Polarização é sintoma do mal-estar da sociedade

Publicado em 05/10/2018 por Valor Online

Polarização é sintoma do mal-estar da sociedade

Historicamente, nós brasileiros sempre fomos vistos como um povo generoso, tolerante e pacífico. A face agressiva, polarizada, aguerrida que vemos hoje não é nossa característica.

Evidentemente, quando se permite que um "mecanismo" perverso se instale na sociedade por tanto tempo e que o sistema político aprofunde o seu uso para se perpetuar no poder, desconectando-se completamente dos interesses republicanos, e a reboque vem forte recessão e desemprego, tal metamorfose pode acontecer.

Apesar de tudo, preferimos ainda dar chance ao perfil cordato do brasileiro e imaginar que apenas uma pequena parcela da sociedade está polarizada e agressiva, enquanto a grande maioria está, na verdade, atônita e acuada.

Um grupo de políticos hábeis e oportunistas percebeu que há uma certa desordem na sociedade, que nos levou a um significativo aumento da violência, dando eco a uma distorcida visão de que está havendo um exagero na proteção dos direitos humanos.

No entanto, ao mesmo tempo que um combate eficaz e inteligente da violência devem ser buscados, não se deve prescindir da busca civilizatória da proteção aos direitos individuais. Em relação aos costumes, o mesmo deve ser dito. Respeito às diferenças e tolerância são os nortes a serem perseguidos, porém, isso não deve ser confundido com a exaltação de um padrão de comportamento minoritário.

Voltando ao "mecanismo", não fossem as instituições relativamente fortes, o PT teria ficado muitos anos no poder como previu José Dirceu. Houve denúncias de práticas ilícitas e essas foram investigadas. Desenrolou-se um novelo de tramas que expuseram o Brasil às suas entranhas.

Aparelhamento de estatais e agências reguladoras, corrupção em contratos públicos, corrupção em medidas provisórias e outras peças legislativas, compra de votos, campanhas eleitorais com financiamento ilícito. Mais antidemocrático impossível. No entanto, curiosamente, atribui-se o risco antidemocrático ao líder nas pesquisas. É fato que Jair Bolsonaro é um militar da reserva, político de sete mandatos, com votos corporativistas e nacionalistas, em um partido sem estrutura, o que gera preocupações, principalmente quanto à capacidade de formar uma equipe de excelência e resistir a arroubos autoritários. No entanto, ele se diz defensor da democracia e convertido ao liberalismo econômico.

Do ponto de vista da economia, devemos celebrar a chegada de quatro candidaturas com plataformas liberais: Bolsonaro, Meirelles, Alckmin e João Amoêdo. Isso é um fato inédito desde a redemocratização. O líder nas pesquisas chamou Paulo Guedes, um economista liberal, para escrever seu programa econômico e reger a economia em caso de vitória.

Este episódio pode marcar uma inflexão importante para o nosso país. Guedes sempre foi crítico das políticas econômicas equivocadas que foram adotadas no passado e que nos custaram tanto. Sempre defendeu a necessidade de se reverter o aumento dos gastos públicos, reclamando a importância de realizar um amplo programa de privatização, abertura econômica, simplificação tributária e modernização das relações de trabalho.

De acordo com seu pensamento, governo bom é aquele que provê serviços básicos de boa qualidade, de forma eficiente e barata. Na maturidade, passou a se declarar um "liberal fraterno", demonstrando que os verdadeiros liberais consideram essencial que o Estado promova a igualdade de oportunidades.

O liberalismo econômico, se bem aplicado, traz riqueza, melhora a distribuição de renda. Vários experimentos no mundo demonstram isso.

Os EUA viveram uma era de prosperidade com Ronald Regan. Margaret Thatcher tirou o Reino Unido de uma situação econômica extremamente difícil. O Chile passou a ser o país de maior renda per capita da América Latina depois de fazer reformas liberais.

Do outro lado, Cuba e Venezuela são países miseráveis, a União Soviética, a Coreia do Norte e os países socialistas da Europa oriental são experiências fracassadas, com terríveis consequências sociais.

Portanto, a polarização é falsa. O crescimento econômico seria um bálsamo aos que hoje se sentem órfãos de Lula. Poderia se provar que liberalismo gera crescimento e distribuição de renda e não traz as consequências nefastas do patrimonialismo que o Estado super dimensionado acarreta.

O combate à violência não é adversário do avanço da civilização e dos direitos humanos. Várias sociedades europeias estão aí para nos lembrar disso.

O respeito às diferenças não é apologia de costumes minoritários. Pode andar de braços dados, respeitosamente, com um povo conservador. E o risco antidemocrático? Esperamos que o "outsider" da política consiga evitar atalhos e montar uma articulação política capaz de realizar as reformas urgentes que o país precisa.

Arlindo Vergaças Jr. é sócio fundador da JGP Gestão de Recursos

Fernando Rocha é economista e sócio da JGP Gestão de Recursos

E-mail: fprocha@jgp.com.br

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