Itens da inflação mais sensíveis à atividade seguem tranquilos

Publicado em 09/08/2018 por Valor Online

Itens da inflação mais sensíveis à atividade seguem tranquilos

A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em julho foi um pouco mais forte do que esperavam os analistas, mas mostra uma alta de preços comportada, sem pressões relevantes.

Passado o impacto da greve dos caminhoneiros, no fim de maio, o indicador subiu 0,33%, acima do 0,27% da média das estimativas dos economistas ouvidos pelo Valor Data, mas bem abaixo do 1,26% do mês anterior. O comportamento dos serviços e dos núcleos, que tentam eliminar a influência dos itens mais voláteis, retrata uma inflação sob controle.

Em 12 meses, o IPCA subiu de 4,39% em junho para 4,48% em julho, próxima da meta de 4,5%. A expectativa, porém, é que haja algum recuo dessa variação nos próximos meses - no boletim semanal Focus, do Banco Central (BC), o consenso de mercado aponta para um IPCA de 4,1% em 2018. Ainda que as projeções para o ano possam subir um pouco porque o número do mês passado superou as estimativas dos analistas, as previsões não deverão encostar em 4,5%.

Em julho, o núcleo IPCA EX2, que reúne itens de serviços, alimentos e bens industriais mais sensíveis ao ciclo econômico, teve alta de 0,29%, abaixo do 0,33% de junho, segundo a MCM Consultores Associados. Em 12 meses, a variação passou de 1,97% para 2,13%, um nível bem abaixo do piso da banda de tolerância da meta, de 3%.

Esse foi um dos dois novos núcleos apresentados pelo BC no Relatório de Inflação de junho. O outro, o IPCA EX3, que difere do IPCA EX2 por não incluir alimentos, também teve um resultado benigno. Saiu de um aumento de 0,25% em junho para 0,2% em julho, com o acumulado em 12 meses passando de 2,22% para 2,23%.

O grupo de serviços, por sua vez, teve uma aceleração forte, de 0,25% para 0,68%, de acordo com a MCM. A questão é que esse movimento foi muito influenciado pela alta 44,51% registrada em julho pelas passagens aéreas, como observa o economista-chefe da corretora Tullett Prebon, Fernando Montero. Esse aumento foi responsável por 0,13 ponto percentual da variação de 0,33% do índice cheio, aponta a MCM.

Já a inflação subjacente de serviços, que exclui os grupos de serviços domésticos, comunicação, cursos e turismo (passagens ficam de fora, portanto), desacelerou de 0,39% para 0,37%. Em 12 meses, quase não saiu do lugar, passando de 2,99% para 3,04%, segundo a MCM. Esse grupo reúne os serviços que mais respondem à atividade econômica e à política monetária.

O resultado de julho mostrou ainda pressões inflacionárias bem menos disseminadas. O índice de difusão, que mostra o percentual de itens em alta no mês, recuou para 49,6%, depois de atingir 65,5% em junho, nos números da MCM. É mais que os 41,8% de julho de 2017, mas bem abaixo da média histórica de 61,9%.

Já o grupo de alimentos e bebidas, que tinha disparado em junho com o impacto provocado pela greve dos caminhoneiros, teve deflação de 0,12% em julho. No mês anterior, subiu 2,03%.

Dissipado o efeito da paralisação dos caminhoneiros, a expectativa é que a inflação continue a ter variações mensais modestas. Num ambiente de economia fraca, com elevada taxa de desemprego, a trajetória da inflação não dá motivos para preocupação, ainda que o IPCA em 12 meses tenha se aproximado de 4,5%. O BC, tudo indica, poderá manter os juros básicos em 6,5% ao ano por muito tempo.