A cidade e a criança

Publicado em 12/10/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Olhe em volta e conte: quantas crianças você vê utilizando o espaço público? Quantas há no transporte público, indo a pé para a escola ou brincando na praça?

Essa conta simples de fazer, e que pode ser usada para comparar e analisar os locais e cidades que frequentamos, é um indicador rápido a ser usado por qualquer cidadão na hora de avaliar a qualidade de vida urbana. Mais crianças no espaço público significa uma cidade mais segura, agradável e com respostas eficientes a problemas tipicamente urbanos.

É a partir dessa perspectiva que a Fundação Bernard Van Leer convida prefeitos e urbanistas a inserir o cuidado com a criança nas políticas públicas.

Ao se perguntar o que funciona para crianças pequenas, seus pais, cuidadores e mulheres grávidas, as respostas vão abranger os grandes desafios enfrentados por cidades pelo mundo: poluição, saúde, segurança, mobilidade, resiliência e mesmo a incorporação de tecnologias para uma "smart city".

Os primeiros mil dias de uma criança são os mais importantes para sua formação: é quando 90% de seu cérebro se desenvolve. Essas conexões são como a fundação para sua vida, sua saúde e seu aprendizado.

Ter uma base segura para viver esses dias, com ar limpo, espaços verdes, serviços de saúde e educação de qualidade e a curta distância, além de acessibilidade e boa mobilidade para seus pais e cuidadores, é essencial para garantir o bom desenvolvimento das crianças -e formar cidadãos integrados à cidade.

Ciente disso, a Fundação Bernard van Leer lançou um desafio para lideranças do mundo todo: se você pudesse ver a sua cidade de uma altura de 95 centímetros, o que você faria diferente?

Muitas cidades aceitaram e têm desenvolvido soluções pioneiras. Em Bogotá, na Colômbia, o projeto "Crezco con mi Barrio" ("cresço com meu bairro") procura envolver a comunidade no planejamento urbano, criar espaços públicos seguros para a primeira infância; Bhubaneswar, na Índia, está desenvolvendo o Child-Friendly Smart City ("cidade inteligente amigável à criança"), para garantir que a cidade crie projetos de infraestrutura a partir da perspectiva da primeira infância.

No Brasil, Boa Vista, Recife e São Paulo também deverão entregar programas articulados com diferentes secretarias. Mas não só os governos estão envolvidos. Vários coletivos e organizações não-governamentais estão desenvolvendo atividades pioneiras por meio do edital Urban95 Challenge, o qual recebeu 151 projetos de 41 países.

Alguns dos vencedores, no Brasil, foram o Instituto Elos, em Santos (SP), que envolverá membros da comunidade no desenvolvimento de soluções para o espaço urbano focado na primeira infância; e a Universidade Presbiteriana Mackenzie, que desenvolverá um curso universitário para urbanistas da América Latina, em um espaço de pesquisa e design.

Em novembro, em parceria com a Fundação Bernard van Leer, a Rede Nossa São Paulo lançará uma experiência inédita: o Observatório da Primeira Infância, que se desdobrará no Mapa da Desigualdade da Primeira Infância e em dois guias para que outras cidades do país multipliquem a iniciativa.

O mapeamento revelará, por meio de indicadores regionalizados pelos 96 distritos, como São Paulo se relaciona com suas crianças. Programação de contação de histórias e ações para mediação de leitura, iluminação pública, transtornos mentais em crianças com idade inferior a 4 anos e transporte escolar público são alguns dos indicadores que, de forma pioneira, estarão reunidos no observatório.

Em tempos tão desafiadores, toda esta mobilização e o engajamento pelo mundo e no Brasil nos enchem de esperança por cidades mais humanas e acolhedoras, onde as crianças tenham a oportunidade de desenvolver seu potencial.

IRENE QUINTÁNS, 39, arquiteta urbanista, é consultora da Fundação Bernard van Leer
FERNANDA VIDIGAL, 39, é coordenadora de projetos no Brasil da Fundação Bernard van Leer

PARTICIPAÇÃO

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