É preciso estar sempre pronto para a crise, diz varejista argentino

Publicado em 16/05/2018 por Valor Online

É preciso estar sempre pronto para a crise, diz varejista argentino

Divulgação

O argentino Manuel Ribeiro comanda a Ribeiro, rede de lojas de varejo que tem como principal apelo a venda a prazo

Desde 1990, quando assumiu o comando da empresa que seu avô fundou, a rede de lojas Ribeiro, o argentino Manuel Ribeiro já passou por muitas crises no país. Em todas elas aprendeu que uma característica inerente à população argentina - poupar em dólares - ajuda o varejo. "Quando o dólar aumenta 30%, por exemplo, esse é o quanto o dinheiro guardado valoriza. O consumidor aproveita o momento e troca os dólares para comprar em eletrodomésticos", afirma.

O efeito colateral de uma forte desvalorização do peso já é conhecido. A consequente pressão inflacionária rapidamente se reflete no aumento de preços. Mas o empresário já está acostumado. Ele lembra de fortes crises na Argentina, como as de 1989, 1995 e 2001. Essa última veio acompanhada de graves impactos sociais.

Como seu presidente mesmo diz, a rede Ribeiro é muito semelhante às brasileiras Casas Bahia e Magazine Luiza. Seu principal apelo de vendas é a facilidade de pagamento parcelado, em até 30 meses. "Sempre com juros", diz Ribeiro, pois ele considera irreal a propaganda de prestações sem acréscimos num país como a Argentina, que acaba de ter a taxa básica de juros anual elevada a 40%.

Fundada há 108 anos na pequena Villa Mercedes, província de San Luis, a Ribeiro é hoje uma sólida S.A., lucrativa, que registrou crescimento de 30% no faturamento de 2017, em torno de US$ 350 milhões. Com 2,1 mil funcionários, a rede foi expandida nos últimos ano e totaliza hoje 89 pontos. A família que a fundou detém 97,30% das ações.

O segredo de conseguir se dar bem vendendo a prazo num país com altas taxas de juros e constante pressão inflacionária é, diz Ribeiro, "contar sempre com boas reservas em caixa". Além disso, é preciso ter jogo de cintura e estar sempre pronto para enfrentar uma próxima crise. E esperar ela passar.

A paciência, portanto, tem que ser uma das principais características de quem investe no país. Há dez anos, a Ribeiro estava pronta para lançar ações em Bolsa. Mas a crise internacional provocou adiamento nos planos. Agora seu presidente aguarda, de novo, um mercado de capitais mais estável para, enfim, fazer oferta pública inicial.

Enquanto isso, é esperar para ver o que acontece em Washington, onde o governo argentino negocia uma linha de crédito com o Fundo Monetário Internacional, e torcer para que as taxas de juros voltem aos níveis pelo menos do ano passado, em torno de 25%, já altas, diz o empresário. Ribeiro andou tratando com os bancos nos últimos dias e concluiu que hoje é impossível repassar o custo das linhas de financiamento ao crédito que ele oferece ao cliente. "É um custo impagável", diz.

O empresário considera, no entanto, "transitório" o momento que o país vive hoje. "A Argentina se caracteriza pelas crises". Para ele, pelo menos por enquanto, as cenas de nervosismo no mercado financeiro não se refletem na ponta do varejo. Muito menos no interior do país, onde a empresa é mais atuante. "As pessoas que visitam nossas lojas parecem tranquilas", afirma.

Apesar da instabilidade no câmbio e perspectivas de mais inflação, o quadro econômico de hoje, para ele, em nada se assemelha às crises do passado. "Hoje o país tem mais reservas", destaca. Ribeiro conta também que nos últimos dois anos a empresa conseguiu aumentar receita e expandir pontos de venda graças à abertura de mercado, que levou para o mercado argentino novidades que o consumidor costumava comprar no exterior. No período que antecedeu o governo de Mauricio Macri, diz ele, era muito mais comum o argentino comprar computadores e celulares em outros países.

Apesar disso, as turbulências na esfera econômica, que marcam a Argentina hoje, deixam Ribeiro em dúvida se vai conseguir este ano elevar o faturamento da empresa em 14%, como ele previa. O empresário está preocupado com os efeitos da desvalorização cambial na venda de produtos importados e também no aumento de custos de produtos produzidos na Argentina com componentes importados. É o caso, sobretudo das linhas de eletrônicos produzidos na Terra do Fogo, uma zona franca localizada na Patagônia. Ele se preocupa também com o custo dos móveis que ele costuma comprar no Rio Grande do Sul.

Luis Ribeiro, pai de Manuel, morreu há menos de dois meses, aos 105 anos. Até o último momento da vida, diz o filho, ele acompanhou de perto a gestão da companhia. Não conseguiu, entretanto, ver cumprida a meta de Macri, que, no início de governo, em janeiro de 2016, prometeu que em dois anos a inflação baixaria para um dígito. Especialistas projetam taxa de ao menos 23% em 2018.

Aos 70 anos, Manuel Ribeiro, prepara, agora, a próxima sucessão da empresa. Enquanto isso, alimenta a esperança de conseguir ver a inflação cair a um dígito. "Espero que isso aconteça até o fim desse governo", afirma.