Cultura hack

Publicado em 16/05/2018 por Valor Econômico

Quando pensamos em hackers, nós normalmente imaginamos um grupo de gênios da computação trancados em um quarto para invadir sistemas de governo.

Pelo menos esse é o estereótipo de Hollywood. Mas a cultura hacker surgiu na década dos anos 1960 em universidades nos Estados Unidos, onde estudantes se reuniam para desafiar novos sistemas computacionais por noites inteiras a base de cafeína. O objetivo era encontrar formas de aperfeiçoar esses sistemas e superar suas limitações.

Essas sessões, que ficaram conhecidas como "hackatons", se tornaram chave para a inovação e também parte do DNA do Vale do Silício. Na principal praça onde fica a sede do Facebook em Menlo Park, na Califórnia, a palavra "Hack" está escrita no chão.

E os hackatons têm ajudado toda a indústria da tecnologia, seja qual for o tamanho da organização, a encontrar soluções para desafios complexos, de forma criativa e em tempo recorde.

Trata-se de uma mudança de paradigma. No passado, os líderes das empresas baseavam suas decisões no conhecimento que eles próprios tinham adquirido ao longo do tempo. Hoje, com o conhecimento espalhado e com pessoas altamente especializadas, estratégias de colaboração como hackatons permitem aos líderes juntar as mentes mais brilhantes de diferentes áreas para solucionar desafios para os negócios.

 Os hackatons ajudam as organizações a pensar fora da caixa, a testar ideias e a rapidamente construir protótipos de produtos. Essa filosofia foi capturada noManifesto para Desenvolvimento Ágil de Software, que a partir de aprendizados da indústria do software apresenta um processo de gerenciamento de projeto estruturado que encoraja interação, trabalho em equipe, auto-organização, entrega rápida, simplicidade e alinhamento com as necessidades dos consumidores.

E também encontrou uma aplicação poderosa noScrum, um framework popular que incentiva o uso de times multidisciplinares e auto-organizados para otimizar flexibilidade, criatividade e produtividade.

Os hackatons transcendem o ambiente corporativo. No auge do surto da Zika, em 2016, nós organizamos um hackaton com mais de 40 executivos da indústria, especialistas em saúde e engenheiros de software em nosso escritório em São Paulo para pensar em formas de apoiar as comunidades atingidas pelo vírus. Os protótipos resultantes de dois dias de sessão incluíram um app para mapear a disseminação da doença em tempo real e um outro para aumentar a conscientização entre mulheres grávidas vivendo em áreas de risco.

Pessoalmente, o que eu mais gosto é a energia das pessoas com diferentes habilidades colaborando em busca de um objetivo ambicioso, em uma corrida contra o relógio.

 A seguir, algumas coisas que eu aprendi em noites em claro participando de hackatons: 

Defina objetivos claros, ambiciosos e inspiradores.

Tenha certeza de que todas as pessoas que são relevantes para o projeto estejam na sala e também ativamente engajadas na discussão.

Comece com uma sessão para identificar dois ou três desafios que vocês querem resolver.

Divida os participantes em grupos menores para trabalhar sobre cada um dos desafios identificados. Defina claras expectativas sobre os resultados.

Cada grupo deve apresentar os resultados de suas discussões para o grupo maior. Incentive a discussão.

Liste ideias, identifique tarefas e indique os responsáveis por realizá-las.

E tenha certeza de comprar pizza e café em quantidade suficente para que todos passem a noite em claro.

Sou um grande defensor deste tipo de trabalho colaborativo. Eu tenho visto isso no meu dia a dia: alguns de nossos produtos mais populares, incluindo o botão "Curtir", foram criados durante hackatons que se estenderam durante a noite.

 

Diego Dzodan é vice-presidente do Facebook e Instagram na América Latina

Esta coluna se propõe a tratar de questões relativas a carreira, gestão e mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza, nem pode ser responsabilizado, pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.