Para Haddad, eleito terá que negociar

Publicado em 10/08/2018 por Valor Online

Para Haddad, eleito terá que negociar

Na contramão da maioria das avaliações de analistas e outros políticos, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, escolhido como candidato a vice na chapa presidencial do PT, disse ontem não acreditar que o eleito em 2018 terá um período inicial de facilidade para aprovar projetos. "Acreditamos que o próximo presidente não sairá com a força imaginada das urnas, como se supõe. Vamos ter que construir uma agenda comum. Uma agenda de Estado, inclusive com a oposição." Segundo ele, a economia deverá "reagir muito prontamente" se o vencedor for bem sucedido nessa missão.

Haddad participou de uma sabatina promovida pelo banco BTG Pactual. Entrevistado no palco pelo comentarista Reinaldo Azevedo, afirmou que não vê o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "como um oráculo". O petista preso em Curitiba, afirmou, "é uma liderança política que ensina muito" por ter um eficiente "método de trabalho": o de ouvir todas as partes interessadas num tema antes de decidir. Mas "não vai ter resposta para os problemas brasileiros de dentro da cela ou de um gabinete".

Haddad fez esses comentários ao responder como iria lidar com Lula preso, caso a candidatura do ex-presidente caia - o que é considerado provável no meio político - e ele acabe vencendo a eleição.

Mais adiante, Haddad criticou o que chamou de "anarquia jurídica no país". "Aí há manobras regimentais dentro de tribunais superiores para o sorteio [de casos] cair para um, cair para outro, para ir para a Primeira Turma, ir para a Segunda. Como é que é isso? Estamos falando da vida das pessoas. Da reputação das pessoas."

Parte da exposição foi dedicada à economia. Ele disse que a adoção de uma "política fiscal robusta" não é garantida com a manutenção do teto de gastos. E reclamou do que chamou de "dogmas" associados a "falsas questões" na área. A regra do teto, disse, é inexequível e não tem paralelo no mundo. Trata-se de "ingenuidade política" que não se mostrou eficaz para inibir a proliferação de "pautas bombas". Como exemplo, citou a decisão do Supremo de autorizar aumento de 16% para magistrados.

O petista voltou a defender uma reforma tributária de "migração" para o Imposto sobre Valor Agregado. Falou ainda sobre aumento da incidência de tributos sobre renda patrimônio e uma reforma da Previdência com foco no sistema do setor público.

Sem a presença de Haddad, o presidenciável João Amoêdo (Novo) falou na sequência. Disse que Lula deu "péssimos exemplos" a o país. Um repórter perguntou em quem ele vota num segundo turno entre Haddad e Jair Bolsonaro (PSL). "Não fico à vontade com nenhuma das duas [alternativas]."

O representante do partido Novo criticou Bolsonaro, sobre o qual apontou incongruências em relação à vida pública na qual, segundo Amoêdo, sempre votou com uma visão estatizante e a postura liberal exibida na pré-campanha. "Duvido que em seu governo, o deputado vá consultar o tempo todo seus gurus liberais para tomar decisões", ponderou. Amoêdo também criticou Haddad. "É uma situação muito estranha a do Haddad, se será ou não candidato e sua defesa do Lula diz muito sobre como ele pensa, caso venha a ser mesmo candidato", disse.