Lázaro Brandão deixa de presidir conselho de administração do Bradesco

Publicado em 11/10/2017 por Valor Online

Saída de Brandão esquenta a disputa pela sucessão no comando do banco A decisão de Lázaro de Mello Brandão de deixar a presidência do conselho de administração do Bradesco, anunciada ontem, antecipa em um ano a sucessão de Luiz Carlos Trabuco Cappi na presidência executiva do segundo maior banco privado do país. Trabuco passará a comandar o conselho no lugar do Brandão. O executivo acumulará as duas funções até março de 2018, quando a assembleia de acionistas escolherá um novo presidente executivo. A partir de então, Trabuco ficará à frente apenas do conselho. O afastamento de Brandão já era esperado, justamente para abrir espaço para Trabuco, que ultrapassou a idade de aposentadoria. A aposentadoria de "seu" Brandão, como é conhecido por todos na organização, com 91 anos de idade, mais de 70 dedicados ao banco, marca o fim de uma era para o Bradesco. Brandão permanecerá na presidência do conselho de administração das sociedades controladoras do Bradesco. Dentro do banco, o executivo tido como mais provável sucessor de Trabuco hoje é o vice-presidente de tecnologia e marketing, Maurício Minas. Na alta cúpula, há quem dê como certa a promoção do executivo. O favoritismo já oscilou bastante ao longo do tempo e outros vice-presidentes também vinham sendo considerados para a vaga, caso de Marcelo Noronha (atacado e cartões) e Alexandre Glüher (relações com investidores e riscos). No passado, nomes como o de Marco Antonio Rossi, morto em um acidente aéreo, e Domingos Abreu já foram apontados como favoritos. Espera-se que o anúncio do substituto de Trabuco seja feito até dezembro, período em que tradicionalmente o banco costuma anunciar mudanças no alto escalão. Pelo estatuto do banco, Trabuco deveria ter sido substituído em março deste ano, com 65 anos. Mas, no ano passado, o banco decidiu alterar a regra para aumentar a idade limite para o exercício do cargo de presidente, de 65 para 67 anos. A alteração permitiu a Trabuco permanecer à frente do banco por mais dois anos, prazo que se encerraria em 2019. A mudança no cronograma se deu depois da morte de Rossi, então presidente da Bradesco Seguros, em um acidente de avião em 2015. Ao mesmo tempo, membros da cúpula do banco, incluindo Trabuco, passaram a ser réus em uma ação penal derivada da operação Zelotes, o que também conturbou o processo sucessório. A manutenção de Trabuco na presidência por mais tempo foi lida por muitos como um sinal público de confiança no executivo que o banco quis transmitir. Outro objetivo da postergação era não atrapalhar o processo de integração com o HSBC Brasil, a maior aquisição da história do banco. Neste momento, a avaliação interna, porém, é que a integração já está bem encaminhada. Não por acaso, a decisão de acelerar a sucessão se dá logo depois de a ação que existia contra Trabuco ter sido arquivada em junho. Assim como praticamente todos os movimentos estratégicos tomados pelo Bradesco nas últimas décadas, o processo de sucessão também foi liderado pelo próprio Brandão. Segundo relatos de executivos, nos últimos quinze dias um movimento atípico começou a ser notado, com reuniões a portas fechadas de Brandão e Trabuco. Pessoas próximas também consideram que pesou para a escolha do momento de se afastar o fato de Brandão ter perdido uma filha com menos de 70 anos na semana passada. Brandão começou no Bradesco antes mesmo de o banco propriamente existir. Ele iniciou a carreira em 1942 na Casa Bancária Almeida & Cia., instituição que, no ano seguinte, se transformou no Banco Brasileiro de Descontos, atual Bradesco. O executivo passou por todos os escalões da carreira bancária, em uma trajetória que se tornou praticamente obrigatória para todos os profissionais que pretendem alcançar cargos na cúpula da instituição. Brandão sucedeu Amador Aguiar, primeiro, em 1981, como presidente executivo e depois como presidente do conselho de administração, em 1990, acumulando os dois cargos ao longo da década. Em 1999, entregou a presidência executiva a Marcio Cypriano. Foi sob a liderança de Brandão que o Bradesco se tornou a maior instituição financeira privada do país, até ser ultrapassado no fim de 2008 pelo banco resultante da fusão entre Itaú e Unibanco. Em junho deste ano, o Bradesco reunia quase R$ 1,3 trilhão em ativos. De hábitos espartanos, Brandão é conhecido por não ter uma vida social ativa. O costume de chegar à sede da instituição, em Osasco, às 7h da manhã diariamente é conhecido por todo o mercado financeiro e impõe um horário atípico aos executivos do banco. A aparição pública mais recente de Brandão pelo banco ocorreu em agosto, durante evento com analistas e investidores em São Paulo. Na ocasião, fez um breve pronunciamento e disse que o país tem passado por transformações sociais e econômicas, o que invariavelmente implica reformulações. "Temos primado pelo otimismo e feito investimentos", afirmou. Com a ida de Trabuco para a presidência do conselho, Carlos Alberto Rodrigues Guilherme, que ocupa uma das vagas no colegiado, foi nomeado para a vice-presidência. O Bradesco convocou entrevista coletiva para hoje para detalhar as mudanças.