Título de 10 anos dos EUA fecha acima de 3%

Publicado em 16/05/2018 por Valor Online

Título de 10 anos dos EUA fecha acima de 3%

As especulações em torno da condução da política monetária pelo Federal Reserve (Fed) determinaram novamente o rumo das finanças globais, puxando ontem o retorno do título soberano dos Estados Unidos às máximas em sete anos, enquanto o dólar registrou uma onda global de valorização, deixando os emergentes mais uma vez sob pressão.

No caminho inverso, as bolsas de Nova York tiveram o pior dia em três semanas. O mercado tem operado nessa dinâmica desde o início de fevereiro, mês do "crash relâmpago" que interrompeu a ascensão até então sem limites das principais bolsas mundiais.

Agora, o que pesou no sentimento dos investidores foi a divulgação de uma série de dados de atividade, que desenharam um retrato mais forte para a economia americana em comparação com a Europa e Ásia. Foi o suficiente para puxar as apostas de aperto monetário mais intenso pelo Fed. Segundo dados do CME Group, a probabilidade de ocorrer ao menos quatro elevações do juro americano está em 58,50%, de 48,80% há uma semana e 42,10% um mês atrás.

Ontem, o rendimento da T-note de 10 anos chegou a tocar a máxima de 3,093%, para depois fechar em 3,070%, o maior nível desde julho de 2011, refletindo uma venda massiva de títulos. Já o yield do título de dois anos subiu a 2,585%, maior nível em cerca de uma década. Isso levou a um estreitamento da diferença entre os retornos de dois e dez anos para 0,485 ponto percentual. A métrica é bastante observada por ser um indicador antecedente de recessão.

Numa perspectiva global, gestores de US$ 643 bilhões em ativos trabalham com risco remoto de recessão neste ano, mas projetam que isso acontecerá no primeiro trimestre de 2020, segundo pesquisa do Bank of America Merril Lynch. Além disso, apenas 1% vê a economia global em situação melhor daqui a 12 meses.

Nesse cenário de vendas nas bolsas americanas e em títulos americanos, o dólar foi o ativo buscado para refúgio por investidores. O ICE Dollar Index, que mede a variação da moeda americana ante seis divisas fortes, subiu 0,70%, aos 93,23, o maior ganho em sete semanas, refletindo quedas do euro (-0,72%), da libra (-0,35%) e do iene (-0,59%).

A divisa americana também registrou forte ganho ante as moedas emergentes, com depreciações mais acentuadas no rand sul-africano (-1,90%) e na lira turca (-1,78%). Mas uma cesta ampla, incluindo o real brasileiro, o rublo russo e os pesos colombiano e chileno, também apanhou.

A exceção foi o peso argentino, que subiu 3,73% no segundo dia de forte intervenção do banco central do país. A autoridade monetária colocou ontem mais US$ 5 bilhões das reservas à venda, estabelecendo um teto de 25 pesos por dólar no leilão.

Um relatório da consultoria Capital Economics, divulgado ontem, questiona se, após a ida da Argentina ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o arsenal de reservas internacionais dos emergentes é suficiente para lidar com as instabilidades cambiais que se avolumam. Intitulado "Depois da Argentina, quem será o próximo?", o texto destaca que Venezuela, Ucrânia e Turquia têm o menor cobertor cambial entre as economias emergentes. E que África do Sul, Romênia e Chile também devem ser observados porque, segundo a Capital, possuem reservas proporcionalmente pequenas às suas necessidades de financiamento.

Com essa combinação de fatores, o Dow Jones fechou em queda de 0,78%, aos 24.706,41 pontos - interrompendo oito valorizações em sequência -, o S&P 500 caiu 0,68%, aos 2.711,45 pontos, e o Nasdaq recuou 0,81%, aos 7.351,62 pontos. Os 11 setores do S&P 500 registraram perdas.

A sacudida nas bolsas americanas levou o índice de VIX, conhecido como "termômetro do medo", à maior alta em cinco semanas, a 14,63 (+13,15%). O salto evidencia o quão baixo estava o índice nas últimas sessões, quando rondou as mínimas a 13.

Relatório do Goldman Sachs mostra, por meio de uma série de evidências técnicas, que VIX não tem refletido corretamente a forte volatilidade dos ativos. Nas contas do banco, o indicador deveria estar a 18,7 diante do atual momento do mercado.