Alemanha: A copilota também sumiu

Publicado em 07/12/2017 por Carta Capital

Demorou um pouco, mas a crise do centro-esquerda e do bipartidarismo chegou à Alemanha, coração da União Europeia que, graças à relativa prosperidade, resistiu um pouco mais que a Grécia, a França ou a Espanha.

No início de 2017, parecia mesmo que o Brexit e a eleição de Donald Trump provocariam um retrocesso da onda populista e levaria uma social-democracia fortalecida de volta ao governo, mas a eleição de 24 de setembro fez da direita xenófoba (Alternativa para a Alemanha, AfD pela sigla alemã) o terceiro maior partido e do Parlamento um quebra-cabeça.

A soma dos conservadores de Angela Merkel (União Democrata Cristã, CDU, aliada ao partido bávaro União Social Cristã, CSU) com o Partido Social-Democrata (SPD) caiu de 67% dos votos e 80% dos assentos em 2013 para 53% e 56%, respectivamente.

Ainda seria uma maioria apertada, mas o SPD não quer repetir a experiência. Ser sócio minoritário e geralmente passivo dos conservadores - a maior concessão de Merkel foi aprovar um salário mínimo, ainda assim bem inferior ao de vizinhos menos prósperos - o fez cair de 26% para 20% dos votos em 2017, o pior resultado do Pós-Guerra.

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A alternativa para os conservadores seria articular a coalizão apelidada de "Jamaica", por reunir conservadores (representados na Alemanha pela cor preta), os Verdes e o Partido Liberal (FDP, amarelo). Este último, porém, teve experiência análoga à do SPD, e ainda pior.

Após participar de coalizão com Merkel em 2005-2009, caiu de 15% dos votos para abaixo da cláusula de barreira de 5% e ficou fora do Parlamento. Retornou do ostracismo com 11% dos votos e previsivelmente pouco disposto a desperdiçá-los apoiando um governo no qual teriam ainda menos voz ativa do que da outra vez, visto ser preciso atender os Verdes, cujas políticas ambientais se opõem à agenda liberal de desregulamentação. Desde o início, o FDP foi de má vontade às negociações e as abandonou na noite do domingo 19.

Uma aliança apenas com os Verdes não formaria maioria e Merkel disse preferir convocar novas eleições. Entretanto, a ideia de repeti-las até o resultado satisfazer o governo não cai bem entre os eleitores e uma pesquisa publicada na quinta-feira 23 indicou que o retorno às urnas pode piorar o problema.

Por esses números, os conservadores cairiam de 35% para 30% dos assentos, o SPD de 22% para 20% e cresceriam os partidos menores, tornando ainda mais difíceis as negociações no Parlamento.

O presidente Frank-Walter Steinmeier insiste em uma solução para o impasse e os líderes social-democratas, pressionados pelos seus setores mais centristas, aceitaram dialogar com Merkel, mesmo se as chances de um acordo não parecem boas. O SPD quer, no mínimo, mais investimentos em moradia e educação e nenhum limite ao número de refugiados, nisto contrariando a principal exigência da CSU bávara, mais conservadora que Merkel.

E a própria CDU resiste a fazer concessões a um SPD enfraquecido: "Com 20% dos votos não se pode impor 100% das demandas", reclama o governador conservador de Hessen, Volker Bouffier.

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A culpa também é de Merkel: deixou FDP e SPD arrependidos de tê-la apoiado (Foto: John MacDougall/AFP)

Por outro lado, os setores mais jovens e mais à esquerda da social-democracia preferem a oposição. "O SPD só deveria aceitar outra coalizão com Merkel se quisesse cometer suicídio.

Tentamos duas vezes e acabamos de cara na lama. Mais uma e seríamos como lemingues", disse o deputado Marco Bülow. Esse setor prefere negociar de fora com um governo minoritário, cobrando concessões em investimentos e gastos públicos em troca da aprovação do Orçamento.

Berlim não tem experiência com aprovar propostas caso a caso por meio de alianças pontuais, problemáticas até em regimes presidencialistas acostumados à prática, como o do Brasil.

No parlamentarismo, isso implica governar no varejo e limitar-se a manter a burocracia em funcionamento sem medidas de grande alcance e estratégia a longo prazo.

Governos "interinos" de minoria têm funcionado por meses e até anos na Bélgica, Holanda e Dinamarca, mas são países pequenos, com responsabilidades internacionais limitadas. Para um país da importância da Alemanha, permanecer no piloto automático é perigoso para a Europa e a economia mundial.

Os próximos meses e anos trarão a necessidade de decisões críticas. Com certeza, logo será preciso definir as condições a serem impostas ao Reino Unido no Brexit, uma posição em relação à proposta de Emmanuel Macron sobre um governo financeiro comum da Zona do Euro e uma atitude em relação à deriva para o fascismo de governos da Europa Central, como Polônia, Hungria e Tchéquia.

Pode também surgir a necessidade de reagir a uma nova crise econômica mundial ou negociar (e, eventualmente, reagir) sobre um novo desafio militar ou estratégico partindo da Rússia, do Oriente Médio ou mesmo dos EUA.

É um péssimo momento para a Europa perder a pilota e a ordem liberal global uma aspirante a copilota - e principalmente para o governo francês, que contava com a ajuda alemã para grandes reformas em Bruxelas que compensassem as consequências de suas reformas liberais.

Após Trump ser eleito nos EUA, Hillary Clinton e vários veículos liberais respeitados - inclusive The Economist, The Guardian e The Independent - proclamaram Merkel a nova "líder do mundo livre".

Isso já era exagerado de início, pois o governo alemão, mergulhado nas consequências políticas internas da crise migratória e da ascensão da xenofobia, mal podia dar atenção aos problemas europeus. Agora, muito menos.

Mesmo que um difícil acordo com o SDP seja conseguido até o início de 2018, Merkel (ou um eventual substituto) estará mais fraca do que em qualquer momento desde 2005. E, se fatos novos não reverterem a tendência de fragmentação política, o problema se tornará ainda mais sério após a próxima eleição.