próximo a 4%. Mesmo diante dessas pressões e da disparada recente do dólar, analistas avaliam que a fraca atividade garante a continuidade de cenário inflacionário benigno no restante do ano.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,40% em maio, acima do avanço de 0,22% de abril e do esperado pelo mercado (0,30%). Com o resultado, a taxa acumulada em 12 meses passou de 2,76% em abril para 2,86% em maio. A aceleração foi puxada pelo aumento de preços de alimentos e combustíveis, em decorrência do desabastecimento provocado pelo protesto dos caminhoneiros, além da alta da energia elétrica, devido ao acionamento da bandeira amarela nas contas no mês passado.

"O IPCA de maio mostra o impacto inicial desses 11 dias de paralisação, que vão pressionar ainda mais o dado de junho", afirma Tatiana Pinheiro, economista-sênior do Santander. A projeção do banco é de alta de 0,86% para o indicador este mês, com avanço em torno de 1% para o grupo de alimentação e bebidas.

A LCA Consultores elevou sua estimativa para o IPCA em junho de 0,60% para 0,82%, o que levaria a taxa acumulada em 12 meses para 3,94%. O economista Fábio Romão espera um avanço de 0,76% para alimentos e bebidas no mês e de 3,12% para a gasolina. Além disso, haverá pressão adicional na energia elétrica, devido à alteração da bandeira tarifária, de amarela em maio para vermelha patamar 2 em junho, com alta prevista de 9,41%.

Apesar da aceleração esperada para junho, o IPCA deve voltar a apresentar variações mensais mais comportadas nos meses seguintes, com a devolução dos efeitos temporários da greve, particularmente sobre os alimentos. Ainda assim, a taxa acumulada em 12 meses deve seguir avançando até setembro, "em razão do descarte de taxas negativas da alimentação no domicílio registradas no terceiro trimestre de 2017", como explicam os economistas do Itaú, em relatório.

Mesmo diante dessa expectativa, os analistas avaliam que o quadro inflacionário este ano segue confortável. Uma evidência disso é que, em maio, os preços de serviços tiveram uma deflação de 0,09%, enquanto a inflação subjacente de serviços - mais sensível ao ciclo econômico e à política monetária - ficou bem comportada em 0,06%. Já a média dos núcleos da inflação foi de 0,23%, com a taxa acumulada em 12 meses recuando de 3,03% em abril para 2,95% em maio.

"Isso mostra que, se há pressão de câmbio de um lado, do outro, a atividade fraca vai ajudar a compensar esse efeito e fazer com que a inflação continue bem comportada pelo menos até o fim do ano", avalia Luiz Castelli, da GO Associados. O economista vê avanço de 3,6% para o IPCA em 2018, com leve viés de alta.

Na sexta-feira, o Itaú elevou ligeiramente sua estimativa para a inflação no ano, de 3,7% para 3,8%, em razão da revisão no cenário para taxa de câmbio. Para 2019, a projeção para inflação subiu de 4% para 4,1%, pelo mesmo motivo. O banco agora projeta o dólar em R$ 3,70 no fim de 2018 e 2019, ante estimativa anterior de R$ 3,50. A LCA também elevou as projeções para o IPCA, de 3,6% para 3,7% em 2018 e de 4% para 4,1% em 2019.

"A recente depreciação do real não é motivo de preocupação, à medida que o repasse da desvalorização cambial para os preços tende a ser baixa devido à fraca atividade econômica, somada à elevada capacidade ociosa da economia", avaliam Carlos Pedroso e Mauricio Nakahodo, do banco MUFG. Segundo eles, mesmo que o repasse aconteça, há espaço para acomodar uma inflação maior e ainda assim cumprir a meta de 4,5%. "Isso sustenta a expectativa de manutenção da Selic em 6,5% até o fim de 2018", afirmam.

Essa visão, no entanto, não é consensual. A corretora Nova Fortuna vê a taxa básica em 7,25% no fim deste ano, a MCM Consultores elevou sua projeção para 7,5% e o banco UBS para 8,5%. "Acreditamos que o ciclo de ajuste do juro básico terá início este ano e precisará ser curto e contundente", diz a MCM. (Colaborou Ana Conceição, de São Paulo)