Morte de equipe equatoriana expõe obstáculos após acordo com Farc

Publicado em 14/04/2018 por O Globo

Mulheres depositam flores em fotos da equipe do "El Comercio" assassinada no Equador: presidente oferece recompensa de US$ 100 mil por informações - Dolores Ochoa/AP

QUITO, LIMA e RIO - O assassinato dos jornalistas equatorianos sequestrados na fronteira com a Colômbia, no fim de março - confirmado na sexta-feira pelo presidente Lenín Moreno - causou preocupação entre os líderes da região presentes na Cúpula das Américas, no Peru, e apresentou novos desafios à Colômbia após o acordo de paz com as já dissolvidas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O repórter Javier Ortega, o fotógrafo Paúl Rivas e o motorista Efrain Segarra, do "El Comercio", foram sequestrados em 26 de março quando realizavam reportagens no povoado de Mataje, na Colômbia, onde as autoridades dos dois países perseguem grupos de guerrilheiros dissidentes. A notícia das mortes chocou o Equador.

- Com profundo pesar, lamento informar que se cumpriram as 12 horas do prazo e não recebemos provas de vida e infelizmente temos informações que confiram o assassinato de nossos compatriotas - disse Moreno, anunciando que o Exército retomou as operações na fronteira. - Apesar dos nossos esforços, confirmamos que os criminosos nunca tiveram a vontade de entregá-los sãos e salvos e, muito provavelmente, o único que queriam era ganhar tempo.

Os sequestradores exigiam a libertação de três pessoas presas no Equador e o fim da cooperação de Quito com Bogotá em segurança. A última prova de vida dos reféns foi no último dia 3, quando um áudio com fotos deles acorrentados foi divulgado. Moreno ainda ofereceu uma recompensa de US$ 100 mil por informações que levem à captura do chefe do grupo armado que sequestrou a equipe, conhecido como Guacho, no Equador ou na Colômbia. O presidente estava em Lima, capital do Peru, para participar da Cúpula das Américas, mas deixou às pressas o encontro para acompanhar a situação dos sequestrados. O caso elevou a tensão no encontro, e levou os governos do Equador e da Colômbia a intensificarem a cooperação bilateral.

Antes mesmo do anúncio, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, se reuniu com a chanceler equatoriana, Maria Fernanda Espinosa, para reiterar, segundo uma alta fonte do governo da Colômbia, sua decisão de colaborar em todo o possível com o governo do Equador. Para Santos, o sequestro representa um golpe ao acordo de paz.

- Faz parte da lógica dos acordos de paz que algumas pessoas não participem e acabem acontecendo este tipo de coisas. São riscos que se correm - disse a fonte colombiana.

Países negaram tentativa de resgate

Em entrevista coletiva, pouco depois do anúncio, Santos condenou o assassinato e reiterou a colaboração para que os responsáveis pelo crime sejam levados à Justiça. Mas reforçou que os criminosos não têm ligação com as Farc.

- São grupos de criminosos dedicados ao narcotráfico. As Farc deixaram de existir. O Guacho é um cidadão equatoriano, mas sabemos que apenas colaborando com as Forças Armadas do Equador vamos prender esse criminoso.

Em nota, o Itamaraty transmitiu "sua solidariedade ao governo, ao povo equatoriano e aos familiares das vítimas" e reconheceu "o papel da imprensa como elemento fundamental da democracia". O assassinato também foi assunto de conversa entre o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, e sua colega equatoriana, Maria Fernanda Espinosa. Segundo fontes brasileiras, no encontro a ministra afirmou que "há grupos armados residuais da guerrilha colombiana que não aderiram ao acordo de paz".

- As dissidências e o resto de grupos armados ilegais relacionados ao narcotráfico continuarão sendo um fator de violência. Se esses grupos se mantiverem fragmentados, será possível lutar contra eles de forma efetiva - disse ao GLOBO Borja Paladini, representante na Colômbia do Instituto Kroc para Estudos Internacionais da Paz. - Um desafio do governo Santos é impedir que consigam formar grupos maiores e mais difíceis de serem combatidos.

Katherine Aguirre, economista colombiana com experiência em áreas de violência e pesquisadora associada do Instituto Igarapé, lembra que no processo as dissidências foram esquecidas.

- Em qualquer processo de paz se poderia esperar a existência de grupos como esses, que atuariam no espaço deixado pelas Farc, ainda mais em um contexto onde vários outros negócios ilegais que alimentam essas dissidências são praticados - explicou. - Mas o governo colombiano não se encarregou desses grupos, o que lhes deu impulso para atuar nesse vácuo.

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Conheça a equipe de reportagem sequestrada entre Colômbia e Equador

Em protesto em Quito, equatorianos pedem liberdade do repórter Javier Ortega, do fotógrafo Paul Rivas e do motorista Efraín Segarra - RODRIGO BUENDIA / AFP

Na quarta-feira, um comunicado emitido pela Frente Oliver Sinisterra informara que os três equatorianos haviam morrido em uma operação de resgate fracassada. A Colômbia e o Equador negaram qualquer tentativa de resgate.

Agora, o governo colombiano enfrenta desafios concretos. Para os analistas, é preciso fazer um trabalho de inteligência, não apenas militar, para cumprir os compromissos reais do acordo, além de dar melhores condições econômicas às comunidades mais vulneráveis às dissidências. Além disso, as Farc, como grupo desmobilizado, devem abrir seus canais de informação, de maneira que sejam um ator ativo para ajudar a abordar as dissidências.

- Ainda não há um plano nacional de reincorporação que articule toda a oferta do Estado e de respostas coletivas e individuais às necessidades dos ex-combatentes. Os primeiros projetos de apoio estão começando só agora, com atraso - ressaltou Paladini.

Os dois governos divergem sobre o local do crime. Enquanto Santos sustenta que ele foi praticado no Equador, Quito defende desde o começo que, após o sequestro, os jornalistas tenham sido levados para a Colômbia. Mas Aguirre não acredita que as mortes possam suscitar uma crise diplomática entre os países, como a de 2008 - quando a Colômbia atacou uma base militar na mesma região, matando Raúl Reyes e um grupo de mais 16 guerrilheiros.

- Embora grave, não creio que o caso alimente uma crise como aquela, que também foi causada por diferenças profundas de governo entre o então presidente, Álvaro Uribe, e o equatoriano Rafael Correa - afirmou.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha confirmou ter recebido pedido de autoridades equatorianas e colombianas, de familiares e do grupo liderado por Guacho, para facilitar uma operação para recuperar os corpos das vítimas.

Parentes e amigos pedem o retorno da equipe de reportagem sequestrada na fronteira entre Equador e Colômbia - RODRIGO BUENDIA / AFP

(Colaborou Janaína Figueiredo, enviada especial a Lima)