Pio Borges defende participação menor, ida ao mercado de capitais e captações externas

Publicado em 11/10/2017 por Valor Online

José Pio Borges: "BNDES é e continuará a ser financiador relevante" O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) José Pio Borges entende que a instituição pode ir no caminho correto ao combinar três medidas: menor nível de participação nos empréstimos, mais operações junto ao mercado de capitais e captação de recursos no exterior. Ele não vê riscos de o BNDES não ter como financiar investimentos em cenário de retomada da economia caso a devolução de R$ 180 bilhões ao Tesouro, parte dela feita este ano, se confirme no ano que vem. "Um dos papéis do banco é o desenvolvimento do mercado de capitais. Na medida em que o banco operar mais com o mercado de capitais [no Brasil e no exterior], conseguirá financiar a retomada do investimento [na economia] ", disse Pio. Na infraestrutura - uma das prioridades do governo -, o banco poderá financiar projetos tendo recebíveis dos empreendimentos como garantias, disse Pio. Um exemplo desse modelo são as linhas de transmissão de energia elétrica que têm fluxos de renda fixos ao longo do tempo, afirmou. "Via securitização de recebíveis consegue financiar boa parte do investimento." Nesse arranjo, o BNDES pode financiar percentual relevante, mas há empresas privadas que podem captar recursos e também participar da operação. "O BNDES é e continuará a ser um financiador relevante, mas deve evitar ser o único porque o excesso de recursos recente [via aportes do Tesouro] levou o banco a inibir o crescimento do mercado de capitais. Os bancos chineses, por exemplo, estão prontos para financiar a retomada de investimento em infraestrutura", disse Pio. Com a volta do crescimento da economia, outros bancos, fundos de investimento e o mercado de capitais poderão se interessar mais no financiamento ao setor porque haverá mais espaço para esses agentes participarem, previu. Ele presidiu o BNDES entre 1998 e 1999, no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Hoje na infraestrutura há companhias com interesse de investir no setor desde que haja rentabilidade razoável, fontes diversas e fornecedores sem reserva de mercado. Se for assim, o investimento poderá ocorrer com a participação do BNDES e de outros [atores]", disse Pio. Ele também não vê a Taxa de Longo Prazo (TLP) como inibidor para os empréstimos do banco. "Se perguntar ao empresariado, é evidente que ele quer mais subsídio, mas o subsídio chegou a ser de 10%, não podia continuar assim. A TLP vai na direção certa. O nível de subsídio anterior era incompatível com a disciplina fiscal que se busca ter", afirmou. Perguntado se o banco não precisaria de regra de transição para se adaptar, considerando a devolução dos R$ 180 bilhões mais a TLP, Pio respondeu: "A regra de transição vai ocorrer pelo lado da demanda porque os investimentos estão em nível muito baixo ainda. A esperança é que, com medidas corretas, setores como óleo e gás, energia e construção civil retomem os investimentos em dois ou três anos. Esse tempo é mais do que suficiente para que os agentes do mercado de capitais se preparem para esse novo surto de crescimento e desenvolvimento que espero ocorra."