EUA saem da Unesco às vésperas de eleições na agência da ONU

Publicado em 12/10/2017 por O Globo

Bandeiras dos países integrantes da ONU na sede da Unesco em Paris - Philippe Wojazer / REUTERS

PARIS - A decisão dos Estados Unidos de sair da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) a partir de 31 de dezembro deste ano foi anunciada em um período delicado para a agência da ONU. A entidade vota para escolher um novo diretor esta semana, em uma eleição marcada pelos problemas de financiamento e as divisões no órgão sobre a associação palestina. Qatar e Egito trocam provocações na disputa pelo cargo de diretor-geral, para substituir a búlgara Irina Bokova.

A liderança do candidato qatari, Adulaziz al-Kawari, é vista pelos EUA e Israel como um fracasso nos esforços para garantir o cargo a alguém que consideram mais amigável. Esta semana, o embaixador de Israel na Unesco descreveu a trajetória da votação em urnas secretas como "má notícia para a organização e, infelizmente, também para Israel".

Alguns diplomatas consideraram que a votação para incluir a Palestina era evidência do viés anti-Israel enraizado dentro das Nações Unidas, onde Israel e seus aliados estão muito abaixo dos votos dos países árabes e seus partidários.

A Unesco é mais conhecida por seu programa de Patrimônio Mundial para proteger lugares e tradições culturais em todo o mundo, como a antiga cidade síria de Palmira e o Parque Nacional do Grand Canyon, nos EUA. A agência também trabalha para melhorar a educação das crianças em países extremamente pobres e no campo científico, para promover uma melhor compreensão dos horrores do Holocausto e para defender a liberdade dos meios de comunicação, entre outras atividades.

SAÍDA AMERICANA ESPERADA

O governo do presidente Donald Trump estava se preparando para uma possível retirada há meses, e esperava uma decisão antes do fim do ano, segundo funcionários americanos. Vários representantes diplomáticos que seriam enviados à missão na agência este ano foram informados que seus postos estavam suspensos e aconselhados a buscar outras vagas.

LEIA MAIS: Estados Unidos saem da Unesco e acusam agência de ser anti-Israel

Unesco reconhece Hebron como Patrimônio Mundial da Palestina

Votação da Unesco sobre Hebron é delirante, diz Netanyahu

Cinco perguntas sobre o conflito em Hebron, novo patrimônio mundial

Além disso, no projeto orçamentário da gestão Trump para o próximo ano fiscal não prevê a possibilidade de suspensão das restrições financeiras impostas à Unesco. Desde 2011, os Estados Unidos cortaram o financiamento à agência após o órgão decidir incluir a Autoridade Palestina como um membro, mas o Departamento de Estado manteve seu escritório na sede da agência em Paris, na tentativa de avaliar as políticas definidas.

Além da falta de pessoal e de planos de financiamento para a Unesco pelo lado americano, altos funcionários do governo dos EUA, entre eles, a embaixadora da ONU, Nikki Haley, fizeram condenaram reiteradamente medidas da entidade. Este ano, a agência foi pressionada pelos governos dos EUA e Israel após declarar a cidade palestina de Hebron como patrimônio mundial.

Essa é a segunda vez que o governo americano decide abandonar a Unesco. A gestão do ex-presidente Ronald Reagan tomou tal medida em 1984, afirmando que a agência era a favor da União Soviética. Quase duas décadas depois, no governo de George W. Bush em 2002, os Estados Unidos voltaram a se associar à agência da ONU.