Receita do FMI para a Argentina é inadequada

Publicado em 05/10/2018 por Valor Online

Receita do FMI para a Argentina é inadequada

Frente a uma crise cambial, o primeiro impulso do presidente da Argentina, Mauricio Macri, foi chamar o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas as condições do acordo de ajuda financeira ameaçam prolongar o histórico duvidoso do FMI quando se trata de ajudar economias emergentes.

O acordo fechado na semana passada entre a Argentina e o FMI elevou o valor total do pacote de socorro para US$ 57,1 bilhões até 2021. A injeção de dinheiro é uma boa notícia no curto prazo porque o governo argentino tem um grande volume de dívidas em dólar, e o peso caiu mais de 50% com relação à moeda americana neste ano.

Mas parece improvável que as condições impostas pelo FMI assegurem a recuperação econômica robusta que muitos investidores internacionais estão esperando.

Em primeiro lugar, o FMI só permitirá que o Banco Central da Argentina apoie o peso se a moeda cair para além de um certo nível, e nesse caso apenas gastando um máximo de US$ 150 milhões. Se os investidores têm a intenção de vender, esse volume poderá ser insignificante.

Em segundo lugar, para resolver o problema da inflação, o Banco Central será forçado a manter a quantidade de dinheiro que emite inalterada - hoje ela cresce a um ritmo anual de 24% - e o governo precisará reduzir massivamente o seu deficit orçamentário.

Esse coquetel de políticas lembra os anos 70, quando limitar a quantidade de dinheiro que os BCs podiam imprimir tornou-se moda. O enfoque se mostrou impraticável e foi abandonado em seguida. Muitos dos países que o FMI ajudou na época não estavam em melhores condições nos anos 90.

Para países como a Argentina, o fator determinante da inflação não é a quantidade de dinheiro em circulação na economia, os gastos governamentais ou mesmo a política do banco central. Em vez disso, eles estão à mercê dos fluxos globais de capital. Quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) eleva suas taxas de juro e os investidores correm para o dólar, as moedas dos mercados emergentes despencam, e o preço dos importados dispara. Trabalhadores e empresas reagem tentando elevar salários e preços. A Argentina é especialmente suscetível a esse problema por causa de seus sindicatos fortes e da dolarização dos preços dos serviços públicos.

Consertar a economia argentina pode exigir medidas dolorosas, como o congelamento dos salários do setor público, a redução do poder dos sindicatos e a aceitação de margens de lucro menores para as empresas. O governo também deveria limitar dívidas em dólar. No longo prazo, elementos do sucesso do desenvolvimento da China poderiam servir como guia: estabilidade cambial, uma política coordenada para a renda e foco na produção industrial para exportação em larga escala.

Controle do déficit e metas monetárias esotéricas podem alcançar alguns desses objetivos indiretamente, mas também podem provocar muitos danos. Repetir os anos 70 não parece uma trajetória útil para a Argentina. Os investidores deveriam ficar longe disso.