Análise: com saída dos EUA, China tenta preencher vazio

Publicado em 13/10/2017 por O Globo

Logo da Unesco na sede da agência em Paris - MIGUEL MEDINA / AFP

WASHINGTON - A mais recente tentativa da China de flexionar seus músculos diplomáticos no cenário mundial está nas mãos de Qian Tang, um chinês pouco conhecido de 66 anos, que faz campanha para liderar a principal agência cultural, científica e educacional da ONU. O diretor-assistente geral para Educação da Unesco é um dos chineses que Pequim está promovendo para trabalhar em cargos internacionais de destaque. O impulso mostra o desejo da China de projetar um perfil de poder mais visível no mundo e preencher o vazio político deixado pelo governo americano, que tornou-se cético do multilateralismo.

Nos últimos anos, os chineses assumiram cargos importantes no Banco Mundial, na Interpol, na Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, na União Internacional das Telecomunicações e na Organização Internacional de Aviação Civil. A China também disponibiliza mais tropas para as missões de paz da ONU do que qualquer outro país do Conselho de Segurança.

De certo modo, Pequim está usando seu crescimento econômico e a influência política na ONU para ocupar cargos abandonados pelos EUA e seus aliados e reutilizá-los para servir seus objetivos estratégicos.

Porém, a busca da China por cargos cruciais internacionais despertou o alarme de ativistas, que temem que o país use sua influência para avançar em sua segurança e interesses econômicos e retroceder em progressos nos direitos humanos e na liberdade de expressão. No ano em que um funcionário chinês foi indicado como chefe da Interpol, a China usou o sistema de alerta vermelho para perseguir críticos vivendo no exterior. O governo chinês também pressionou pelo corte de fundos de investigadores da ONU em missões de paz.

A luta pelo controle da Unesco não é para supervisionar os patrimônios da Humanidade e programas educacionais. A China vê na agência da ONU um veículo para regular a internet global. China, Brasil, Rússia, Cuba, Venezuela e outros países pressionaram a Unesco em 2013 para se posicionar estrategicamente nos debates internacionais sobre o ciberespaço. Tang disse que espera que a agência ofereça um palco para o mundo lutar de forma a encontrar o equilíbrio adequado entre liberdade de expressão, privacidade e necessidade de prevenir abusos da internet por extremistas.

A internet, Tang diz, é uma faca de dois gumes, que expandiu o acesso público à informação, mas permitiu que pessoas a usem para espalhar ódio e informações discriminatórias.

Tang disse não acreditar que a presença da China na agência e sua proposta de liderança façam parte de uma estratégia mais ampla para suplantar os Estados Unidos. "Não acho que a China já tenha pensado sobre isso. Para mim, provavelmente é uma coincidência. Eles têm boas intenções."

Se a China viu uma abertura na Unesco durante os anos do governo de Barack Obama, a oportunidade de suplantar Washington cresceu com a eleição de Donald Trump e seu isolacionismo, com "os EUA primeiro". Desde então, Pequim procurou se mostrar como uma alternativa responsável, realçando seu apoio a tratados internacionais, incluindo o Acordo de Paris e o nuclear com o Irã, afirmando seu compromisso com a ONU.