Sucessão em Cuba ressalta desafios e limites da mudança na ilha

Publicado em 15/04/2018 por O Globo

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Entrando em campo. Diaz-Canel (ao centro): ele deve se tornar o primeiro governante cubano nascido após a revolução - STRINGER / REUTERS

WASHINGTON - A mudança de governo em Cuba, que será sacramentada na quinta-feira, é histórica. Não apenas por ser a primeira vez desde a revolução de 1959 que o país não será governado por um Castro e nem por alguém de farda militar. Também deverá ser um giro único pelos desafios que se impõem ao país em um momento de transição e de perda de apoio internacional. Com uma situação social que se deteriora, Cuba precisa acelerar reformas se quiser evitar a perda da relevância que ainda possui no cenário internacional, muito acima do esperado para uma ilha caribenha de 11 milhões de habitantes.

Raúl Castro, de 86 anos, conduz o país desde 2008. No governo, iniciou a abertura econômica, reatou laços com os Estados Unidos e viu seu irmão, Fidel - de quem herdou o poder - morrer há pouco mais de um ano. No dia 19, deverá passar o poder para ao vice-presidente, Miguel Díaz-Canel, que completará 58 anos um dia após sua eleição. Sem ter uma carreira militar, o engenheiro que nasceu já na Cuba socialista, tem a possibilidade de concluir e avançar nas reformas iniciadas por Raúl. Seu nome deve ser aclamado na quinta-feira pelos 605 membros da Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba, em uma reunião fechada e com votação secreta - porém, mais que previsível.

- É uma transição importante. Podemos esperar mudanças reais em Cuba e nas relações externas - disse ao GLOBO o cubano Arturo López-Levy, professor da Universidade do Texas, doutor em Estudos Internacionais pela Universidade de Denver e autor de um livro sobre as mudanças do governo de Raúl. - O simples fato de não ter um Castro no poder pode ajudar a distensionar a relação com os EUA e com os cubano-americanos da Flórida.

MÉDICOS PARA ARÁBIA SAUDITA

López-Levy, contudo, não espera que Donald Trump descongele a retomada das relações entre os dois países - que culminou com a viagem de Barack Obama à ilha em março de 2016. Em sua opinião, o republicano "perderá esta possibilidade histórica".

O novo presidente, contudo, não deverá ter liberdade total: Raúl ficará na secretaria-geral do Partido Comunista Cubano ao menos por três anos, em uma demonstração de força dos "octogenários". Esse equilíbrio entre implementar reformas e respeitar as tradições do país será a chave para o governo que se inicia.

- Essa divisão de poder dará uma dinâmica nova em Cuba. Pode dar a Díaz-Canel a institucionalidade para concluir as reformas que já foram iniciadas por Raúl e nas quais não há conflitos ideológicos. Estima-se que apenas 21% das reformas previstas foram implementadas - afirmou o professor. - O sinal mais claro será a unificação cambial (Cuba possui duas moedas, uma para turistas, o peso conversível conhecido como "CUC", e outra para a população em geral, o peso). Se isso sair até o fim do ano ou o começo do ano que vem, poderemos esperar grandes avanços e uma nova onda de reformas, trabalhistas e para facilitar investimentos privados.

Com o governo de Raúl, a economia da ilha se diversificou, o número de turistas aumentou e o país ficou menos dependente de uma única grande aliança internacional, apesar do peso relativo da Venezuela recentemente. Mas não gerou tanto bem-estar para o povo como o imaginado. Ted Piccone, especialista em Cuba do Brookings Institution, afirma que - juntamente à tentativa de institucionalizar as funções do governo e assim conseguir uma transição tranquila - um dos maiores legados dos dez anos de Raúl foi essa maior diversificação:

- Hoje nenhum país representa mais que 20% de nenhum comércio cubano. Claro que um eventual colapso da Venezuela afetará a ilha, mas não será nada parecido com o colapso da União Soviética, que causou o período especial (de maior recessão em Cuba desde a revolução).

Piccone afirma que algumas opções já estão na mesa: Havana está negociando o envio de médicos para a Arábia Saudita - o chanceler do país árabe esteve na ilha assim que saiu da viagem a Washington. Cuba mantém negociações com países da União Europeia e Canadá e tende a se beneficiar de uma eventual vitória do esquerdista Andrés Manuel López Obrador no México, em julho, o que compensaria a perda com o movimento à direita dos governos da Argentina e do Brasil.

Entretanto o especialista do Brookings Institution lembra que as reformas econômicas estão mais lentas do que queriam países como a China - muitos esperavam que a ilha poderia se tornar uma espécie de "Vietnã caribenho". E nem mesmo a retomada das relações com EUA gerou o boom que se imaginava em turismo.

- O que vemos hoje é uma estabilidade no número de abertura de empresas, de pessoas que trabalham por conta própria. Não houve uma genuína abertura para a iniciativa privada - conta ele. - Por outro lado, vemos um aumento da desigualdade que amplia problemas sociais. A inflação dos alimentos é algo que preocupa muito, juntamente a essa divisão do país em duas moedas.

Sem estas reformas, Cuba corre o risco de se tornar irrelevante internacionalmente, além de ver deteriorar conquistas sociais, como saúde e educação, que já estão piores que no passado.

Ricardo Barrios, pesquisador do Inter-American Dialogue, afirma que a China continua tendo interesse em uma associação estratégica com os cubanos, mas que isso depende muito da velocidade das reformas que Díaz-Canel poderá implementar. E que é preciso saber como ele vai agir no cenário externo:

- Fidel tinha muito mais carisma que Raúl, porém o atual presidente soube manter Cuba relevante, seja com o programa de médicos, seja atuando no acordo do governo da Colômbia com a guerrilha. Acredito que Cuba, por algum tempo ainda vai manter seu apelo, sua revolução influenciou o mundo, a cultura cubana é muito forte. Mas é preciso avançar na modernização do país - disse.

A população cubana segue esperando. Após um princípio de euforia com a retomada das relações com os EUA, esperava-se grandes avanços: além de mais americanos na ilha, a internet em praças públicas foi a parte mais visível, juntamente ao show dos Rolling Stones. Mas as novidades pararam. Quase não há internet nas casas e a economia não deslanchou. Como alguns diziam na época da visita de Obama, "é possível que tudo mude para continuar igual". Este é o desafio de Miguel Díaz-Canel.

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