Intervenção nos preços não é saída, diz Delfim a Temer

Publicado em 11/06/2018 por Valor Online

Intervenção nos preços não é saída, diz Delfim a Temer

No jantar do presidente Michel Temer e do ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, com o ex-ministro Delfim Netto, quinta-feira, na residência de Temer em São Paulo, um assunto, dentre os vários abordados, tomou mais tempo: a situação dos caminhoneiros, que pararam o país com o movimento de obstrução das estradas. Afinal, o governo queria saber como resolver estruturalmente uma questão de descasamento entre oferta e demanda, na medida em que as iniciativas de redução do preço do diesel e do tabelamento do frete tem fôlego curto.

A opinião de Delfim, nesse caso, é conhecida. Partindo do diagnóstico de que há um excesso de estoque de caminhões no país que supera, em muito, a demanda por fretes, só haveria duas soluções: ou o país volta a crescer para que a expansão da procura por transportes de mercadorias remunere os detentores de caminhões, ou o governo não tem nada a fazer a não ser deixar que o mercado resolva esse problema.

O excesso de caminhões disponíveis no país é produto da política de financiamento do BNDES a juros fortemente subsidiados para a compra desses veículos. Trata-se, portanto, de uma herança do governo do PT, que estimulou a aquisição de caminhões a partir do pressuposto de que a economia seguiria em trajetória de crescimento contínuo. O que ocorreu, porém, foi uma recessão profunda e prolongada, da qual o país ainda não se recuperou.

Delfim, com a experiência de anos de controle de preços quando ainda existiam, na administração federal, órgãos especializados como o CIP (Conselho Interministerial de Preço) e a Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento), sabe que a intervenção do governo não é a solução.

Quando o governo entra para evitar que o mercado faça o ajuste, ele socializa o prejuízo, explica o ex-ministro. Ou seja, todos os contribuintes pagam pela conta que não fecha dos caminhoneiros, produzida por um superinvestimento que não deu certo.

Para Temer, portanto, deve ter ficado bem claro que, por mais bem feita que possa ser a tabela dos fretes, ela não vai funcionar.

Não há tabela de preços que resolva a diferença entre a oferta e a demanda por caminhões. Não há, sequer uma estrutura mínima para fiscalizar o cumprimento do tabelamento para ao menos fazer de conta que os donos de caminhões não estão entregues a sua própria sorte.