Copom quer saber o que o mercado espera do novo governo

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Copom quer saber o que o mercado espera do novo governo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central resolveu perguntar, no questionário que tradicionalmente apresenta antes de suas reuniões, qual é a expectativa dos participantes do mercado sobre a aprovação das reformas e sobre a trajetória da dívida bruta.

O questionário não faz nenhuma referência direta ao governo Jair Bolsonaro, mas fica claro que o Copom quer saber o quanto o mercado financeiro confia na capacidade do novo presidente entregar as reformas e colocar as contas públicas em ordem.

O Copom se reúne nos dias 11 e 12 de dezembro e a expectativa geral é que mantenha os juros básicos nos atuais 6,5% ao ano. Os analistas econômicos, porém, estão ansiosos por eventuais sinalizações para os encontros seguintes do colegiado.

O andamento das reformas é a principal incerteza no caminho do Copom. Na última reunião do colegiado, impediu que baixasse a guarda na sua ameaça de subir os juros de forma prematura se o cenário inflacionário decepcionar ou se os riscos se intensificarem.

Segundo as projeções de inflação divulgadas pelo BC em outubro, se não houver uma alta muito forte do dólar, em tese os juros poderiam ficar em 6,5% ao ano por mais tempo do que previa o mercado - na época, os analistas esperavam o início de um aperto gradual em maio de 2019.

Entretanto, o Copom vem tomando com uma dose de cautela suas próprias projeções, pontuando que há incertezas no horizonte. Há vários meses o BC vem citando, entre os riscos negativos, uma eventual frustração na aprovação das reformas que reduzem gastos públicos e aumentam a produtividade da economia. Esses dois componentes, juntos, ajudam a reverter a tendência de alta explosiva da dívida bruta.

Na sua reunião de outubro, realizada depois da vitória em segundo turno de Bolsonaro, o BC reconheceu que o balanço de riscos havia melhorado, mas não o suficiente para tornar o balanço mais simétrico, ou seja, deixar de ficar inclinado para o lado negativo.

Aparentemente, o BC quer mais tempo para medir adequadamente a capacidade do novo governo propor reformas e mobilizar a maioria necessária no Congresso para aprová-las. Com o questionário pré-Copom, quer medir melhor as expectativas do mercado acerca das reformas - talvez para avaliar o tamanho do estrago em uma eventual frustração.

A aprovação das reformas, em si, tem sobretudo efeitos no médio e longo prazos sobre a taxa neutra da economia. Já as expectativas afetam de forma instantânea os prêmios de risco e a taxa de câmbio, com efeito mais imediato sobre a trajetória de inflação e repercussão sobre a política monetária.