A nova aposta do Planalto na sucessão

Publicado em 10/07/2018 por Valor Online

A nova aposta do Planalto na sucessão

Com 49 deputados e a terceira maior bancada da Câmara dos Deputados, o PP é a bola da vez na corrida presidencial. O partido é cortejado pelo PSDB de Geraldo Alckmin e pelo PDT de Ciro Gomes, apesar das diferenças ideológicas entre uma e a outra sigla. Agora o MDB do presidenciável Henrique Meirelles também entrou na disputa pelo partido cujas origens remontam à antiga Arena. Meirelles conta com o reforço e o peso do Palácio do Planalto na empreitada.

O pré-candidato Meirelles já teve ao menos uma conversa com o presidente do PP, Ciro Nogueira. Os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Minas e Energia) também entraram no circuito. O PP compõe o núcleo mais conservador do chamado Centrão da Câmara. É o partido mais adaptado ao pacto de governabilidade vigente. Não por acaso sobreviveu - enquanto crescia - a governos tão distintos como foram os do PSDB, PT e MDB.

O PP estava de braços dados com o PT no mensalão, o esquema de compra de votos na Câmara descoberto em 2005. Também é um dos partidos envolvidos mais a fundo no escândalo de desvio de recursos da Petrobras passado a limpo pela Operação Lava-Jato. A sigla já parasitava a estatal quando o deputado Severino Cavalcanti ganhou do PT a presidência da Câmara, em 2005, pouco antes do estouro do mensalão, e pediu a diretoria "que fura poço" para compor com Lula.

Na conta de Padilha, Meirelles já tem maioria no MDB

No mercado eleitoral, o PP vale os 52 segundos a que tem direito no horário eleitoral gratuito no rádio e televisão. Não é pouco. Apenas o PT, o MDB e o PSDB dispõem de mais tempo no guia eleitoral. PSDB, PSD, PTB, PV e PPS, os partidos que já estão com Alckmin, somam cerca de 2 minutos e 30 segundos de TV; o MDB sozinho tem cerca de 1 minuto e 28 segundos. Meirelles encosta em Alckmin se levar o PP. O PSDB assume uma posição mais confortável, se bater o MDB e o Palácio do Planalto e levar o tempo do PP.

O PP é um partido dividido como os demais. O piauiense Ciro Nogueira é quem dá as cartas, sobretudo no Nordeste, e o contexto regional poderia levá-lo a apoiar o xará do PDT, segundo já confidenciou a mais de um interlocutor. O presidente do PP costuma dizer que Geraldo Alckmin não vence a eleição, por falta de votos, e que Ciro Gomes ficará muito forte na região, se Lula não for candidato. Pelo sim, pelo não, conversa com o MDB. No Sul o partido fica entre o PSDB e uma parte menor com o MDB. Na eleição é provável que cada qual vá para o seu lado. O que importa é com quem ficará o tempo da televisão.

O movimento de Meirelles em direção ao PP não é vazio. A candidatura do ex-ministro avançou e ganhou corpo no MDB. Em vez de esperar pela ação dos caciques que sentam praça em Brasília e mais torciam o nariz do que ajudavam sua candidatura, Meirelles tratou de estabelecer uma ligação direta com os diretórios regionais do partido. O último candidato do MDB foi Orestes Quércia, em 1994. A base do partido sempre quis um nome próprio. A cúpula é que em geral manobrou numa ou outra direção, de acordo com seus interesses.

O pré-candidato do MDB já visitou 15 dos 26 Estados. Em 12 o partido é competitivo nas eleições para governador. No Pará de Jader é favorito a levar no primeiro turno, com Helder Barbalho. Na viagem a Belém, Jader ficou um dia inteiro à disposição do ex-ministro. O ex-presidente José Sarney, que tem um pé no Maranhão e outro no Amapá, telefonou para conversar depois da passagem do ex-ministro pela capital do antigo território.

Difícil assegurar que o ex-ministro está vencendo o descrédito da cúpula. Mas é certo que tirou os figurões do governo da zona de conforto. "Eu aprendo rápido", costuma dizer Meirelles.

Para se tornar o candidato oficial do MDB, o ex-ministro Meirelles precisa passar por convenção nacional, marcada ontem para o dia 4 de agosto pelo presidente do partido, Romero Jucá, um dos dirigentes que costumam cobrar desempenho do candidato. Publicamente. Provavelmente será no fim de julho. Pelos cálculos de Eliseu Padilha, um especialista na contabilidade de votos do MDB, Meirelles já teria confirmados 443 dos 629 votos dos convencionais.

A cereja no bolo de Meirelles pode ser o PP. Além dele próprio, os ministros mais próximos do presidente Michel Temer entraram na campanha e passaram a ser vistos com mais frequência na Fundação Ulysses Guimarães, o QG provisório da candidatura de Henrique Meirelles. O governo pode não aparecer à frente, mas estará na retaguarda de Meirelles, quando e se ele for confirmado como candidato do MDB.

Um convescote no Palácio do Jaburu que reuniu João Doria e o pré-candidato do MDB ao governo de São Paulo, Paulo Skaf, aparentemente foi a última tentativa de setores do Planalto para tentar trocar Geraldo Alckmin por João Doria como candidato do PSDB. Ao menos por enquanto. Doria foi à reunião atendendo convite de Skaf. Para ser educado e para não fechar uma porta para o segundo turno. O ex-prefeito já não tem o Planalto como referência.

A investida de Meirelles sobre o PP atrapalha sobretudo os planos de Geraldo Alckmin, que esperava levar o DEM, o PP e o Solidariedade num balaio só para sua coligação presidencial. Se Alckmin conseguir mais os três partidos para sua aliança, o candidato a vice-presidente na chapa será o ex-ministro Aldo Rebelo. Atualmente o PSDB conta com o apoio de quatro partidos e tem algo em torno de 20% do horário na TV, segundo cálculos do próprio Alckmin. O objetivo é chegar a pelo menos 35% do guia eleitoral. O DEM cozinha o PSDB para tirar o máximo de Alckmin: a vaga de vice na chapa, a presidência da Câmara dos Deputados e ministérios importantes no eventual retorno dos tucanos à Presidência.

O PP também não se contenta só com a vice de João Doria em São Paulo, mas tem sido um partido mais reservado ideologicamente, enquanto o DEM acena publicamente e ao mesmo tempo para agendas tão distintas como a de Ciro Gomes e o PDT e a de Geraldo Alckmin e o PSDB. Se fizer um acordo com o MDB, o PP realiza um antigo sonho do Planalto de constituir uma coligação capaz de competir pelos votos da direita com Jair Bolsonaro (PSL) na sucessão.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail: raymundo.costa@valor.com.br