Melhor livro do ano no Jabuti tem poética nacional, reconhecível e batida

Publicado em 01/12/2018 por Folha de S. Paulo Online

À Cidade

  • Preço R$ 19,90 (ebook na Amazon)
  • Autor Mailson Furtado
  • Editora Independente

Quando seus ganhadores foram anunciados em São Paulo no início de novembro, a 60ª edição do Prêmio Jabuti vinha cercada de expectativas, especialmente desde as mudanças prometidas em sua curadoria, número de categorias e partes importantes do seu regulamento. 

Às expectativas veio encontrar-se a surpresa em torno do vencedor não apenas na categoria de melhor livro de poesia, como também de melhor livro do ano -a produção independente "À Cidade", do escritor cearense Mailson Furtado, de 27 anos.

As reações na comunidade editorial e literária dependeram em grande parte de que bairro na comunidade editorial a figura ocupava -descontentamento nos condomínios fechados, contentamento dos que se veem de uma forma ou de outra nas margens. 

Mailson Furtado O escritor cearense Mailson Furtado -

Divulgação

As reações foram ideológicas, afinal se tratava de uma edição de autor. Muito pouca gente havia tido acesso ao livro. 

A alegria, especialmente no campo da poesia, vinha pelo gênero ter alcançado a honraria máxima do prêmio. E também por ter vindo de um autor independente, desconhecido nos eixos de centralização da produção cultural que acaba por ter projeção nacional.

Vivemos tempos em que as boas intenções alcançaram grande valor literário.

Tudo isso tem sua injustiça, pois Mailson Furtado deveria ser lido e julgado como escritor, não como fenômeno sociológico do mercado livreiro. E não se trata de poesia popular, o autor tem mestrado pela Universidade Federal do Ceará, é cirurgião-dentista além de poeta e dramaturgo. 

E o Ceará teve e segue tendo uma literatura importante dentro do país, com figuras singulares do passado como José Albano e Gerardo Mello Mourão, além de contemporâneos como Everardo Norões e Samarone Lima, sem mencionar a poesia cantada de Belchior e Ednardo. 

O livro de Furtado deve portanto ser lido com o rigor crítico que alguns de nós dedicamos aos escritores das grandes editoras. Minha primeira impressão foi negativa por ter encontrado apenas excertos nas redes sociais. 

Não é um livro que possa ser julgado assim, pois o autor se vale de versos bastante curtos, de uma linguagem direta, como preconizado pelos primeiros modernistas. 

Neste aspecto, algo há que aprecio no livro: seu localismo, em versos como "a cidade se assusta/ ora com o agouro da acauã/ ora com as notícias da Funceme" ou "o marmeleiro descasca/ no seu verde antigo/ o açude racha/ no seu mar antigo".

Lido como poema longo, dividido em quatro partes, os versos ganham pelo caráter acumulativo dessa poética. Conhecemos isso de outros poemas longos mais fortes, como o "Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão" (1945), de Oswald de Andrade, que se vale também de versos curtos e do mais 
singelo lirismo. 

No entanto, há outra figura que a memória evoca ao começar a leitura do poema de Furtado. Seus versos iniciais ("tarde/ tarda/ alarme/ que fala/ que arde/ que geme// de tarde/ que fica/ cidade/ que falo") começam confirmando a eminência de Ferreira Gullar e seu "Poema Sujo" sobre o cearense. 

Aquele início do "Poema Sujo" ("turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro/ escuro/ menos menos/ menos que escuro") dá a toada. 

A estrutura e a linguagem do livro são muito influenciadas pelo maranhense. A celebração dos nomes das ruas de Varjota, de mulheres, trabalhadores da cidade com suas quitandas e vendas, tudo isso remonta à celebração da São Luís em Gullar. 

Mesmo os palavrões que aparecem em "À Cidade" são os que sujaram o poema de Gullar, com seus cus e bocetas. 

Se a emulação agradar a todo leitor, em especial o desavisado, o poema de Furtado poderá ter seu espaço em nossa discussão literária, na qual outras emulações passam despercebidas e são celebradas tanto na prosa quanto na poesia. 

O aprendizado não é pecado. Todo escritor elege seus mestres e busca se encaixar na sua família espiritual. 

É possível que referências estrangeiras ou o experimentalismo de outros livros tenham desagradado jurados suficientes para que a poética nacional, reconhecível, batida e tardo-modernista de Mailson Furtado tenha parecido uma aposta mais segura.