Novas regras podem estimular parceria entre varejistas e fintechs

Publicado em 08/08/2018 por Valor Online

Novas regras podem estimular parceria entre varejistas e fintechs

SÃO PAULO  -  Desde que o Conselho Monetário Nacional (CMN) liberou as fintechs para oferecer empréstimos com recursos próprios, a procura de varejistas por parcerias com essas empresas de tecnologia financeira se intensificou. A ideia dos lojistas é substituir os bancos na oferta de crédito aos seus clientes e ganhar eficiência, uma vez que a estrutura das startups é mais enxuta.

Até as mudanças na regulamentação, os empréstimos só podiam ser feitos por meio de um banco ou de uma financeira, explica Larissa Arruy, advogada do escritório Mattos Filho. Portanto, para dar crédito aos clientes, o caminho mais usado pelas lojas era a contratação de uma instituição financeira, remunerada pelo serviço com parte da receita gerada pela cobrança de juros.

Francisco Ferreira, fundador da fintech BizCapital, afirma que a procura das varejistas para firmar parcerias sempre existiu, mas se intensificou com as novas regras. “Antes da resolução, as varejistas já nos procuravam pela questão da agilidade, tecnologia, e do tempo menor de entrega do crédito que oferecíamos para os seus clientes”, diz. A mudança das regras fez a procura aumentar, devido à “segurança jurídica” que traz para o varejista.

Antes, as fintechs faziam todo o relacionamento com o tomador do empréstimo, mas, como não podiam operar com recursos próprios, funcionavam como uma espécie de correspondente bancário, repassando o crédito. “A resolução é uma demonstração clara do Banco Central de que as fintechs são relevantes. Do ponto de vista do mercado, isso aumenta a credibilidade dessas empresas e mais varejistas nos procuram”, afirma o fundador da BizCapital.

Ferreira diz ter sido procurado por varejistas e redes de franquia, interessadas em dar crédito não só aos clientes, mas a franqueados e fornecedores. Atualmente, a BizCapital está preparando o dossiê para entrar com o pedido no Banco Central para se tornar uma Sociedade de Crédito Direto (SCD) e, assim, poder emprestar capital próprio.

Outra opção cogitada pelos lojistas é ter sua própria fintech, partindo do zero ou comprando uma das empresas no mercado, a fim de dispensar o intermediário na hora de conceder crédito. “Quando surgiu essa regra nova que diz que uma fintech pode fazer empréstimos de forma on-line com recurso próprio, os varejistas pensaram: ‘quando o comprador fizer um crediário ou usar o cartão da loja, não preciso mais do banco, posso usar o meu recurso para dar esse crédito e ganhar 100% dos juros cobrados’”, afirma o advogado Bruno Balducci, do escritório Pinheiro Neto. Ele conta que têm recebido muitos lojistas interessados em criar uma solução semelhante.

Segundo o advogado, não há impedimento legal para que as varejistas usem essa estratégia. A regra, diz Balducci, só exige que a empresa tenha disponível um valor mínimo de R$ 1 milhão, que deve ser usado para comprar títulos de governo e, assim, provar para o Banco Central a existência do recurso antes de fazer o pedido de abertura da fintech.

A regulação, contudo, prevê que apenas as empresas que funcionam no universo on-line — característica principal das fintechs — podem se enquadrar na nova regra. Isso exigirá, portanto, uma reformulação da forma como o crédito é dado ao comprador das lojas físicas. “O varejista vai ter de mudar seu negócio, a parte do crédito vai ter de ser resolvida dentro da loja por meio de um aplicativo ou sistema digital. Os vendedores podem fazer uso de tablets, por exemplo”, diz Balducci.

Na prática, o processo para o cliente, nos dois casos, continua o mesmo. No caso do cartão de loja, Balducci explica que, quando o cliente contrata o plástico — emitido por empresas especializadas em cartões de loja como DMCard e Sorocred —, assina uma cláusula que diz que, se fizer apenas o pagamento mínimo da fatura, um “empréstimo” será tomado automaticamente para pagar o restante do valor à loja. “Antes, quem fazia esse empréstimo era o banco ou a financeira e, agora, será a própria varejista, por meio da fintech criada ou contratada”, diz.

O que tende a mudar, segundo especialistas, é a taxa de juros. Para Balducci, a tendência é que as taxas cobradas do consumidor caiam, à medida que mais concorrentes entrem no mercado. “No médio prazo, a entrada de vários participantes na oferta de empréstimo, com uma estrutura mais leve, deve gerar mais competição e levar à redução das taxas de juros”, afirma.

Ferreira, da BizCapital, concorda que os juros podem cair com a entrada de fintechs na prestação do serviço. “Mais concorrência sempre ajuda a fazer o juro cair, uma vez que há mais opções para os clientes”.

Já para Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), os juros podem subir caso as varejistas optem por criar fintechs próprias, já que elas não são especializadas em avaliação de crédito. “O lojista não é especialista em precificar corretamente o risco e dar crédito às pessoas certas. Se ele tentar fazer isso sozinho, pode fazer de forma errada e cobrar juros até mais altos para cobrir eventuais perdas com inadimplência”, afirma. Para ele, ainda que as lojas tenham dados dos clientes, a avaliação de crédito deve ser feita por empresas com experiência nessa atividade.

Em junho, segundo dados da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a taxa de juros média praticada no comércio era de 5,28% ao mês para a pessoa física. O valor era inferior ao praticado no cartão de crédito (11,93%), cheque especial (11,97%) e empréstimo pessoal com financeiras (7,20%). A taxa cobrada no comércio, no entanto, superava o juro do empréstimo pessoal tomado em bancos, que ficou em 4% ao mês em junho.

O presidente da ABCD acredita que a maneira mais viável de varejistas concederem crédito próprio é investir em fintechs especializadas em empréstimo. “Eu acredito mais em aquisições e parcerias de fintechs com o varejo. Porque a fintech é especialista em fazer avaliação, ela conhece big data, e o varejo conhece seu próprio negócio. Aí você soma essas duas forças”, afirma.

Sergio Furio, presidente da Creditas, afirma que, apesar de existir a possibilidade de essas empresas montarem uma fintech “dentro de casa”, essa saída pode fazer com que as empresas percam eficiência. “A gente aposta muito no modelo de parceria. O mesmo que aconteceu com os bancos pode acontecer com fintechs, mas com custo mais enxuto”, afirma.