Quadrinista de Niterói lança HQ que retrata Brasil dominado por fundamentalistas religiosos

Publicado em 15/04/2018 por O Globo

Resistência. Denis Mello critica a mistura de religião com política e enaltece a arte subversiva - Fábio Guimarães / Agência O Globo

NITERÓI - Imagine viver em um Brasil onde fundamentalistas religiosos assumiram o controle do país e grupos que ousam se opor ao sistema recebem como punição o encarceramento, a tortura e a morte. Essa é a distopia que serve como argumento principal de "Teocrasília", HQ independente com roteiro e ilustrações do quadrinista niteroiense Denis Mello, três vezes vencedor do Troféu HQ Mix por "Beladona", em parceria com a roteirista Ana Recalde. A história tem como ponto de origem acontecimentos que fazem claras referências ao Brasil atual, abordando as manifestações de 2013 e criticando abertamente o cenário político nacional, desde o processo que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff até o crescimento de ideais de extrema-direita no país.

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A ideia de escrever e ilustrar uma HQ crítica à realização da Copa do Mundo de 2014 foi adaptada e, quatro anos mais tarde, deu origem à "Teocrasília". O projeto conseguiu bater a meta de arrecadar R$ 15 mil numa campanha de financiamento coletivo pela internet, e a obra agora será distribuída em primeira mão aos mais de 300 apoiadores. Na trama, as perspectivas de grupos favoráveis e contrários ao regime teocrático dividem as páginas, que mesclam prisões construídas para os opositores ao regime com refúgios criados por sociedades alternativas.

- A história apresenta um futuro próximo e distópico onde a "bancada da palavra" conseguiu estabelecer um regime teocrático no país depois de uma "revolução". Então vamos ter diversos núcleos na história, com foco maior na resistência nesse primeiro volume, mas esse mundo também é o paraíso dos conservadores extremos, então o ponto de vista vai se diversificar mais a partir do próximo número - destaca o quadrinista.

Ao falar sobre a ascensão de grupos religiosos na política brasileira, Mello classifica o cenário como "catastrófico", e não descarta a possibilidade que muitos dos aspectos abordados em "Teocrasília" possam se tornar realidade num futuro próximo. Ele cita a eleição de Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio como um símbolo desse cenário, e recorda-se que a mistura de religião e política também precedeu o Golpe Militar de 1964.

- Por conta dessa paranoia moralista, esse levante do conservadorismo, estamos elegendo representantes que pretendem impor dogmas religiosos como leis para toda a população, um estrago que para ser desfeito depois não é tão simples. Isso não é algo necessariamente novo: em 64 já vimos a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e naquele momento essa moral cristã chegou fardada e de coturno.

BOICOTE A EXPOSIÇÕES E PEÇAS

Até o momento, "Teocrasília" já teve dois capítulos liberados para leitura gratuita na internet, em junho e novembro do ano passado, na plataforma on-line Tapas, e alcançou mais de 4.200 leitores. Mello comemora o interesse do público pela obra, especialmente num momento em que grupos conservadores pregam o boicote de exposições e peças de teatro. Ele compreende a arte como uma forma de enfrentamento à "caretice".

- Infelizmente a ignorância é um movimento de onda, e estamos vivendo um momento de maré cheia, onde pessoas que não conhecem absolutamente nada sobre o que estão querendo censurar são movidas por esse combustível infelizmente poderoso da "moralidade e bons costumes". A estratégia é seguir em frente com a cabeça erguida.

No ano passado, Mello morou por sete meses na comuna francesa de Angoulême - que sedia a maior festival HQs da Europa - para estudar na Ecole européenne supérieure de limage, e usou muito do que aprendeu nesse período na abordagem estética de "Teocrasília". Hoje, ele almeja poder se dedicar exclusivamente às HQs dentro de dois anos, e comemora a parceria com a editora Caligari, que fará a publicação da versão impressa de seu mais recente trabalho:

- Estamos trabalhando numa parceria de tiragem compartilhada. Tenho meus livros para levar aos eventos e um pessoal competente para me ajudar na parte editorial, promocional e a marcar presença nas livrarias, que são um ambiente quase impossível para um autor independente, mas importantíssimo: "Beladona" esgotou em todas as redes de livrarias. Num mercado editorial complicado como o nosso, é importante buscar alternativas.

Fã da aclamada HQ "V de Vingança", graphic novel de Alan Moore e David Lloyd publicada entre 1988 e 1989, adaptada para o cinema em 2005 e que também retrata um futuro distópico no qual um regime totalitátio ascende ao poder, Mello não esconde a influência que a obra teve em sua vida: primeiro como fã de quadrinhos, depois como artista. Ele se recorda com carinho de um encontro que teve com Lloyd na última passagem do quadrinistra britânico pelo Brasil, em abril do ano passado, pouco antes da publicação do primeiro capítulo de Teocrasília.

- Meu quadrinho predileto é V de Vingança. Foi o primeiro quadrinho adulto que li, e mudou completamente a minha cabeça sobre o que uma HQ pode ser, ajudou muito a definir o que eu queria fazer da vida. Imagina a minha emoção quando tive a oportunidade de sentar numa mesa pra passar a noite no Bar da Cachaça, na Lapa, com o Lloyd e o Osmarco Valadão, que futuramente me chamaria para a Caligari? Foi inspirador e inesquecível.

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