Cid tenta blindar palanque estadual no Ceará

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Cid tenta blindar palanque estadual no Ceará

Divulgação

Eunício Oliveira (MDB), Camilo Santana (PT) e Cid Gomes (PDT): no mesmo palanque, políticos evitam referências aos candidatos de seus partidos ao Planalto

Com a camisa polo azul clara forrada de adesivos de candidatos de sua coligação, o ex-governador do Ceará Cid Gomes (PDT) fez um apelo à plateia tão logo Cirilo Pimenta (PDT), ex-prefeito de Quixeramobim (CE), encerrou sua breve explanação. "Esse é um espaço suprapartidário. Aqui a gente trata de governador para baixo. De governador para cima, cada um no seu quadrado", afirmou o ex-governador ao reprimir o correligionário que escolhera para iniciar um debate com políticos aliados e que pouco antes havia dito que o candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT), irmão de Cid, estava muito bem cotado em sua cidade, a segunda maior do sertão central do Ceará.

A reprimenda foi a forma encontrada naquele instante pelo pedetista para evitar um constrangimento ao governador cearense, Camilo Santana (PT), e ao presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB), que concorrem à reeleição e cujos partidos contam com candidatos próprios ao Planalto. Os três dividiram o palco na segunda-feira em um encontro realizado com centenas de prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e lideranças políticas no comitê central da coligação "Por um Ceará cada vez mais forte", localizado em um terreno com dimensões de um campo de futebol em uma área nobre de Fortaleza.

Apesar do esforço, o apelo foi em vão. No papel de mestre da cerimônia, Cid Gomes teve que reiterar o pedido mais três vezes em meio às manifestações de aliados sobre a corrida presidencial. "Não vamos falar de presidente. Se não estabelece uma disputa. O que temos em comum é o governador", frisou em outro momento.

O próprio Cid, porém, não se conteve em dado momento ao ser informado ao pé do ouvido sobre a pesquisa Datafolha, em que o irmão aparece como o concorrente mais competitivo de Jair Bolsonaro (PSL).

Aos espectadores do ato, Cid evitou listar os números, mas recomendou que olhassem depois o resultado em suas casas. Todo o episódio ilustra um pouco do cenário político cearense, que como define o deputado de oposição Heitor Férrer (SD), mais se parece como uma "salada mista". "Eles todos estão juntos por mera conveniência política", diz o parlamentar, um dos poucos que não integram a base governista na Assembleia Legislativa.

Com 16 partidos oficializados em sua coligação e o apoio de 180 dos 184 prefeitos cearenses em uma aliança costurada com a família Ferreira Gomes, Camilo defende Ciro e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) na eleição presidencial. Em um intervalo de duas semanas, subiu no palanque de ambos em visitas do petista e do pedetista pelo Estado. Além disso, o governador conta com a adesão informal de outros oito partidos que estão coligados com Eunício, que hoje é um aliado, mas foi seu principal adversário na campanha de 2014.

O senador emedebista, por sua vez, esqueceu as rusgas do passado com a família Ferreira Gomes - ainda que publicamente Ciro o considere um inimigo - e apoia a candidatura de Cid ao mesmo tempo que usa imagens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em inserções na TV, a despeito da candidatura presidencial do ex-ministro Henrique Meirelles (MDB). Diante do imbróglio, a solução foi criar quatro comitês, sendo um somente para as campanhas de Cid e Camilo, outros dois em que ambos estão ou com Haddad ou com Ciro, além do comitê individual de Eunício.

Ao Valor, Camilo não revela em que vai votar para presidente. Afirma que liberou os aliados e militantes. "Defendi lá atrás que estivéssemos juntos no primeiro turno. Hoje, não sou só candidato do PT. Sou candidato de uma aliança que tem PT e PDT como principais partidos. Temos um projeto para o Ceará que vem desde o Cid. Para mim, é um privilégio ter os dois lados me apoiando", diz o governador que reconhece, por outro lado, a saia justa com a provável troca de farpas entre os presidenciáveis.

"É chato. Mas acho que nosso inimigo está do outro lado. As críticas sempre existem, inclusive, dentro dos próprios partidos. Farei campanha com os dois. Não tenho dúvidas de que estaremos juntos no segundo turno", concluiu o governador, incrédulo sobre a possibilidade de ambos passarem para etapa seguinte. Em uma pesquisa do Ibope, realizada entre 13 a 15 de agosto, Ciro tinha 39% das preferências dos cearenses no cenário sem o ex-presidente Lula. Haddad, que ainda não tinha sido oficializado pelo PT na cabeça de chapa, totalizou 2%. Esta sondagem, no entanto, não captou o potencial de transferência de votos de Lula, que aparecia na simulação com seu nome com 52%, bem à frente do pedetista (14%). A pesquisa foi registrada com protocolo BR 08812/2018.

Ainda que preserve um clima de paz entre os dois concorrentes ao Planalto, há no entorno do governador uma preocupação com retaliações por parte da direção nacional do PT ante sua lealdade a Ciro. O próprio governador falou em "preconceito" da direção partidária ao lembrar que foi o governador petista que menos recebeu recursos de campanha da legenda.

Até o início da semana, Camilo tinha recebido R$ 392 mil, menos até do que candidatos a deputado federal, como Luizianne Lins (R$ 500 mil) e José Guimarães (R$ 450 mil).

"Não teve um critério igual para todos governadores. Não é justo eu receber menos do que o Piauí (R$ 482 mil). Espero que não seja [retaliação]", afirma. O pouco dinheiro não deve repercutir no resultado. Sua reeleição parece encaminhada, de acordo com o Ibope, na qual somou 64% das intenções de voto, além da menor rejeição entre os postulantes (17%). "O maior problema do Camilo neste momento pode ser o salto alto. Nesta reta final, devemos calçar as sandálias da humildade", orientou Cid no ato com as lideranças locais.

Os problemas da ampla aliança não se resumem ao petista. Eunício também enfrenta a resistência na base aliada de Camilo. Conforme o relato de alguns parlamentares, mesmo entre aqueles que se dizem simpáticos à sua reeleição, muitos reconhecem nos bastidores que trabalham apenas pela candidatura de Cid. Petistas dizem que não têm "obrigação" com o senador emedebista, outrora um inimigo. Outros, como o deputado Bruno Pedrosa (PP), percorrem o Ceará em campanha com santinhos de Eduardo Girão (Pros), um dos adversários de Eunício.

Diante da resistência, o senador tem procurado flexibilizar o discurso e evitado uma polarização com Cid. No evento com os prefeitos, repetiu por cinco vezes em um discurso de pouco mais de cinco minutos que neste ano são duas vagas ao Senado. Nesse meio tempo, ainda prometeu lutar para revogar a PEC do teto dos gastos, pela qual votou a favor. A promessa foi feita no embalo de Cid, que o antecedeu em sua fala, ao responder a pergunta de um prefeito sobre o assunto. Sob aplausos, o ex-governador disse que votaria pela revogação.