Com vaga na Copa de 2018, Panamá vence fantasmas da bola e da política

Publicado em 12/10/2017 por O Globo

Torcedores do Panamá vibram após a vitória sobre a Costa Rica - RODRIGO ARANGUA / AFP

Diferentemente do Brasil, que celebra nesta quinta o Dia de Nossa Senhora Aparecida, a semana começara sem previsão de feriado nacional no Panamá. Mas tudo mudou quando o zagueiro Román Torres marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre a Costa Rica, na terça-feira. O resultado deu aos panamenhos uma inédita classificação à Copa Mundo e um "dia de festa nacional", conforme decretado assinado pelo presidente Juan Carlos Varela: estudantes e trabalhadores dos setores público e privado foram liberados para celebrar, na quarta-feira, a história vaga no Mundial. Além do Panamá, a Islândia é a outra estreante que já carimbou passaporte para a Rússia.

A festa iniciada pelo gol de Torres no estádio Rommel Fernández se estendeu em comemorações pelo Panamá madrugada adentro. Ninguém parecia se importar com as críticas de adversários à arbitragem, que ajudou o Panamá ao validar o gol de empate em um lance desajeitado de Gabriel Torres, no qual a bola não cruzou a linha. Virou parte do folclore, assim como a catimba nos acréscimos, com direito a "sumiço" de bolas e invasões de campo - incluindo uma senhora idosa. Para a seleção panamenha, o que importava era se agarrar com unhas e dentes ao resultado e fazer o tempo passar, evitando repetir o erro de quatro anos atrás.

Nas eliminatórias para a Copa de 2014, os panamenhos estavam garantindo vaga na repescagem em circunstâncias semelhantes: vitória por 2 a 1, no mesmo estádio Rommel Fernández. Mas puseram tudo a perder nos acréscimos. O adversário naquela ocasião era os EUA, que virou para 3 a 2 e adiou o sonho panamenho.

Desta vez, com requintes de ironia, foram os norte-americanos que acabaram fora da Copa após serem derrotados de forma surpreendente, na rodada final, por Trinidad e Tobago. Os EUA terminaram a fase final das eliminatórias em quinto, ultrapassados pelo Panamá e também por Honduras, que disputará a repescagem. México e Costa Rica já estavam classificados para a Copa do Mundo.

- Como diz o hino nacional: "alcançamos, por fim, a vitória". O futebol panamenho já merecia isto - disse Julio Dely Valdés, técnico da seleção panamenha nas últimas eliminatórias, em entrevista à "AFP".

Dely Valdés foi substituído em 2014, após o fracasso diante dos EUA, pelo técnico colombiano Hernán Darío Gómez. Durante a campanha nestas eliminatórias, "Bolillo" Gómez chegou a declarar que mereceria uma estátua caso conseguisse levar o Panamá ao Mundial. O objetivo ficou por um fio após sofrer uma goleada por 4 a 0, na penúltima rodada, justamente para os EUA - que mantêm relações estreitas com governos panamenhos desde o surgimento do Canal do Panamá, atalho entre os Oceanos Atlântico e Pacífico, inaugurado em 1914.

- A partida contra os EUA nos complicou, mas graças a Deus tivemos uma nova chance contra a Costa Rica - declarou o treinador.

Após a vitória, vários jogadores entrevistados em campo dedicaram a classificação "ao povo de Chorillo", referindo-se ao bairro pobre e violento que tornou-se símbolo do lado mais sombrio das relações com os EUA. Em 1989, cinco dias antes do Natal, o distrito localizado a sudoeste da capital Cidade do Panamá foi alvo de um bombardeio autorizado pelo então presidente americano, Ronald Reagan.

Depois de passarem anos financiando o governo de Noriega, que havia tomado o poder com um golpe militar no início da década de 80, os EUA tinham decidido agir por conta própria. À época, as denúncias de laços estreitos com o narcotráfico, lucro com venda de armas no mercado negro e assassinato de opositores haviam tornado insustentável o apoio ao ditador panamenho. Um dos alvos do bombardeio americano era a base militar de Noriega em Chorrillo. O bairro, ocupado no início do século XX por operários que trabalhavam na abertura do Canal, tinha cerca de 20 mil habitantes. A maioria vivia em casas de madeira, quase todas incendiadas pela artilharia pesada de Reagan.

ME SINTO NO CÉU

O bairro de Chorrillo também é famoso por ter sido o berço de Rommel Fernández, principal jogador do Panamá no século passado e cujo nome batiza o estádio onde a seleção manda seus jogos. Fernández chegou a atuar na década de 90 no futebol europeu, mercado ainda pouco aberto a jogadores panamenhos. Vitimado por um acidente de carro em Albacete, na Espanha, teve a vida e a carreira encerradas aos 27 anos. Mas segue, até hoje, como exemplo a ser seguido por jovens que têm a mesma origem humilde.

- Um jogador de renome, aqui, não ganha mais do que US$ 1000. A maioria tem salários na casa dos US$ 300. É muito pouco. Meu sonho é virar profissional e jogar fora do país - diz Rances Franco, 18 anos, morador de Chorillo e jogador do time homônimo.

Nas últimas duas décadas, o Panamá viveu um boom econômico que lhe rendeu o apelido de "Dubai da América Latina". A taxa de crescimento anual do PIB saltou de 0,5% em 2000 para quase 12% em 2011. No início deste ano, beirava os 6%, segundo dados do Banco Mundial. Neste período, o percentual da população abaixo da linha da pobreza despencou de 15% para 3,8%. Apesar dos avanços, a desigualdade segue entre as mais altas do mundo: o índice de Gini, em 2014, era de 0,5 (a escala vai de 0 a 1). A vaga inédita em uma Copa do Mundo é apenas uma das travessias que o país anseia cumprir. E os panamenhos, agora, sabem do que são capazes.

- Finalmente conseguimos o que queríamos. Demos alegria para todas as pessoas que confiaram em nós. Me sinto desfrutando no céu - resumiu Blas Pérez, da seleção panamenha.