Quem tem medo do Rio? Os gaúchos, não!

Publicado em 11/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

Mal embolsou os milhões que ele e o irmão Arri lucraram com a venda da rede Fogo de Chão, Jair Coser foi logo fazendo outros negócios. Entre outros, comprou a pequena rede paulistana de churrascarias Corrientes 348, de pegada argentina, e rapidinho tratou de expandir, abrindo mais duas filiais em São Paulo e duas no Rio. A mais lucrativa de todas fica na Marina da Glória, no Rio. Diz não temer que a onda de violência na cidade espante os clientes. Os negócios vão muito bem, graças a Deus, diz. O Rio ainda tem uma lacuna no nicho de carne boa.

O gaúcho com tino para os negócios parece ter razão. Abriu no fim de janeiro a churrascaria Assador Rios no belo espaço no Aterro do Flamengo onde funcionou durante anos a mais famosa filial do Porcão. Lotou logo no primeiro domingo, servindo 600 almoços. Os segredos? Cortes da moda, como tomahawk e bife de chorizo grelhados com maestria por um time de craques (inclusive muitos ex-funcionários do Porcão e do Fogo de Chão) comandado por Sidimir de Melo, o chefe de carnes gaúcho. Outro trunfo é o bufê caprichado, porém enxuto, sem aquele exagero de misturebas e sushis. Tem que estar tudo fresh, tudo beleza, diz Jair com seu sotaque puxado.

Jair segue morando em São Paulo mas pretende investir ainda mais no Rio. Anexo ao Assador irá abrir em breve um bar-restaurante ao ar-livre com comidinhas e vista para a Baía de Guanabara, com 300 lugares.

Seu irmão Arri não tardará a chegar também. Hoje sócio da rede de massa e pizza Maremonti e da NB Steak, uma rede de churrascarias onde aboliu o rodízio de espetos, pretende eventualmente abrir uma filial carioca da NB.

Os Mocellin são outra família gaúcha que está apostando suas fichas no Rio. Mesmo depois de terem vendido para investidores sua famosa rede de churrascarias Porcão, que originou no Rio e expandiu-se para São Paulo e além-mar, quiseram continuar no ramo.

Os irmãos Neudi, Nedio e Darcy Mocellin são sócios, com Luiz Carlos Caumo, cunhado de um deles, de duas Mocellin Churrascarias e da mais sofisticada Mocellin Steak, na Barra. Estive lá almoçando em um dia em que haviam fechado a Linha Amarela por causa de um tiroteio na Cidade de Deus, favela próxima. Quando disse que achava que tinha ouvido tiros os eficientíssimos garçons, gentis e sorridentes, desconversaram.

Na Mocellin Steak as especialidades são a lingüiça de costela e o assado de tira e o rib-eye de Wagyu grelhados na brasa pelo craque Marcílio Araújo. Estudo carnes desde 2010 e desenvolvi técnicas de selamento milimétrico, gaba-se. Orgulhoso de seus bifes com crosta bem torradinha e mal-passados por dentro, Araújo mima seus muitos clientes habitués.

A Mocellin Steak serve 10 mil pessoas por mês. O sucesso é tanto que planejam abrir em março, anexo à churrascaria da Barra, o Empório Mocellin, uma mercearia chique que contará com uma butique de carnes e um deck com muro verde onde os clientes poderão fumar charutos escolhidos da carta disponível. Estão aumentando para 500 os rótulos de vinho oferecidos porque pretendem ter a melhor adega da Barra.

Os gaúchos, em suma, estão elevando o nível da cena gastronômica carioca e estimulando o mercado. Ninguém imaginaria ver tamanha pujança brotar em plena crise de segurança. Eis o mistério do Rio...