Sob pressão, indústria lança versão de açúcar "saudável"

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Sob pressão, indústria lança versão de açúcar "saudável"

SÃO PAULO  -  O que é que é produzido a partir da cana-de-açúcar, tem gosto doce, é feito de partículas brancas, pode ser adicionado a bebidas e receitas, mas não tem nem lembrança de calorias? John Melo não sabe definir ainda se o alimento desenvolvido pela empresa que comanda, a Amyris, é um "adoçante natural" ou um "açúcar saudável". A tecnologia faz parte de uma nova onda de produtos que algumas empresas do setor estão começando a lançar para superar um obstáculo cada vez maior: a pressão decorrente dos crescentes problemas de saúde relacionados à ingestão de açúcar.

Os millennials engrossaram a "guerra ao açúcar", mas decisões governamentais também ajudaram a colocar a indústria contra a parede. Não param de pipocar ao redor do planeta políticas para desestimular seu consumo, como a exigência de alertas em embalagens de alimentos com alto teor de açúcar ou a imposição de tarifas direcionadas a estes produtos. No Brasil, a indústria de alimentos fechou no último mês acordo com o Ministério da Saúde para reduzir o uso de açúcar em 144 mil toneladas até 2022, mas opõe-se à proposta da Anvisa de rotulagem de alimentos. Apesar das resistências, já há empresas em busca de saídas inovadoras para sobreviver aos novos tempos.

O reinado da cana chegou a ser questionado com a descoberta do poder adoçante da estévia. Mas, segundo executivos da indústria de açúcar e adoçantes, seu amargor característico não caiu no gosto do consumidor. Além disso, o cultivo manual da planta, sua forte demanda por insumos agrícolas e o alto custo para processar a folha tornaram-no pouco competitivo.

"Mas tem uma molécula da estévia que é muito boa, porque é adoçante e não tem o amargor. O difícil é isolar essa molécula da planta. Então resolvemos produzir essa molécula, mas a partir do xarope de cana", afirma o CEO da Amyris. Através de manipulação própria, a empresa conseguiu produzir, desse xarope, a mesma molécula existente na estévia, sem calorias, e com duas grandes vantagens.

A primeira é que o produto tem um grau de pureza da molécula de 97% - maior do que se obtém da própria estévia, entre 60% e 70%. A segunda vantagem é que o adoçante do xarope de cana adoça 500 vezes mais que o açúcar da cana - o que oferece uma grande vantagem à indústria de alimentos, diz.

A fábrica da Amyris em Brotas (SP) já começou a produção, com capacidade de fabricar até 3 mil toneladas ao ano. O volume parece baixo, mas, equivale ao dulçor de 1,5 milhão de toneladas de açúcar e supera todo o volume de adoçantes no mercado, diz Melo. A fábrica é colada a uma usina da Raízen, que fornece o xarope de cana. A purificação do produto será feita em outra unidade, no Paraná.

De posse de um certificado de segurança alimentar baseado em requisitos da agência regulatória dos EUA, a FDA, a companhia firmou contrato com o ASR Group, maior refinador de açúcar do mundo, para vender 80% do produto nos EUA, Reino Unido e México. Para vender no Brasil, a Amyris fechou contrato na semana passada com uma empresa de alimentos com uma marca forte de açúcar no varejo. O produto chegará às prateleiras assim que for aprovado pela Anvisa.

A dificuldade da estévia em sua "carreira solo" também levou a holandesa DSM, de biotecnologia e principal acionista da Amyris, a um caminho parecido. A companhia "programou" uma levedura que fermenta açúcar comum - pode ser o açúcar da cana, a sucrose, ou açúcares do milho, como dextrose e glucose - e resulta nas mesmas moléculas presentes na planta de estévia, com zero calorias. "É idêntico ao que se encontra na folha, mas não usamos nada dela", explica Luiz Flávio de Freitas Leite, diretor de negócios da Stevia & Sugar Reduction Platform da DSM.

Segundo Leite, a engenharia permite que a produção do adoçante seja bem maior do que a do adoçante de estévia, o que reduz o custo de produção. E, na comparação com o açúcar, o produto adoça 250 vezes mais, afirma.

Com a Cargill, a DSM formou a joint venture Avansya, que está erguendo em uma fábrica em Blair, em Nebraska, nos EUA, para produzir o adoçante. A operação deve começar em meados de 2019.

Poderia ser contraintuitivo uma empresa de açúcar trilhar caminho semelhante, mas é exatamente isso que a francesa Tereos, dona da marca Guarani, começou a fazer. "Fizemos pesquisa com nossos consumidores. Pensávamos que o principal valor fosse o da tradição, da família. Mas a saúde veio como algo muito importante. Entendemos que não podíamos ficar fora da tendência do mercado", diz Gustavo Segantini, diretor comercial da Tereos Açúcar & Energia Brasil.

A saída encontrada foi agregar ao açúcar um adoçante natural. Há dois meses, a Tereos começou a distribuir no Sul e Sudeste seus novos pacotes de açúcar Guarani com estévia, que tem 50% menos calorias que o açúcar refinado e adoça duas vezes mais.

Outra iniciativa é a da alemã Südzucker, maior produtora de açúcar da Europa, que iniciou parceria em julho com a israelense DouxMatok para começar a produzir, até o fim de 2019, um açúcar com composto à base de sílica que permite às indústrias usarem 40% menos, com igual poder adoçante.

Nas gôndolas, estes produtos devem competir com os adoçantes artificiais ou com aqueles misturados ao açúcar. Na indústria de alimentos, o maior competidor deve ser o xarope de milho, que movimenta cerca de US$ 4 bilhões ao ano. "Eu vejo, no mundo ideal, apenas açúcar de cana e adoçante de cana. Nosso objetivo é que parem de usar xarope de milho. É o pior para a saúde", atesta o CEO da Amyris.