Ex-executivos dizem no FIIS que carreira de propósito está hoje mais perto dos jovens

Publicado em 08/11/2018 por Folha de S. Paulo Online

Poços de Caldas (MG)

Uma cena surpreendeu a todos os participantes durante um dos eventos no FIIS (Festival de Inovação e Impacto Social), em Poços de Caldas (MG), na segunda-feira (5).

Conduzidos pelo professor e consultor Ricardo Voltolini, referência em liderança e sustentabilidade, o administrador de empresas Bernardo Bonjean (Avante), a pedagoga e gestora administrativa Cynthia Betti (Plan International) e o engenheiro Ricardo Podval (Civi-Co) tinham acabado de explicar os motivos que os levaram a empreender no painel CEO de Propósito quando veio a surpresa.

Comovido pelos depoimentos, o professor e ouvidor federal André Luiz da Silva indagou Podval. "Você sabe por que não tem o domínio civico.com.br? E quem é dono?", questionou.

"Puxa, eu procurei esse dono, pesquisei e até mandei um email a ele", respondeu Podval, que tem sua empresa alocada no civi-co.net.

"Eu nem abri seu email. O dono sou eu. E eu digo aqui na frente de todos que abro mão do direito do domínio para você usar no Civi-co, que vejo que ajudará muita gente", disse Silva.

Quando adquiriu o domínio, em janeiro de 2014 o professor imaginou criar algo para impulsionar as pessoas a participarem do Estado. E, ao saber da história do Civi-Co, cuja criação motivou Podval a trocar o mundo empresarial para o do empreendedorismo social, não titubeou.

"Eu queira comprar o domínio dele. Procurei bastante. E agora vejo essa atitude bonita dele, num ambiente como este do FIIS, que motiva todos nós a queremos causar mais impacto em nossas ações", afirmou Podval.

Ele tinha sido o último a falar no painel, que discutiu a transição da carreira executiva para o empreendedorismo e teve três consensos. 

O primeiro, o de que não há uma receita de bolo para migrar a carreira. "Isso não ocorre do dia para a noite. Eu diria que é um processo, que envolve desde sentimentos, avaliação da situação financeira e até conversas e apoio da família", afirma Cynthia, que, aos 47 anos, fez deixou a diretoria de uma seguradora para trabalhar na Plan International, ONG que defende os direitos de crianças, adolescentes e jovens, com foco na promoção da igualdade de gênero. 

"Eu tinha propósito em minhas ações. Mas agora vejo propósito em meu trabalho", diz ela, cuja organização atua em cinco estados brasileiros e beneficiou mais de 6.500 crianças e cerca de 3.000 familiares. 

O segundo consenso foi o de que o capitalismo sem consciência social impõe um relação de perdas para muitos e ganhos para poucos. "Eu daria nota 4 para o capitalismo, porque assim ele não passaria de ano, já que não faz pelas pessoas", disse Bonjean, que largou a carreira em bancos para empreender socialmente na Avante --ele foi finalista do Prêmio Empreendedor Social em 2017.

"Hoje, quando eu coloco meu filho para dormir, em vez da história de heróis, eu conto a histórias do meus clientes e beneficiários", diz ele, que oferece microcréditos e serviços bancários humanizados para a base da pirâmide e hoje atende a 100 mil pessoas.

O terceiro, e último ponto de consenso da mesa com os ex-executivos, foi que o sentimento que levou os quatro a mudar o rumo das carreiras está mais precoce.

"É com grande alegria que vejo jovens trainees com os pensamentos que passamos a ter após os 40 anos, de empreender, trabalhar com um propósito, de questionar o que aquele trabalho vai agregar na vida, na comunidade, nas pessoas", afirmou Voltolini.

"Esse é o que propósito nos move", concluiu Podval, que vê o Civi-co ajudar 62 organizações e atingir 5 milhões de pessoas.

FESTIVAL

O FIIS acontece entre os dias 2 e 7 de novembro no Palace Cassino, em Poços de Caldas (MG). O evento agrega o encontro anual da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais, formada por cem líderes, o Congresso Sorriso do Bem, da Turma do Bem, correalizadora desta edição, e o Fórum Melhores Práticas para Saúde no Terceiro Setor, da Aliança Latina.

Na programação, temas como o futuro dos negócios sociais e das ONGs, captação, mobilização e conexão, inovação e novo significado do voluntariado serão discutidos durante masterclasses, workshops e painéis que contarão com a participação de empreendedores, investidores e empresas que atuam por impacto positivo.