Suzano e Paper Excellence travam disputa pelo controle da Fibria

Publicado em 13/03/2018 por Valor Online

Ana Paula Paiva/Valor
Venda da Fibria pode definir se a liderança global em celulose de eucalipto continua em mãos de brasileiros ou se passa para o controle de um grupo asiático

A formalização de uma proposta da sino-indonesia Paper Excellence (PE) pela Fibria, de US$ 11,4 bilhões, no fim de semana, colocou pressão sobre a Suzano Papel e Celulose, que já ofereceu US$ 12 bilhões para comprar integralmente a companhia hoje controlada pelo grupo Votorantim e pela BNDESPar, braço de investimentos do BNDES.

Assim que a família Feffer colocou na mesa sua oferta pela Fibria, com o financiamento garantido, a PE correu para mostrar-se como uma rival possível, conforme antecipou ontem o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor. Até o fim de semana, a companhia controlada por Jackson Wijaya não havia tornado seu interesse oficial.

As novidades do fim de semana aumentaram o dilema do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que vai determinar - ao lado da parceira Votorantim - se a maior produtora mundial de celulose de eucalipto segue nas mãos do capital nacional ou passa a ser controlada pelos asiáticos.

Cada uma das sócias pode colocar aproximadamente US$ 3,5 bilhões no bolso com a transação.

A Suzano não quer entrar num processo competitivo aberto, sem regras. O recado da família Feffer é que, se não houver organização e prazos, a empresa poderá avaliar sair da disputa.

Juntas, Suzano e Fibria responderiam por 16% do mercado global de celulose, líderes isoladas em seu segmento, e um gigante em celulose de eucalipto - o que provocou reações negativas entre consumidores europeus. Já a PE, se levar o ativo, receberá como herança a liderança do mercado mundial e passará à frente de companhias tradicionais, como a pioneira Suzano, mas com fatia de mercado menor.

Por ora, a incerteza do BNDES, caso prolongue o tempo de decisão, beneficia a PE. A companhia ainda não conta com a totalidade dos recursos$> Isso teria frustrado os controladores da Fibria, pois a oferta não se sustenta enquanto não houver os recurso disponíveis.

A expectativa em torno da operação é grande. Na avaliação de um interlocutor, a transação é mais estratégica para a Suzano do que para a PE, que acaba de comprar outro grande ativo no Brasil - a Eldorado Brasil, que pertencia à J&F Investimentos, dos irmãos Batista.

Para a oferta colocada na mesa, a Suzano fechou compromisso de financiamento de US$ 12 bilhões com cinco bancos americanos e europeus. O valor equivale a R$ 70 por ação da Fibria. As companhias somadas, Suzano e Fibria, teriam uma dívida líquida da ordem de R$ 60 bilhões, perto de 5 vezes o Ebitda estimado para as duas empresas - em uma indústria de capital tão intensivo e cíclica como é a de celulose.

Prestes a assumir o controle da Eldorado, da qual já tem 49,4%, a PE, dos mesmos donos da Asia Pulp and Paper (APP), ofereceu R$ 67 por ação e disse que concluiria a estrutura de financiamento do negócio nesta semana. Mas há dúvidas se conseguirá obter.

Para fontes de mercado, a Suzano saiu em ligeira vantagem ante os asiáticos, mas um desfecho dependia ainda da avaliação do BNDES. Fontes envolvidas nas conversas explicam que a pressão e os temores do corpo técnico do banco, em razão da atuação do Tribunal de Contas da União (TCU), podem fazer com que o banco tente ampliar a rivalidade dos interessados - como prova do esforço na busca de preços mais elevados.

Segundo outra fonte, o banco não estaria disposto a conceder prazo extra para a PE apresentar com uma proposta mais consistente. Tomaria uma decisão com o que dispõe em mãos. A competitividade das propostas - da PE e da Suzano - não passam apenas por preço, mas também pela segurança e agilidade de execução.

O Valor apurou que a expectativa era a de que a oferta da PE já contemplasse recursos suficientes e contratados para pagamento a todos os acionistas da Fibria. Mas a empresa da família Wijaya deu uma mostra contundente da confiança nos termos de sua oferta. Segundo fontes, propôs assumir todo o risco antitruste e está sujeita ao pagamento de multa de R$ 7 por ação, ou quase R$ 4 bilhões, caso a transação não se concretize. É muito dinheiro para se perder em uma aposta sem lastro.

Votorantim e BNDESPar podem embolsar, cada uma, US$ 3,5 bilhões, com a transação da fabricante de celulose

Do lado da Suzano, estão na mesa a garantia dos recursos necessários à transação e a captura de sinergias que podem superar R$ 10 bilhões, a partir da combinação de seus ativos com os da Fibria. Além da permanência da maior produtora mundial de celulose de eucalipto nas mãos de capital nacional. A Suzano receberá recursos do Citigroup, JP Morgan, Bank of America (BofA), BNP Paribas e Santander.

Do lado da PE, ela ainda tem de ser convincente se conseguirá assegurar o dinheiro necessário a uma transação dessa magnitude, o que talvez exija colocar as ações da Fibria em garantia. Mas o êxito na compra da Eldorado Brasil, desbancando a própria Fibria na disputa do ano passado, mostra que os asiáticos estão jogando pesado para se estabelecer no país. Eles contam com suporte financeiro de instituições da China.

Em sua oferta pela Eldorado, a PE se dispôs a pagar múltiplo de 10 vezes, considerando-se a relação entre valor de empresa e resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ao oferecer R$ 15 bilhões. Poderá assumir o controle ainda no próximo trimestre, com a compra dos papéis remanescentes. Uma eventual combinação de Fibria e Eldorado tem sinergias estimadas em R$ 4 bilhões.

Assim como na compra da Eldorado, a PE abriu mão da due diligence na Fibria para apresentar a oferta. Segundo fontes de mercado, embora os financiadores da PE e da APP tenham se limitado a bancos asiáticos, em especial China Development Bank (CDB) e Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), após o default de US$ 14 bilhões em 2001, é possível que as grandes instituições financeiras decidam reabrir portas ao grupo em uma eventual compra da Fibria, se as ações da empresa forem dadas em garantia. Na avaliação dessas fontes, o ativo é uma garantia valiosa.

De acordo com uma fonte, o Santander é o banco que está ancorando o financiamento da PE, ao lado do BTG, assessor financeiro. Outros bancos devem se juntar à operação, que prevê que as ações da Fibria seriam dadas em garantia. O grupo asiático também poderá usar recursos próprios.

Dentro do BNDES, a avaliação é de que instituição deveria fazer a realização do investimento feito há anos na indústria de celulose. As ações de Fibria e Suzano acompanham o bom momento da indústria, com preços da celulose em altas seguidas, e têm registrado valorização histórica na B3. (Colaboraram Francisco Góes, do Rio, e Talita Moreira, de São Paulo)