Reaproximação das Coreias levanta dúvidas entre jovens

Publicado em 11/02/2018 por O Globo

RIO - A abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno na última sexta-feira teve um significado muito mais amplo do que apenas o início do evento em Pyeongchang. Os ensaios de reaproximação entre as Coreias do Norte e do Sul começaram a se concretizar, com as delegações desfilando juntas, sob uma bandeira unificada. Os primeiros passos de um processo de reconexão que parece não agradar a todos, com manifestantes contrários ao Norte queimando bandeiras do país. Mas o que pensam os jovens sul-coreanos que, distantes das consequências da Guerra da Coreia (1950-1953), se deparam com uma tentativa de reconciliação?

Em entrevista ao GLOBO, um grupo de cinco universitários sul-coreanos compartilhou suas impressões sobre a retomada de contato com o Norte - que iniciou um novo capítulo com a eleição do presidente progressista Moon Jae-in no Sul, em 2017. Moon segue a linha de seus antecessores Kim Dae-jung (1998-2003) e Roh Moo-hyun (2003-2007), que tentaram implementar a chamada Política Raio de Sol, iniciativa de reaproximação que incluía investimentos socioeconômicos na Coreia do Norte. As duas gestões seguintes - Lee Myung-bak (2008-2013) e Park Geun-hye (2013-2017) - adotaram posição oposta, desfazendo todo o esforço com uma postura de endurecimento e afastamento, recíproco por parte de Pyongyang. Desde então, as relações intercoreanas só minguaram.

Moon já afirmou que pretende fazer dessas Olimpíadas os "Jogos da Paz". No entanto, os jovens manifestam certa desconfiança quanto à repentina intenção norte-coreana de participar do evento, após um 2017 marcado por tensões na península.

- Vivemos quase dez anos de pausa nos diálogos. A Coreia do Sul pediu a participação da Coreia do Norte nos jogos por vários meses, e o Norte se manteve em silêncio. Romper isso logo antes da abertura é muito inesperado - avalia Jiyoung Jung, estudante de Letras de 24 anos.

Preocupação com economia

A pesquisa "Percepção da Reunificação", divulgada em agosto de 2017 pelo Instituto de Estudos pela Paz e Unificação (Ipus) da Universidade Nacional de Seul (UNS), mostra que a confiança dos jovens na faixa dos 20 anos em relação ao país vizinho como parceiro para dialogar e firmar compromissos caiu de 41,8% para 24,1% entre 2009 e 2016. Para os sul-coreanos com 50 anos ou mais - que têm mais conexão com as consequências da guerra que dividiu os dois países -, a queda é bem menor: de 35,6% para 31,9%.

O recuo reflete certo ceticismo dos jovens em acreditar que a Coreia do Norte tenha boas intenções. De acordo com Tae-Gyun Park, professor de História Coreana Moderna na UNS, há várias razões, como as provocações nucleares e bélicas, a propaganda política antagônica norte-coreana e os problemas econômicos internos desde a crise de 2008:

- Para os jovens, as questões econômicas são mais importantes. Eles não querem arcar com gastos para o Norte em vez de obter mais emprego e investimento na Coreia do Sul - explica o professor. - A Política Raio de Sol foi criticada: apenas cedia, não recebia. Então, Moon busca uma relação recíproca para minimizar críticas.

No entanto, Christopher Green, consultor do International Crisis Group para a Península Coreana, diz que será preciso muito mais esforço político de Moon para moldar a opinião pública "de modo que a juventude cética possa mudar sua cabeça":

- Moon teria que manter as linhas que segue por muito mais tempo e com grande cuidado. O povo sul-coreano adquiriu um cinismo notável sobre as motivações norte-coreanas, e a popularidade de Moon poderia facilmente ser afetada - afirma. - Além disso, criar espaço para esse projeto político exigiria anos de passividade da Coreia do Norte: sem testes de mísseis ou nucleares, nada. E já que isso minaria a segurança nacional norte-coreana, é muito improvável de acontecer.

A imagem do regime de Kim Jong-un está arranhada para os jovens do Sul. Para eles, as Olimpíadas são uma nova chance para fazer propaganda:

- É apenas uma performance para mostrar que estão agindo como "países normais" ou "ricos o suficiente para investir em esporte". Com isso, querem exibir a força do país e pronto - sustenta Kang Donghoon, estudante de Letras de 27 anos.

Não é o único a pensar assim:

- O governo sul-coreano espera amenizar a tensão e promover a paz durante a temporada, mas a Coreia do Norte pode usar o período para promover seu sistema - aponta Sohyun Ahn, pós-graduanda em Gestão de Artes, de 26 anos.

O tema Coreia do Norte não é muito abordado entre os jovens, que julgam haver outras questões a serem debatidas no país.

- Enfrentamos muitos problemas: assuntos políticos internos, desemprego, escassez de moradia, como em todos os países. Debatemos muito mais esse tipo de coisa, que nos preocupa mais na vida real - explica Jiyoung.

Para Junhee Lee, estudante de Marketing de 24 anos, Moon está no caminho errado: acredita que o governo deve "cuidar dos cidadãos da Coreia do Sul primeiro":

- Ele segue o mesmo caminho de presidentes anteriores, como Kim e Roh, que vivenciaram o fracasso da estratégia de evitar a guerra. O presidente deve lidar com o Norte como inimigo para proteger seus cidadãos.

Por outro lado, Kang se mostra a favor de Moon, pois acredita que seu movimento é capaz de abrir um canal de comunicação. Ainda que a descrença sobre uma possível reunificação permaneça grande segundo o Ipus - o apoio à ideia caiu de 21% (2014) para 14% (2016) -, os entrevistados indicam que é prioritário manter diálogos contínuos, mesmo que leve tempo para uma reconciliação.

Compensação e punição

- Fotos de arquivo pessoal

Ainda é cedo para medir resultados do recomeço da comunicação intercoreana. As Olimpíadas de Inverno são uma ponte que apenas permitiu trocas culturais, com pouco êxito político, por enquanto. Para chegar à uma reconciliação plena, há grandes chances de surgirem temas espinhosos que podem minar qualquer avanço, como a desnuclearização do Norte. Para Dong Hie Kim, estudante de Direito e Administração, essa exigência internacional serve de moeda de troca para Kim:

- O Norte não vai recuar no arsenal nuclear até que suas necessidades sejam atendidas. Vai exigir algo, como a retirada o Exército dos EUA da península, grandes pacotes de ajuda socioeconômica - explica o jovem de 25 anos. - É a chamada estratégia de compensação e punição, com aperto de mão pela paz e ataque quando for preciso.