Até onde vai a revolta na França?

Publicado em 03/12/2018 por Bom dia Brasil

Depois de mais um fim de semana de vandalismo e violência na França, com um saldo de pelo menos 263 feridos (entres os quais 81 policiais) e 630 detidos no sábado (dos quais 378 permaneciam ontem atrás das grades), a pergunta que todos se fazem é: até onde vai o movimento dos jalecos (ou coletes) amarelos?

Organizado pelo Facebook (que dúvida...), de modo similar aos protestos de junho de 2013 no Brasil, o movimento surgiu como protesto contra o aumento do diesel e da gasolina, resultante do "imposto ecológico" estabelecido pelo governo Emmanuel Macron para conter o consumo de combustíveis fósseis.

No terceiro sábado seguido de protesto, pouco se sabe ainda sobre seus líderes e reivindicações, além do caráter evidente de revolta fiscal e do símbolo que adotaram: o colete amarelo fosforescente, equipamento de segurança obrigatório nos carros franceses.

De acordo com o ministério do Interior, os protestos do último sábado reuniram 136 mil manifestantes, menos que nos dias 24 (166 mil) e 17 (282 mil). Mas, além de contestados, esses números escondem a força que o movimento tem ganhado, pela persistência e pela escolha de alvos de mais apelo.

Quando, no século XIX, o barão Haussmann desenhou os bulevares parisienses, imaginava que avenidas largas como os Champs-Elysées tornariam inviáveis as barricadas revolucionárias. Não poderia imaginar cenas como as do último sábado, em que policiais marchavam enfileirados contra multidões de revoltados protegidos por barreiras, brandindo armas improvisadas e coquetéis molotov. Nem jatos d'água, nem bombas de gás lacrimogêneo bastaram para conter a baderna.

De volta da cúpula do G-20, em Buenos Ainres, Macron foi ontem inspecionar a destruição e as pichações no Arco do Triunfo. Embora tenha até agora se recusado a rever o aumento nos combustíveis, autorizou seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, a negociar com as lideranças do movimento. Mas quem são eles? Que querem?

Num manifesto publicado ontem no Journal de Dimanche, dez manifestantes que se identificam como líderes dos "jalecos amarelos" deixam claro que, lá como aqui, não é só pelos "20 centavos", ops, pelo aumento do diesel.

"Acreditamos que as propostas dos coletes amarelos sejam mal-compreendidas, alguns dizem 'incoerentes'. Queremos então deixar claras nossas reivindicações", diz o manifesto. Numa referência ao movimento que deu origem à Revolução Francesa, os autores exigem a abertura dos "estados gerais da fiscalidade", de uma conferência social nacional, debates regionais sobre territórios e mobilidade, além de plebiscitos regulares e da adoção da votação proporcional em vez da distrital nas eleições legislativas.

"Além disso, de maneira imediata e sem condição, exigimos o congelamento da alta nas taxas sobre os combustíveis e a anulação do controle técnico mais rigoroso sobre os automóveis", afirma o texto. "Ciosos do respeito às instituições e do controle social, condenamos todas as formas de violência."

Ao condenar a violência e tentar adquirir um rosto mais sério, os "jalecos amarelos" podem evoluir para um movimento constiituído dentro da estrutura político-partidária tradicional. Mas que lado os acolheria? Tanto a extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon (do partido A França Insubmissa) quando a extrema-direita de Marine Le Pen (da Reunião Nacional, RN, novo nome da Frente Nacional) tentam atrair para si os descontentes. Ambos pediram ontem a antecipação de eleições.

Como em 2013 aqui no Brasil, ainda é difícil classificar o movimento ideologicamente. É formado sobretudo pela população do subúrbio, que depende do carro, para quem o combustível representa a primeira ou segunda despesa no orçamento familiar. "É um protesto de coloração antifiscal", diz o cientista político Jerôme de Sainte-Marie.

Para 43% dos franceses, o novo imposto terá impacto importante na situação financeira, de acordo com uma pesquisa do instituto BVA. Mais de três quartos consideram o pretexto ambiental injustificável para aumentar os impostos. O apoio ao movimento tem flutuado entre 70% e 80% nas sondagens - daí a preocupação dos líderes em dissociá-lo da imagem de violência.

Embora o alvo principal seja o governo Macron, não há clareza ainda sobre o maior beneficiário político, já que os manifestantes protestam contra todos os partidos. O filósofo Bernard Henry-Levy vê na ira que toma conta das ruas uma semelhança preocupante com movimentos fascistas dos anos 1930.

Questionados sobre preferência política, os manifestantes citam primordialmente os partidos de Mélenchon e Marine. Entre os dois, Sainte-Marie aponta a RN de Marine, cujo eleitorado reúne autônomos que dependem de seus carros, pequenos assalariados e um público mais "sensível à retórica antifiscal", como maior beneficiada pelo movimento: "Tudo empurra os simpatizantes do RN para mais perto dos coletes amarelos". A base de Mélenchon, diz ele, tem um discurso mais propenso a aceitar os argumentos ecológicos de Macron.

Há um complicador adicional nessa dinâmica. A própria RN está dividida entre um grupo liderado por Marine e outro em torno de sua sobrinha, Marion Maréchal. Marion agrega a simpatia de um movimento emergente de jovens conservadores, católicos, contra o aborto e o casamento gay, mas comprometidos com a causa ambiental e o projeto europeu, desde que com maior controle da imigração.

Eles se sentem incomodados tanto com o establishment conservador, reunido em torno do partido Republicanos, quanto com o populismo nacionalista, por vezes xenófobo, da RN. "Há um espaço ideológico não ocupado entre os Republicanos e a Frente Nacional", escreve o historiador americano Mark Lilla na New York Review of Books.

Não se sabe se os novos ideólogos conservadores se aproximaram do movimento dos "jalecos amarelos". Ambos os movimentos confundem os rumos políticos da França, hoje numa deriva de destino desconhecido.

 - Foto: Arte/G1  - Foto: Arte/G1

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