Nobel de 2017 reforça a necessidade de mudanças na ciência econômica

Publicado em 12/10/2017 por Folha de S. Paulo Online

Em artigo publicado na última terça-feira (10) no Project Syndicate sobre a escolha de Richard Thaler como vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2017, o ganhador do prêmio em 2013, Robert Shiller, celebrou a notícia e fez questão de ressaltar que foi uma escolha controversa: "para alguns na profissão, a mera ideia de que a pesquisa psicológica deve ser parte da economia vem gerando hostilidade por anos".

Segundo Shiller, Thaler não era sequer cumprimentado por seu colega da Universidade de Chicago e vencedor do Nobel de 1990, Merton Miller, que em artigo de 1986 defendeu que as evidências de comportamento não racional -objeto de pesquisa de Thaler- continuassem sendo ignoradas na construção de modelos: "não porque essas histórias sejam desinteressantes, e sim porque elas podem ser interessantes demais e, assim, desviar-nos das forças generalizadas de mercado que deveriam ser nossa principal preocupação", escreveu.

O comportamento otimizador dos agentes e a hipótese das chamadas expectativas racionais, segundo a qual, em média, uma população de agentes está correta sobre o que ocorrerá no futuro, servem para fundamentar, por exemplo, a Hipótese dos Mercados Eficientes (HME).

Em sua versão forte, a HME postula que os preços dos ativos financeiros refletem toda a informação disponível sobre tais ativos, ajustando-se rapidamente às novas informações. Não seria possível para um agente comprar uma ação abaixo do seu preço justo ou vendê-la acima desse preço, por exemplo.

Enquanto Robert Shiller questionou a HME por meio do estudo de bolhas financeiras geradas pela chamada exuberância irracional de agentes movidos pelo sentimento do mercado, Thaler concentrou-se em realizar experimentos que mostrassem desvios do comportamento racional otimizador.

Em coluna nesta Folha de 18/9/2015 mencionei o artigo intitulado "Keyness beauty contest" de Richard Thaler publicado no jornal Financial Times em 10 de julho de 2015, que relata o resultado de um de seus experimentos.

Keynes considerava que os agentes do mercado financeiro operavam não a partir das informações que tinham disponíveis sobre os ativos em questão, e sim com base na percepção sobre o que fariam os outros agentes, em média. Mas se os agentes sabem que os demais agentes agem dessa forma, o jogo passa a ser o de adivinhar o que os demais agentes vão achar que os demais agentes vão achar, e assim por diante. O resultado é que os preços dos ativos financeiros descolam-se completamente de qualquer fundamento real.

O experimento de Thaler ofereceu um prêmio aos leitores do jornal Financial Times que adivinhassem o número de 0 a 100 o mais próximo possível de dois terços do valor do palpite médio dos demais leitores. Assim, o leitor de nível 1 pensaria que a média de palpites seria 50 e escolheria 33, dois terços de 50. O leitor de nível 2 pensaria que os demais leitores escolheriam 33, chutando 22. O leitor de nível 3 pensaria que os demais são leitores de nível 2, escolhendo 15, e assim por diante. A média dos palpites da pesquisa foi de 18,9 em 1997 e 17,3 em 2015, com o palpite vencedor sendo 13 e 12, respectivamente.

Se a "analogia do concurso de beleza de Keynes continua uma descrição apta de como os mercados financeiros funcionam", como concluiu Thaler, talvez o Nobel de 2017 possa servir para que analistas econômicos e membros de governos parem de atribuir toda e qualquer alta na bolsa de valores a melhoras no cenário econômico real.