No Brasil, 1,4 milhão investem em criptomoedas

Publicado em 12/02/2018 por Jornal do Comércio - RS

O número de investidores brasileiros em criptomoedas - tendo o bitcoin como protagonista - já encosta em 1,4 milhão, mais do que o dobro do número de CPFs cadastrados na bolsa brasileira, a B3, hoje na casa de 620 mil. Se mantido esse ritmo, o número dos compradores desse tipo de ativo ultrapassará, em breve, o volume de investidores do Tesouro Direto, que vem comemorando números recordes, atualmente em cerca de 1,8 milhão.
O volume financeiro total movimentado no ano passado pelas criptomoedas em todo o Brasil foi de R$ 8,2 bilhões. O bitcoin virou febre após sua cotação chegar a US$ 20 mil - uma valorização de 1.400%. O interesse se mantém em 2018, mesmo após a queda brusca no valor, que chegou a US$ 6,9 mil no dia 5.
A nova notícia é que, agora, os olhos do mercado financeiro tradicional estão voltados para quando parte desses investidores migrará seus recursos para valores mobiliários, como as ações de empresas negociadas em bolsa. Essa aposta tem razão simples: segundo dados das corretoras de criptomoedas, o grupo dos investidores de bitcoin no Brasil é formado, em grande parte, por homens solteiros, entre 25 e 35 anos - exatamente um público que, de acordo com economistas, pode investir em maior peso em ações.
Esse perfil responde hoje por aproximadamente 25% dos investidores da B3, considerando o número de contas abertas. Há ainda o público feminino, de potencial crescente.
"Quem começou a investir em bitcoin está começando a se acostumar com volatilidade. Depois de vários anos de altas taxas de juros, agora o jovem parece aceitar bem esse risco", afirma Luiz Roberto Calado, economista da corretora Mercado Bitcoin - que já está próxima de alcançar, sozinha, 1 milhão de clientes.
Além do gostinho que ficou da valorização da moeda no ano passado, contribui para o crescimento rápido desse mercado a possibilidade de compra de uma fração de moedas digitais, com aportes baixos, de R$ 50,00, por exemplo. Ou seja, não há a barreira que existe em outros ativos financeiros, diz o especialista em criptomoedas da XP Investimentos, Fernando Ulrich, que chegou à XP em novembro. "Hoje, o perfil dos investidores já é muito mais pulverizado."
Na corretora FlowBTC, os cerca de 30 mil investidores que aplicam em moedas digitais têm, em sua maioria, entre 20 e 30 anos. Além disso, a clientela estava antes concentrada no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, mas agora já está espalhada pelo País, com crescimento relevante no Nordeste, conta o sócio-fundador Marcelo Miranda.
Grande parte dos investidores de moedas virtuais, no entanto, não analisa os fundamentos do ativo, comenta Luis Felipe Carvalho, que coordena cursos sobre o tema na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). "Esse não deveria ser um negócio de especulação. É preciso entender que comprar criptomoeda significa investir em tecnologia. É necessário verificar se a tecnologia (por trás de determinada moeda) faz sentido", diz Carvalho. No mercado, existem mais de 1,3 mil moedas virtuais.
A compra desenfreada do ativo, em busca de ganhos rápidos, é o que acaba inflando artificialmente o mercado, explica Carvalho. Ele frisa que muitos investidores têm baixíssimo conhecimento no assunto. Um fato que exemplifica é o de investidores terem comprado a moeda bitConnect em vez de bitcoin, por conta da semelhança dos códigos BCC e BTC. O BCC, que é a bitConnect, perdeu em um dia 98% de seu valor após acusação de pirâmide.
Mais uma vez, esses investidores precisam prestar atenção a uma prática já conhecida no mercado de ações. No momento em que uma empresa coloca na rua uma Oferta Inicial de Ações (IPO, na sigla em inglês), divulga um prospecto no qual comunica dados da companhia, do setor e riscos do investimento, por exemplo. Em criptomoedas, há documento semelhante, os chamados white papers, ou livros brancos, que listam todos os pontos comerciais, tecnológicos e financeiros da moeda.