Artigo: Matemática não seleciona para exatas no Enem

Publicado em 14/11/2017 por O Globo

Estudante revisa conteúdo antes de prova do Enem em Brasília - Givaldo Barbosa / Agência O Globo/12-11-2017

RIO - Instituído em 1998 com os objetivos de avaliar o sistema educacional no nível médio e contribuir para a definição de políticas públicas, o Enem foi sendo usado para classificar candidatos aos cursos superiores, substituindo o vestibular. Com a adoção progressiva pela maioria das universidades como critério de seleção na admissão e a publicação anual do resultado das escolas, o Enem se tornou o principal indicador da qualidade do ensino e referência nas reformas da educação.

A análise detalhada das últimas quatro provas de matemática e suas tecnologias revela que, até a edição deste ano, o exame estava longe de alcançar seus objetivos. Em média, 75% dos problemas exigia apenas conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental. Conteúdos do Ensino Médio - trigonometria, geometrias analítica e espacial, polinômios, pré-requisitos dos cursos universitários de exatas - tinham desaparecido ou ocupavam espaço marginal na prova.

O pequeno número de problemas desafiadores - que abordam conteúdos do ensino médio ou exigem habilidades mais avançadas - dificultava a distinção de candidatos com notas altas e afetava a qualidade da seleção, especialmente para cursos da área de exatas.

A ausência de questões complexas tinha uma segunda consequência nefasta. Muitas escolas, visando o bom desempenho no Enem, relegaram o conteúdo do nível médio e passaram a focar em temas do fundamental. Não surpreende que alunos cheguem às universidades cada vez menos preparados, forçando-as a criar disciplinas para preencher lacunas na formação dos calouros.

A prova deste ano trouxe boas surpresas. Há problemas de combinatória, probabilidade e funções trigonométricas. O grau de dificuldade e o número de questões avançadas aumentou. Mas um defeito persiste. O Enem busca, muitas vezes artificialmente, contextualizar as questões de matemática com perguntas desnecessariamente longas e, por vezes, imprecisas. Ora, se a contextualização pode ser útil como metodologia de ensino para justificar a introdução de conceitos, ilustrar resultados e motivar alunos, ela faz pouco sentido na formulação de problemas do nível do Enem.

Embora não se questione a importância do Enem com os objetivos delineados em sua criação, a prova de matemática e suas tecnologias ainda não cumpre satisfatoriamente nenhuma de suas finalidades. O bom desempenho não atesta o aprendizado dos conteúdos ministrados no ensino médio; e a prova, no formato atual, ainda não permite discernir bons candidatos para um curso de exatas.

Talvez a elaboração de dois exames resolvesse parte do problema. Uma similar à atual. Outra em que se avalie o raciocínio, não só o resultado final. Caberia à universidade determinar qual das duas usar em seu processo de seleção. E ao aluno, qual delas prestar em função de suas aspirações.

Claudio Landim é diretor-adjunto do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e Mario Jorge Dias Carneiro é professor emérito do Instituto de Ciências Exatas da UFMG