Espaço para startups

Publicado em 12/10/2017 por O Globo

Não é novidade para ninguém que o Vale do Silício, na Califórnia, é o principal polo de empreendedorismo no mundo. Walter Isaacson, o biógrafo de Steve Jobs, comenta que esse fenômeno só ocorre quando sementes maduras caem em solo fértil. Quatro são os elementos fundamentais para o estabelecimento de um empreendedor profícuo: o acesso ao conhecimento (know-how); a atitude de rebeldia, o comportamento empreendedor disruptivo ante os padrões estabelecidos; o capital disponível por meio de investidores que flertam com mais risco e estão dispostos a apostar nessas startups; e o ambiente favorável à inovação e ao compartilhamento de ideias, necessidades e soluções.

Vale o comentário do brasileiro radicado na Califórnia Mauricio Benvenutti, de que se nesse ecossistema só existir capital, prevalecerá o domínio da exploração dos recursos naturais, como acontece no Golfo Pérsico com o petróleo. Adicionando-se o conhecimento, esses mercados tendem a se concentrar dentro das grandes empresas já estabelecidas, sem inovação, porque mais hierarquizadas e padronizadas. Se existir só conhecimento, tornam-se economias de mercado, como a Índia, especializada em exportar bons programadores para clientes de outros países. E quando há somente a atitude disruptiva, formam-se economias de subsistência, ou seja, ativismo social e criação artística, mas sem se construir grandes negócios.

Também não é novidade que o nosso Rio de Janeiro atravessa um momento de crise financeira e, sobretudo, de identidade. À exceção do pré-sal, desde a perda da capital, há 57 anos, não adotamos verdadeiramente um perfil e uma política de desenvolvimento de longo prazo. Nem mesmo os grandes eventos aqui realizados tiveram o resultado desejado de nos catapultar em direção ao turismo em grandes proporções.

Em toda crise sobram oportunidades. O Brasil hoje ocupa somente a 98ª posição no ranking de ecossistemas empreendedores divulgado pelo Global Entrepreneurship Index, atrás de Botswana (52º) e Tajiquistão (95º).

Visando a tomar a dianteira nesse assunto em nosso país, o Rio de Janeiro já reúne três desses requisitos: o espírito disruptivo faz parte da cultura carioca, o conhecimento está disponível nas crescentes incubadoras e coworkings e o investimento-anjo acaba de ter apoio legal, apesar das críticas que podem ser feitas à forma de tributação escolhida. Já o quarto poderá se desenvolver com a criação de centros de empreendedorismo, como acontece na Tech City de Londres.

A região do Porto Maravilha, por exemplo, funcionaria perfeitamente como solo fértil para plantarmos essas sementes. Em tempos em que a cidade é arrasada por corrupção, violência, má gestão e falta de recursos e sem maiores perspectivas, a esperança de dias melhores certamente passa pela aposta no empreendedorismo e no incentivo à proliferação de startups.