Primeira gestora independente do país, IP Capital faz 30 anos

Publicado em 07/11/2018 por Valor Online

Primeira gestora independente do país, IP Capital faz 30 anos

SÃO PAULO  -  "A primeira regra da pescaria é: pesque onde os peixes estão." A frase de Charlie Munger, sócio de Warren Buffett na Berkshire Hathaway, aparece com destaque na carta aos clientes em que a IP Capital comemora seus 30 anos. Os peixes, no caso, são empresas fora de série, ou seja, "negócios muito sólidos, rentáveis no longo prazo e formados por pessoas excelentes", resumem os sócios da primeira gestora independente a surgir no Brasil.

Quando a IP nasceu, em 1988, no Rio de Janeiro, os órgãos reguladores nem mesmo reconheciam a figura do gestor independente, ou seja, aquele não ligado a bancos. Tanto que o fundo mais antigo nasceu apenas cinco anos após a casa ter aberto as portas.

De acordo com Christiano Fonseca Filho, o Crico, que fundou a gestora junto com Roberto Vinháes, naqueles primeiros anos, entre 1988 e 1993, a IP administrou individualmente as carteiras dos clientes. Crico explica que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a reconhecer a figura do gestor independente só a partir de 1993. "Foi aí que criamos o [primeiro fundo] IP Participações, para o qual transferimos todos os nossos clientes", afirma.

O IP Participações fez 25 anos em 2018. Desde a implantação do Plano Real, em julho de 1994, até setembro deste ano, o fundo acumula valorização nominal de 13.317%. A gestora prefere não contabilizar o ganho do primeiro ano justamente devido ao efeito da hiperinflação. Naquele ano, o IPCA acusou alta de 2.477%.

"Teríamos de calcular as rentabilidade em dólar" para considerar o ganho de 1993, explica outro sócio da casa, Bruno Barreto.

O país mudou nesses 30 anos. Em 1988, a nação vivia uma onda de renovação. O Brasil, finalmente, via-se como um novo Brasil. Após uma década de estagnação econômica e de ainda mais tempo de restrições de direitos civis durante a ditadura, o país nutria esperança de grandes mudanças, na aurora da redemocratização.

Aquele foi o ano em que cada decisão da Assembleia Nacional Constituinte alimentou esse sentimento. A promulgação da carta, em outubro de 1988, consolidou de vez o processo de abertura política, iniciado na eleição ainda indireta da chapa Tancredo Neves e José Sarney, em 1985.

Não por acaso, o ano marcou o nascimento da primeira gestora de recursos independente. A nova geração de assets se inspirou no crescimento de casas do gênero nos Estados Unidos e via com olhos estratégicos a perspectiva de mudança após a abertura do mercado acionário brasileiro aos estrangeiros.

Até meados dos anos 80, dinheiro de fora não entrava nas bolsas brasileiras. Além de fronteiras de capitais fechadas, os investidores domésticos também dependiam, basicamente, dos bancos comerciais, que concentravam os produtos financeiros. Casas de gestão de ativos sem vínculo com as instituições tradicionais não existiam no período.

O retrato da indústria de fundos de investimento três décadas atrás ilustra como o mercado interno ainda engatinhava. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em dezembro de 1988 o patrimônio líquido das carteiras no país somava R$ 134,6 bilhões, ajustado pelo IGP-DI. Em agosto deste ano, os portfólios detinham R$ 4,4 trilhões.

A chave para a abertura internacional veio na forma da instrução n 1.289 do Conselho Monetário Nacional (CMN) publicada em 1987. A regulação destrancou as bolsas para investidores estrangeiros e representou um grande passo para uma virada do mercado acionário brasileiro em termos de tamanho e liquidez.

O crescimento dos recursos após a norma fica nítido nos dados da Anbima. Entre dezembro de 1987 e o mesmo mês de 1988, o patrimônio dos fundos mais que duplicou, saltando de

R$ 66,8 bilhões para R$ 134,6 bilhões. No ano seguinte, houve novo pulo para R$ 240,4 bilhões. Já a classe de ações saltou de R$ 9,9 bilhões de patrimônio para R$ 247,8 bilhões em 30 anos.

E foi assim, inspirados na evolução da gestão independente nos Estados Unidos e vislumbrando o potencial de crescimento, que Vinháes, na época com 26 anos, e Fonseca Filho, então com 24 anos, fundaram a IP Capital há 30 anos, completados em setembro. Desde então a casa tem sido uma das mais bem-sucedidas da indústria de fundos ativos de ações e já testemunhou de tudo no mundo das finanças do país, da hiperinflação após o Plano Collor, passando pelo Plano Real e a crise de 2008.

A agora trintona IP Capital já não conta mais com o trabalho de Vinháes, que deixou a casa 26 anos depois de fundá-la. Em 2014, o gestor mudou-se para Londres com objetivo de abrir uma filial. Dois anos mais tarde, os fundadores fecharam um acordo para separar as estruturas. A unidade do Reino Unido ganhou independência e novo nome, PIPA Global Investments.

Entre os sócios atuais da IP estão, além de Fonseca, Bruno Barreto, parte da equipe desde 2004, Daniel Lessa, que entrou em 2008, Gabriel Raoni, a partir de 2010, Pedro Cezar de Andrade, integrante desde 2002, e Rodolfo Marinho, na sociedade desde 2003.

A consistência da casa em superar os referenciais de mercado mesmo diante de tantas crises vividas pelo país nessas três décadas vem, principalmente, da filosofia de investimento inspirada abertamente no modelo desenvolvido por Buffett e Munger na Berkshire Hathaway.

Conforme o sócio Pedro Andrade, a maioria dos investidores compra uma ação na esperança que alguém pague mais no futuro. "Mas a ideia de comprar barato e vender caro é um jogo 'traiçoeiro', porque está implícito que a pessoa vai ser mais inteligente que o resto do mercado."

Na filosofia da IP, porém, a gestora "compra uma ação porque acha que o negócio vai se desenvolver ao longo do tempo e vai se tornar cada vez mais valioso". Conforme Andrade, "não sabemos exatamente o momento em que o preço da ação vai reconhecer isso, mas o tempo é o melhor amigo do investidor".

Na elevada régua de seleção da casa, o Brasil já esteve melhor. Hoje, segundo Andrade, "na conta mais recente a gente enxerga 38 empresas que têm essas características na bolsa brasileira, ou seja, que a gente considera muito boas". No exterior, a lista sobe para 50 companhias.

No cesto atual de investimentos do fundo IP Participações, a maior parte dos peixes vem de fora: 42% da alocação está em ativos no exterior ante 35% no Brasil. "O fato de a gente estar mais no exterior que aqui significa apenas que a gente tem encontrado mais oportunidades interessantes lá fora", diz outro sócio da casa, Rodolfo Marinho. "Se o preço [dos papéis domésticos] cair e ficar mais atraente podemos aumentar o percentual em Brasil", acrescenta.

Para o gestor, a alocação da IP ocorre sempre a partir da ótica dos fundamentos da empresa, individualmente. "A gente não pensa muito onde elas estão." Mas o fato de a distribuição atual favorecer os casos de fora pode ser visto como um reflexo do momento desfavorável do país nos últimos anos. "Se nós enxergarmos os rumos do país se acertando, isso vai ter impacto no crescimento de longo prazo e, provavelmente, investiríamos mais localmente", considera.

Na tese de investimento de valor seguida pela casa, os gestores consideram que o modelo de crescimento dessas empresas com fundamentos sólidos e gestão de excelência tende a ser resiliente aos períodos de turbulências. "Excelentes negócios costumam não só sobreviver, como prosperar durante as crises."

Conforme o sócio-fundador Fonseca Filho, um grande aprendizado para a casa veio justamente de uma das maiores crises a atingir os mercados globais na história, em 2008, quando o setor imobiliário americano entrou em colapso e arrastou o mundo financeiro. Na época, o IP Participações registrou uma queda de 40,61%, no maior recuo nominal em um ano da história da casa. Ainda assim, bateu o referencial do mercado doméstico, o Ibovespa, que caiu 41,25% no acumulado de 2008.

"Naquele momento, dez anos atrás, havia muitos em dúvida de quão sustentável era o mercado americano. Mas a gente estava animado, abriram-se várias janelas para investir em empresas que a gente via que o negócio ia sobreviver e estar firme dez anos mais tarde. Estávamos plantando novas safras que iríamos colher mais para frente." Nos anos seguintes, a colheita mais do que compensou.

Entre 2009 e 2015, o fundo superou consistentemente o Ibovespa. Subiu 87,41% no primeiro ano logo após o início da crise, ante 82,66% do referencial. Em 2010, o IP Participações obteve ganho de 23,03% contra um resultado positivo de 1,04% do indicador da bolsa brasileira.

Segundo o gestor, os maiores investimentos nos últimos seis anos ocorreram na Berkshire, Alphabet, controladora do Google, Amazon, Danaher e Microsoft. No Brasil, a IP aponta Itaú, Itaúsa, Multiplan, B3 e Energisa, como grandes geradoras de valor.

Dentro da filosofia da IP, os sócios são unânimes em apontar como maior acerto ao longo da história a aposta nos papéis do Itaú desde os anos 90. O patrimônio líquido da instituição cresceu, em 25 anos até agora, de

US$ 2 bilhões para US$ 38 bilhões. "Nós costumamos dizer que esse investimento já faz parte da paisagem da IP", diz Crico.

Nem mesmo um eventual risco de correção nas ações globais abala a confiança os sócios da IP. Para Andrade, "mesmo com o S&P 500 nas máximas e as pessoas achando que vai ter de cair, se o mercado tiver correção será ótimo, porque vamos ampliar os investimentos".