Bernanke atribui grande recessão a pânico bancário

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Bernanke atribui grande recessão a pânico bancário

Andrew Harrer/Bloomberg

Bernanke, atual pesquisador da Brookings: "aperto de crédito devastador"

O estouro da bolha do setor imobiliário nos Estados Unidos foi apenas um propulsor secundário por trás do grande mergulho da economia do país durante a crise financeira. A afirmação é de Ben Bernanke, que comandou o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, durante a derrocada.

Bernanke, hoje pesquisador da Brookings Institution e consultor de dois grupos de investimentos, diz que o pânico nos mercados de crédito e de securitização foi o principal motivo da gravidade da grande recessão, e que seus estágios iniciais teriam sido "bem menos severos" não fosse o colapso da confiança em Wall Street.

A análise do ex-presidente do Fed, divulgada nesta quinta-feira, dará uma nova intensidade à discussão sobre a possibilidade de o Fed e outras autoridades terem usado uma quantidade excessiva de dinheiro público para resgatar Wall Street da crise de 2007 a 2009, e se eles foram negligentes ao não enfrentar as ameaças que fermentavam no mercado imobiliário americano e que acabaram levando ao colapso.

Bernanke defendeu o foco das autoridades em conter o pânico em Wall Street, diante das reclamações no Congresso americano e em outros países de que famílias com dificuldades receberam pouca atenção ou apoio financeiro.

Em sua análise, apresentada na Brookings Institution, Bernanke olha para os dois principais fatores por trás da maior queda do PIB americano desde a Grande Depressão da década de 1930 e o aumento resultante da taxa de desemprego para 10%. Um deles é a reversão de um aumento dos empréstimos que, combinada com um colapso nos preços das moradias, deprimiu os gastos das famílias e desencadeou uma intensa desalavancagem.

A outra fonte foi a fragilidade do próprio sistema financeiro, com perdas relacionadas a hipotecas desencadeando um grande pânico em Wall Street, que incluiu a corrida a fundos e a liquidação de ativos securitizados. Os problemas nesse canal estavam no lado da oferta dos mercados de crédito, com um "aperto de crédito devastador" lançando a economia em uma grave recessão.

Os dois fatores envolvem respostas de política diferentes, segundo observa Bernanke. Se o endividamento das famílias fosse o principal problema, isso implicaria que o foco deveria estar na estabilização dos mercados imobiliários residenciais e na modificação das hipotecas com problemas. O esforço voltado para os mercados implica que o "imperativo político" foi acabar com o pânico no setor financeiro - direcionando o foco para as interrupções da oferta de crédito, e não para a demanda por ele.

A análise de Bernanke conclui que os acontecimentos associados ao pânico nos mercados de securitização e a corrida aos financiamentos de curto prazo foram os melhores indicadores das "mudanças econômicas adversas" durante o período. "Desta forma, acabar com o pânico é algo associado à melhoria econômica relativa", afirma Bernanke.

"Esses resultados não descartam efeitos importantes em cada um dos canais identificados, incluindo os canais ligados aos balanços das famílias, mas eles enfatizam o papel central do pânico no desencadeamento da grande recessão."

Bernanke afirma que suas constatações sustentaram a estratégia impopular que ele e outras autoridades americanas adotaram durante a crise - que foi direcionar quantidades enormes de dinheiro para reverter o pânico em Wall Street e socorrer instituições financeiras com dinheiro público. Desde então, os críticos afirmam que o Fed e as administrações Bush e Obama direcionaram dinheiro demais para resgatar grandes bancos das consequências de sua própria insensatez.

O ex-presidente do Fed diz que as constatações apoiam as medidas adotadas na época, como exigir que os bancos tenham grandes colchões de capital, à medida que as autoridades econômicas buscavam evitar colapsos financeiros futuros. Mas ele se diz "menos otimista" com as ferramentas que o Fed vem usando atualmente.

Por exemplo, as novas exigências de "disclosure" (divulgação de informações) previstas nas ferramentas de combate a crises do Fed "estigmatizaram" a janela do redesconto e outras linhas de empréstimos ao ponto em que elas poderão se mostrar inúteis em uma crise", afirma Bernanke.

"As limitações das ferramentas de combate refletem principalmente uma reação política (perfeitamente compreensível) a algumas das intervenções ocorridas na crise. No entanto, as evidências deste estudo apoiam a visão de que essas intervenções foram em grande parte necessárias para proteger a economia como um todo", afirma ele em sua análise. Este fim da semana marca o décimo aniversário do colapso do Lehmam Brothers, acontecimento que desencadeou a fase mais intensa do pânico financeiro.

Em um evento comemorativo do aniversário da Brookings Institution, nesta semana, Bernanke já havia discutido a condução da crise ao lado de Tim Geithner, que comandava o Fed de Nova York em 2008, e Hank Paulson, ex-secretário do Tesouro. "O fato é que as pessoas não gostam dos bancos e durante uma crise financeira elas realmente não gostam dos bancos. Mas se você for duro demais com o sistema bancário, você pode prejudicar a população", disse Paulson.