Mesquita: regime de metas foi eficaz

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Mesquita: regime de metas foi eficaz

Silvia Costanti/Valor

Mario Mesquita: "O que nós fizemos ali mostrou que era perfeitamente possível manter o regime de metas de inflação e enfrentar a crise ao mesmo tempo"

Diretor de Política Econômica do Banco Central (BC) à época da quebra do Lehman Brothers, Mario Mesquita defende a atuação da autoridade monetária na crise, rebatendo as críticas de que os juros demoraram a cair na crise. Segundo ele, "a política monetária foi norteada o tempo todo para o seu objetivo institucional, que é perseguir a meta de inflação", com resultados amplamente favoráveis.

Em 2009, a inflação ficou ligeiramente abaixo da meta, a recuperação da economia foi rápida e o BC cortou os juros a partir de janeiro daquele ano sem desancorar as expectativas inflacionárias, diz ele. "O que nós fizemos ali mostrou que era perfeitamente possível manter o regime de metas e enfrentar a crise ao mesmo tempo." O problema dos bancos de menor porte, que sofreram com aperto de liquidez, foi enfrentado pela redução dos compulsórios, para que as instituições maiores comprassem as carteiras de crédito das menores, afirma Mesquita, hoje economista-chefe do Itaú Unibanco.

Valor: Cinco dias antes da quebra do Lehman, o BC elevou mais uma vez os juros, de 13% para 13,75% ao ano. Já havia nervosismo nos mercados internacionais. O BC não deveria pelo menos ter interrompido o ciclo de alta da Selic?

Mario Mesquita: O BC vinha elevando os juros porque tínhamos uma economia claramente aquecida. Naquele trimestre, a demanda doméstica cresceu 9,5% [em relação ao mesmo período de 2007]. O PIB estava crescendo a 7%. O resultado em conta corrente, que era positivo, ficou negativo. As expectativas de inflação estavam em elevação. A inflação tinha aumentado. E o Brasil também naquele ano de 2008 chegou ao grau de investimento. Havia uma certa exuberância no mercado, com vários sinais de excesso. [Mas] Existia sim o risco de alguma coisa ocorrer. Nós já tínhamos visto isso em março, com o episódio do Bear Stearns, embora depois a economia global tenha continuado bem aquecida. Depois da eclosão da crise do Lehman, o BC parou o ciclo, mesmo com as expectativas de inflação ainda piorando, a inflação em alta e o câmbio depreciando. No começo de 2009 começamos a cortar os juros.

Valor: Qual foi o primeiro impacto da quebra do Lehman sobre o Brasil?

Mesquita: O câmbio começou a depreciar muito. O movimento foi agravado pela presença dos derivativos exóticos, que acabou exacerbando o movimento do câmbio. Mesmo assim, nós acreditávamos que, dentro da lógica do regime de metas com câmbio flutuante, a moeda é a variável de ajuste. Não havia intenção de inibir o movimento do câmbio, mas de prover liquidez e garantir que o apreçamento fosse feito em condições razoáveis.

Valor: O BC vendeu linhas com recompra de dólar já em 18 de setembro, criou um mecanismo de empréstimos de moeda estrangeira para financiamento de comércio exterior em outubro e anunciou um leilão de até US$ 50 bilhões de swaps cambiais. Essas medidas não visavam deter a desvalorização?

Mesquita: Não. O BC não pode ter meta para câmbio num regime de câmbio flutuante. Outra medida importante do ponto de vista de sinalização foi o acordo de swap de moedas com o Fed [Federal Reserve, o banco central americano]. O Fed tinha feito vários acordos de swap de moeda com vários BCs de economias desenvolvidas. E nós e outros emergentes importantes tínhamos ficado de fora. Apesar de o sistema bancário ser sólido e de a economia estar com um nível de reservas elevado, as nossas instituições financeiras começaram a sofrer discriminação por estarem fora desse guarda-chuva. Aí nós consideramos importante fazer esse acordo de swap de moedas, fruto de uma série de conversas do BC com as autoridades especialmente do Fed de Nova York, a parte internacional do Fed. Aí fizemos um acordo com eles, que também envolveu outros emergentes.

Valor: Os bancos pequenos sofreram com um forte aperto de liquidez. Como o BC agiu?

Mesquita: O sistema bancário como um todo ganhou depósitos, mas eles foram concentrados nos bancos de maior parte. O principal instrumento foi o uso dos compulsórios. Nós cortamos o compulsório condicionado à compra de ativos de instituições de porte menor [a aquisição das carteiras de crédito], para direcionar a liquidez para os bancos pequenos.

Valor: O que mais englobou a ação do BC e quais eram as principais preocupações da diretoria?

Mesquita: Uma delas é que nós considerávamos que a crise poderia ser transitória, mas tínhamos que trabalhar como se pudesse ser muito prolongada. Dada a fragilidade do sistema financeiro internacional, não descartámos a hipótese de o BC ter que atuar por bastante tempo no financiamento do comércio exterior. Não é uma função clássica de um BC, mas, numa crise, você pode ter que fazer. Éramos muito cautelosos no uso de reservas e também não queríamos socializar prejuízos do setor privado. Outra preocupação era administrar a crise do melhor modo possível, mitigando o impacto para a economia e para o sistema financeiro, sem prejudicar e sem fragilizar o regime de metas. A política monetária foi norteada o tempo todo para o seu objetivo institucional, que é perseguir a meta de inflação.

Valor: Entre outubro e dezembro, a produção industrial caiu 20%. Não era um sinal de que podia ter cortado os juros ainda em 2008?

Mesquita: A política monetária não atua de modo instantâneo sobre a atividade. Não há corte de juros que se faça em outubro que vá influenciar a produção industrial em novembro. Houve naquela época uma queda fortíssima da produção industrial no mundo inteiro. Muitas multinacionais localizadas no Brasil estavam vivendo problemas quase existenciais em sua casa matriz. Não era o nível dos juros aqui que ia mudar o modo de elas atuarem. O problema dos bancos também não ia ser resolvido com o nível dos juros. Era permitir que a liquidez fluisse das instituições maiores para as menores. Quanto aos juros, observamos primeiro se as nossas projeções estavam mostrando convergência da inflação para a meta, e aí nós fizemos um movimento com segurança em janeiro.

Valor: O fato de a política monetária atuar com defasagem não recomendaria antecipar o corte de juros?

Mesquita: A retomada foi muito rápida, uma recuperação em "V". O PIB no segundo semestre [de 2009] já vira positivo e terminou o ano crescendo bem. Em 2010, o crescimento foi forte. A inflação ficou abaixo da meta, mas próxima [ficou em 4,31% e o alvo era 4,5%]. O fato de as expectativas de inflação estarem ancoradas permitiu que você cortasse os juros e persistisse nessa redução por mais tempo. Nós cortamos a Selic para 8,75% sem desancorar as expectativas. O que nós fizemos ali mostrou que era perfeitamente possível manter o regime de metas e enfrentar a crise ao mesmo tempo.