Alexandre Louzada vai em busca do bicampeonato com a Mocidade

Publicado em 11/02/2018 por O Globo

Especial. Alexandre Louzada acompanha os movimentos do carnaval de Niterói e defende que os desfiles da cidade voltem a ser realizados na Avenida Amaral Peixoto - Roberto Moreyra / Agência O Globo

NITERÓI - A ausência momentânea de uma escola de Niterói no Grupo Especial do carnaval carioca não significa que a cidade esteja fora da festa. Uma das mentes mais criativas dos desfiles, o carnavalesco Alexandre Louzada, niteroiense da Região Oceânica, é o maior vencedor da história do Sambódromo, com seis títulos, obtidos por quatro agremiações diferentes, um feito inédito, além de dois títulos em São Paulo. A última conquista carioca foi no ano passado, no comando da Mocidade Independente de Padre Miguel. Idealizador das imagens mais marcantes dos últimos carnavais, a Águia Redentora da Portela, em 2015, e o Aladim que voava num tapete mágico na comissão de frente campeã no ano passado, ele preparou a verde e branco para buscar o bicampeonato, com o enredo "Namastê: a Estrela que habita em mim saúda a que existe em vocʔ, uma viagem à cultura indiana. Não chega a ser uma novidade para quem, em 2017, foi campeão com uma homenagem ao Marrocos.

O tema deste ano, reconhece - enquanto apaga um cigarro e acende outro para aliviar o estresse de barracão na última semana de preparativos para o desfile -, destoa do restante da safra.

- É um carnaval marcado por enredos de protesto, com críticas à política e à intolerância religiosa. Nesse sentido, fui surpreendido com um enredo completo, de uma cultura riquíssima, com muito a explorar. Preparamos novidades. Acredito que a principal surpresa será na comissão de frente - diz, fazendo suspense.

ESCOLA NA AVENIDA AMARAL PEIXOTO

Tudo o que leva para o trabalho de barracão ocupado na Cidade do Samba, Louzada garante que aprendeu nos primeiros desfiles que concebeu, realizados na Avenida Amaral Peixoto. Foi lá que o então aderecista, com aspirações de compositor, tornou-se um dos principais carnavalescos do país: está a um título de Rosa Magalhães, hoje na Portela, e a dois de Joãosinho Trinta, morto em 2011. Em 2016, ficou consagrado como o primeiro campeão da Cidade do Samba, na Vila Isabel, quando apresentou o enredo "Soy loco por ti América: a Vila canta a latinidade". Embora seja um colecionador de marcas, prêmios e elogios, preserva ainda a humildade de outros carnavais.

- Não vou dizer que não tenho a minha vaidade, mas ela se manifesta de maneira diferente. Fico mais feliz quando lembram de algum carro, uma fantasia ou algum truque, alguma sacada que tive. O carnaval em geral me deixa muito tenso: não gosto nem mesmo de rever os desfiles das minhas escolas. Talvez o fato de lá atrás eu não ter desejado a carreira e ela ter simplesmente acontecido explique isso. Eu queria ser compositor, mas já me sinto realizado com isso simplesmente preparando as sinopses dos enredos, que são bem ricas - explica o artista de 60 anos.

A afinidade com música e melodia, algo pouco frequente entre os carnavalescos e que costuma provocar atritos entre a classe e a ala de compositores, foi importante em 1993, quando trabalhava na Grande Rio. Na ocasião, coube a ele a tarefa de concluir a fusão de três sambas, com harmonização de versos e passagens para que o produto final ficasse harmônico e coerente.

O coração niteroiense faz Louzada se emocionar ao lembrar da cidade. Ele está otimista com as presenças de Viradouro e Sossego, escolas nas quais já trabalhou, e Cubango, na Série A.

- Trabalhei na Acadêmicos do Sossego quando ela ainda desfilava na cidade, antes da migração para o Rio. O crescimento dela não me surpreende, é uma escola que já nasceu grande, e deve se expandir, porque a Região Oceânica é a maior de Niterói. Tem muito potencial. A Viradouro migrou mais cedo, porque já era enorme, sobressaía-se muito em relação às demais e tinha orçamento maior. Sem dúvida, é uma escola de Grupo Especial, que deve voltar logo a ele. A Cubango também sempre foi grande, mas era mais raiz, local, não era tão voltada para o espetáculo. Do ponto de vista cultural, uma alimenta a outra - avalia.

EM SINTONIA COM A CIDADE

Atualmente, os desfiles de carnaval de Niterói reúnem 29 agremiações, divididas em três grupos, com representantes de São Gonçalo entre elas. Sintonizado com os anseios do setor, o carnavalesco pede que as apresentações voltem para seu endereço mais tradicional: a Avenida Amaral Peixoto. Desde que o evento foi retomado, em 2006, após 11 anos, é realizado na Rua da Conceição. Em 2016, o carnavalesco virou enredo e teve sua trajetória contada pela Alegria da Zona Norte, do Fonseca.

- Por muito tempo esse foi o segundo carnaval mais importante do país. A Amaral Peixoto é maior e mais larga, permite um espetáculo mais bonito, com alegorias maiores, e mais seguro, por causa da distância das árvores e da fiação. Além disso, há condições de colocar mais arquibancadas, para que o público possa acompanhar. Tomara que essa mudança aconteça, porque o carnaval precisa e Niterói merece - conclui Louzada.

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