Escola Sem Partido e Liberdade de Expressão

Publicado em 08/11/2018 por Diário do Sudoeste

Eu penso que a discussão de ideias, interesses e opiniões diferentes é uma das coisas mais importantes para a evolução intelectual da própria humanidade. Ora, se não houvesse pessoas que apresentam ideias diferentes e questionam o que é ortodoxo e tido como verdade, nós ainda pensaríamos que a Terra é plana (alguns ainda pensam) e que o Sol gira ao redor da Terra. Querer ter uma espécie de ortodoxia intocável num ambiente acadêmico é destruir a construção de novas ideias, a evolução e o aprofundamento do conhecimento.

É justamente no embate de ideias que se consegue extrair o melhor de cada uma delas. Eis a importância, então, das escolas e universidades serem um espaço aberto para o debate, pois são exatamente lugares que têm como intuito o amadurecimento de ideias e a ampliação do conhecimento, onde tanto um professor quanto os seus alunos podem colocar em pauta sua visão sobre determinado assunto e, através do debate, tanto um quanto o outro terá a possibilidade de aprofundar sua compreensão sobre os mais diversos assuntos, vistos dos mais variados ângulos.

Entretanto, me parece que algumas pessoas não compreendem esse conceito quase lógico, de que é apenas por meio de ideias e pensamentos divergentes que se evoluí e se chega a algo novo. Quando não se entende isso, chegamos a alguns absurdos. Sinceramente, quem não se assusta quando vê pessoas que acreditam piamente que os livros didáticos são todos feitos com o intuito oculto de uma doutrinação voltada a alguma ideologia específica, e que os professores estão educando seus alunos para que propaguem então esta ideologia que lhes foi agora interiorizada. Sério, mesmo? O que essas pessoas acham que acontece em uma sala de aula? Horas e horas de sessões hipnopédicas com o objetivo de criar um admirável mundo novo?

A realidade é bem mais simples, pois esse pensamento absurdo me parece apenas uma exteriorização que algumas pessoas fazem, uma exteriorização da intolerância e da dificuldade de lidar com a mais básica premissa de que sempre existirão ideias diferentes, e nenhuma estará absolutamente certa ou errada. Afinal, há uma infinidade de pessoas nesse mundo, e cada ser humano tem tantas particularidades que poderíamos até considerar cada indivíduo como sendo um universo completamente diferente do outro.

percebendo, então, que o motivo real de muitas pessoas terem essa grande dificuldade de tolerar a liberdade de expressão num ambiente acadêmico, onde essa condição se faz essencial, é porque apesar da liberdade de expressão ser um direito que você tem como indivíduo, ela é acima de tudo um direito "do outro"; todos a possuem tanto quanto você, é algo que quando você aceita receber, você também aceita dar ao outro, e todos são muito felizes e aprendem muito bem a receber sua liberdade de expressão e exercê-la aos quatro ventos, mas poucos toleram ver o outro fazendo esse mesmo uso dela.

Temos simplesmente que entender que todo indivíduo é único, sendo assim a discordância é natural quando se junta vários indivíduos como membros de um só corpo social, e a discordância se resolve apenas através da deliberação e do debate, sendo comprovado que é através do debate que as ideias realmente evoluem para algo melhor, portanto, no fim das contas, todos deveriam querer que esse corpo social evolua, já que todos fazem parte dele.

Assim sendo, a defesa de um direito como a liberdade de expressão se torna algo essencial, e que deveria ser defendido por todos nós, como disse Voltaire: "Detesto cada palavra que o senhor diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las". A liberdade de expressão é uma das premissas mais fundamentais para que se tenha uma sociedade funcional, e se querem tirar isso até das salas de aula, onde iremos parar então? Criaremos uma ortodoxia indisputável? Não me parece um bom caminho.

Saber lidar com a divergência de ideias é uma arte, uma arte chamada de política, pois a verdadeira política não é aquela que se faz na Câmara dos Deputados ou no Senado em Brasília, a verdadeira política é aquela que cada um faz diariamente como parte de uma sociedade, como diria Rousseau: "Se não houvesse interesses diferentes, o interesse comum seria conhecido com dificuldade, jamais encontrando obstáculos: tudo fluiria por si e a política deixaria de ser uma arte". O dia que o povo esquecer como se faz esta arte, então estaremos caminhando para um caminho de ignorância.

Acadêmico de Direito da Universidade Positivo