País não aprendeu com a crise, diz Torós

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

País não aprendeu com a crise, diz Torós

Silvia Costanti/Valor

"Independentemente de medidas adotadas, que foram boas, o Brasil estava bastante preparado para aquela crise e acabou sendo o último a entrar e o primeiro a sair dela", diz Mario Torós

Ator da reação brasileira à crise financeira de 2008, o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Mario Gomes Torós lamenta que o país não tenha aproveitado uma das principais lições deixadas pela ruína que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers, em setembro daquele ano. "Independentemente de medidas adotadas, que foram boas, o Brasil estava bastante preparado para aquela crise e acabou sendo o último a entrar e o primeiro a sair dela", diz. "O que é decepcionante é que não se deu um andamento. Hoje o Brasil não está preparado para um choque adverso."

Valor: A crise financeira de 2008 ainda ecoa?

Mario Torós: Depois de oito anos de expansão monetária, vivemos a normalização dessas políticas. Nos países que são mais vulneráveis - no Brasil, por exemplo, em que temos toda a incerteza eleitoral -, o processo de aperto monetário está levando a movimentos desproporcionais. Vimos isso na Argentina e na Turquia. Erros de política econômica local estão levando a movimentos desproporcionais de ajuste dos ativos desses países. Os países que de alguma forma não estão e não fizeram algum trabalho de ajuste durante esse período de bonança, ou de transição lenta, acabam levando a um cenário de ajuste muito rápido. Além disso, existe uma questão técnica de mercados na comparação com dez anos atrás. Como consequência da crise de 2008, os bancos ficaram muito limitados para poder absorver movimentos de mercado, em função das regras mais rígidas de alavancagem. Portanto, o mercado ficou basicamente nas mãos do "real money", dos investidores institucionais, das seguradoras, que têm espírito mais de manada do que os bancos, que de alguma forma são mais sensíveis a preços.

Valor: Isso amplifica os movimentos?

Torós: Tem dois efeitos. Por um lado, porque são compradores de longo prazo, isso mantém a volatilidade muito baixa, por muito tempo. Mas, quando há movimento forte, tende a amplificá-lo, numa reação desproporcional. Isso é uma diferença fundamental e consequência da crise de 2008. O que estamos vivendo nos mercados é a combinação de um cenário de aperto de liquidez, e essa questão técnica importante. Ambos levando a movimentos de ajuste desproporcionais. É uma realidade que está aí e não vai mudar.

Valor: O senhor falou de Argentina e Turquia. Já houve quem colocasse o Brasil como uma próxima peça a cair. Temos tido solavancos, mas nada comparado ao que aconteceu nesses países. Existe esse risco para o Brasil?

Torós: Já há algum tempo temos uma visão, aqui, muito cautelosa com os mercados emergentes, em função desses dois aspectos que mencionei. O Brasil tem uma posição econômica extremamente vulnerável. Uma situação fiscal muito difícil, de difícil resolução, um imbróglio fiscal. E, portanto, é um país vulnerável, de fato, a sofrer esses movimentos desproporcionais do mercado.

Valor: Mas o senhor acha que se devem mais a esse cenário externo ou ao cenário de desequilíbrio fiscal e eleitoral?

Torós: Difícil precisar o que predomina. Precisamos encarar o fato de que cenário que vamos encontrar para os anos de 2019 e 2020 no mundo é extremamente negativo para a gestão da política econômica doméstica. Portanto, a política doméstica tem que se ajustar a esse novo cenário. Quanto mais cedo fizer isso, melhor vai ser o resultado; quanto mais tarde fizer isso, pior vai ser o resultado. Acho que a Argentina é um bom exemplo: tinha políticas na direção que o mercado acreditava, mas optou por fazer um movimento muito lento, um ajuste muito lento, acreditando que a bonança do mercado duraria e, portanto, poderia financiar, com aumento de endividamento, um processo muito lento de ajuste. Não deu tempo. Simples assim.

Valor: Na política monetária, o BC poderá ter que mudar de rumo?

Torós: A âncora central da política monetária é a política fiscal. Na hipótese de se iniciar novo processo de deterioração a partir de 2019, haverá desancoragem das expectativas de inflação. A expectativa hoje está ancorada, mas a cada dia você tem que cuidar que continue. Está ancorada por causa do trabalho do BC e porque a economia está muito fraca. Mas pode mudar rapidamente.

Valor: Quão rapidamente?

Torós: Dependendo das mensagens que você tiver de política econômica pós-eleição, pode ser muito rápida, no mínimo indo em direção de novo ao teto da banda.

Valor: Sobre a crise de 2008, quais foram os ingredientes que levaram àquela enorme exposição aos derivativos cambiais no país?

Torós: Não foi um fenômeno único do Brasil. Aconteceu em vários países, basicamente Coreia e México, por exemplo, que são dois países emergentes, na época "investment grade" como era o Brasil. Havia essa ideia de criar instrumentos de alavancagem em todo lugar, permitindo que as pessoas tomassem dinheiro mais barato ou aplicassem o dinheiro melhor, tendo um risco associado que parecia não ocorrer. Em toda bolha, em todo processo de alavancagem excessiva, o que ocorre em geral é uma certa negligência em relação aos riscos que podem tomar, o que o mercado chama de "suitability". Quer dizer, vender o produto para o cliente certo. Eu acho que todos esses elementos, ali, estiveram presentes.

Valor: Na época houve punição, por parte de CVM, de executivos de companhias e conselheiros, mas não houve nada em relação aos bancos nesse sentido.

Torós: Essa é uma discussão, mas acho que é muito difícil você [como regulador] chegar ao ponto de dizer "Olha, aqui, para esse cliente você podia vender; para esse cliente não podia vender". Acho que isso é uma questão, mesmo, de autorregulação que o sistema faz. Nesse sentido, tenho a impressão de que o sistema se corrigiu bastante bem. Hoje se vende um produto de forma muito mais adequada para o cliente.

Valor: Se os derivativos foram uma lição aprendida, quais não foram?

Torós: Independentemente de medidas adotadas, o Brasil estava bastante preparado para aquela crise e acabou sendo o último a entrar e o primeiro a sair dela. Países com bons fundamentos, como a Austrália, também sofreram menos. O que é decepcionante é que não se deu um andamento. A Nova Matriz Econômica pegou os fundamentos que o Brasil tinha, sólidos, todo um trabalho que foi feito por uma década e jogou na lata do lixo. Se você tem um cenário externo difícil no futuro, como imaginamos que será, e começa a fazer políticas econômicas na base da bravata, mais uma vez podemos estar comprometendo gerações inteiras. Essa é a maior decepção para mim. O Brasil não está preparado pra um choque adverso.