Reciclagem de poliestireno com óleos essenciais

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Reciclagem de poliestireno com óleos essenciais

O poliestireno (PS) é um dos plásticos mais utilizados no mundo e um dos menos reciclados. Usado para fazer cestas de frutas e vegetais, potes de iogurte, caixas para viagem e vários tipos de embalagens, o plástico à base de petróleo é responsável por gerar emissões significativas de gases de efeito estufa (GEE). Em 2016, a produção anual global de poliestireno chegou a 24 milhões de toneladas e consumiu 50 bilhões de litros de petróleo; mais de 2% das reservas mundiais de petróleo, de acordo com o Conselho Mundial de Energia. Mas se quisermos conter o aquecimento global a um aumento de 2º C, um terço das reservas de petróleo do mundo terão que permanecer no solo, de acordo com um estudo publicado em 2015 pela revista "Nature". 

Em Ville d'Anjou, nos subúrbios de Montreal, no Canadá, a startup Polystyvert vem aprimorando uma técnica que pode ser uma das soluções mais promissoras para esse problema. Seu processo de reciclagem reduziria em até 83% as emissões de GEE envolvidas na produção de resina virgem. 

"Só existe um punhado de soluções para tratar o poliestireno", diz Andrée-Lise Méthot, fundadora e sócia-gerente da Cycle Capital Management, uma plataforma de investimento de capital de risco em tecnologia limpa com escritórios no Canadá, nos Estados Unidos e na China. "O método deles envolve a dissolução do plástico em óleos essenciais para que possa ser transportado com mais facilidade." 

De acordo com os dados mais recentes da empresa do governo de Quebec para recuperação, reutilização e reciclagem, a Recyc-Québec, 80% dos resíduos de poliestireno gerados pelos cidadãos de Quebec são jogados na lata de lixo. As opções de reciclagem existentes para o poliestireno são limitadas - menos de um terço do fluxo de resíduos é tratado e a atividade dificilmente é lucrativa. 

Uma dessas opções é comprimir o poliestireno em "toras" usando uma máquina, mas a abordagem apresenta três problemas principais: transporte (esse tipo de plástico ocupa muito espaço), contaminação (nem todos os contaminantes podem ser removidos à mão) e versatilidade (as toras têm uso limitado). Outra opção, transformar resíduos de plástico sólido de volta a seu estado líquido a temperaturas altíssimas, oferece mais flexibilidade do que a compressão, e uma maior variedade de produtos pode ser produzida como resultado disso, mas consome muita energia. 

A técnica de reciclagem desenvolvida pela Polystyvert envolve a dissolução de poliestireno em um concentrador preenchido com óleos essenciais. O líquido é então vertido através da malha (que captura qualquer material não dissolvido) e purificado através da floculação - os contaminantes remanescentes formam flocos que podem ser facilmente removidos. Finalmente, um líquido de isolamento é adicionado para separar 80% dos óleos essenciais. A pasta resultante é lavada para purificar o poliestireno, que por sua vez é transformado em 98% de grânulos transparentes puros que podem ser reutilizados para produzir uma grande variedade de produtos. 

A empresa multinacional Sony foi a primeira a aplicar técnicas de dissolução para facilitar a reciclagem de poliestireno nos anos 80 e 90, mas acabou abandonando seus experimentos para se concentrar no setor de eletrônicos. "Estudei a patente da Sony para reproduzir seu método", diz Solenne Brouart Gaillot, fundadora da Polystyvert, "mas não obtivemos êxito". Finalmente, foi o professor Roland Côté, da Universidade do Quebec, em Trois-Rivières (atual vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento na Polystyvert) que pôs fim ao impasse, em 2014. Ele concebeu um processo novo e patenteável que funciona em um béquer contendo 20 g de poliestireno. 

Em maio do ano passado, a empresa firmou uma parceria com a gigante francesa de petróleo e gás Total, que poderia levar a um aumento significativo no desenvolvimento de sua técnica. "Neste momento, o processo desenvolvido pela Polystyvert é o mais avançado e o mais atraente a produtores como nós", diz Alain Standaert, gerente de P&D da Total, em entrevista à TV estatal do Canadá. 

A Polystyvert ainda está desenvolvendo seu modelo de negócios, que por enquanto é baseado em taxas de licenciamento. Estas concedem acesso à tecnologia e equipamento da empresa, e a startup recebe direitos autorais pela venda de cada quilograma de poliestireno reciclado. 

Esse modelo se baseia em todo o ecossistema em torno do poliestireno, que envolve três principais stakeholders: o provedor de tecnologia (Polystyvert), o coletor de lixo e o processador (Total). Enquanto o primeiro gera receita com a venda de sua tecnologia, o terceiro o faz atendendo às demandas de seus clientes. "Empresas como a Danone pedem à Total e outras empresas petroquímicas que forneçam plástico reciclado, senão elas fabricarão seus potes de iogurte a partir de outro tipo de material", diz Brouart Gaillot. Até 2020, toda a resina virgem da União Europeia terá que conter pelo menos 20% de material reciclado. 

Mas a coleta de lixo está se mostrando um desafio, já que coletores e processadores não conseguem entrar num acordo quanto aos preços dos resíduos - baixos demais para um, altos demais para o outro. Existem duas saídas possíveis. Uma poderia ser reduzir o custo para os coletores, otimizando o sistema de triagem de resíduos. A segunda seria aumentar os preços do material virgem, o que incentivaria os processadores a oferecer preços mais altos pelos resíduos. 

Na França, por exemplo, o governo impõe uma sobretaxa de 10% sobre os contêineres feitos inteiramente de plástico virgem - um exemplo que destaca como a luta contra as mudanças climáticas depende tanto da inovação tecnológica quanto da mudança.