Folia do Viradouro busca o tetracampeonato no principal desfile de Niterói

Publicado em 10/02/2018 por O Globo

Folia do Viradouro levará para a Rua da Conceição um enredo sobre os sete pecados capitais - Roberto Moreyra / Agência O Globo

NITERÓI - Ela leva o Viradouro no nome, tem quatro títulos no carnaval de Niterói, do qual é a atual tricampeã. Carrega também um vistoso estandarte vermelho e branco que, frequentemente, faz pierrôs, colombinas, arlequins e araribóias confundi-la com sua irmã mais famosa. Fundada em 2000, ainda como bloco, antes da volta dos desfiles da cidade, o que aconteceria seis anos depois, a Folia do Viradouro completa este ano a maior idade. Em um carnaval marcado por enredos de protesto, com críticas de tom político e religioso, a agremiação levará na terça-feira, para a Rua da Conceição, um tema irreverente, que desfilará sobre esses dois universos ao abordar os sete pecados capitais.

O barracão da Folia do Viradouro fica na comunidade, onde a vizinhança toda se engajou nos últimos dias para que tudo ficasse pronto a tempo. Presidente da escola, Marcelo Serpa reconhece que o crescimento foi rápido e admite ter um carinho por aquela que cham de "outra Viradouro", mas garante que a identidade de sua escola pouco tem a ver com a da campeã do Grupo Especial de 1997.

- Nós também somos do Viradouro, estamos no coração da comunidade que nos abraça. O nome é uma homenagem a ela, e não à escola, da qual também gostamos e que nos ajuda como pode. Este ano ela voltou a nos apoiar, após um carnaval afastada. Em 2017, quem nos ajudou foi o Salgueiro, que nos deu aquele malandro - afirma, ao apontar uma escultura de cinco metros de Zé Pilintra.

A agremiação procura não deixar a comunidade órfã da festa. Como a quadra da Unidos do Viradouro atualmente fica no Barreto, os moradores têm dificuldades para chegar até lá e precisam pegar dois ônibus, o que afasta a população mais carente do carnaval. Para o próximo ano, as duas agremiações já planejam uma parceria para reaproximar a escola de seu berço.

TRADIÇÃO RESGATADA

Mais tradicional escola de Niterói, a Combinado do Amor está entre as mais antigas do país: foi fundada em 1936. Enrolou a bandeira entre 1996 e 2012, e somente no ano passado conseguiu retornar ao principal desfile da cidade. Remanescente de um período em que o carnaval niteroiense era o segundo maior do Brasil, a agremiação do Caramujo, oitava a desfilar, é, também, um símbolo da resistência do samba local. Seu presidente é o mesmo da Liga das Escolas de Niterói (Lesnit), Carlinhos Xororó. Enquanto trabalha pelo sucesso da apresentação da águia, que apresentará o enredo "Da África à Negra Bahia, ecoam tambores, raça, fé, cultura e sabores", ele organiza o segmento em busca do retorno da festa à antiga passarela de desfiles, um pleito histórico das escolas.

- Gostaríamos muito que a festa voltasse para a Avenida Amaral Peixoto, que é um palco histórico dos desfiles de Niterói. Após o carnaval, apresentaremos um projeto que pedirá isso à prefeitura. É uma rua mais larga, o que permitirá alegorias maiores e menos problemas com alegorias, por conta da distância e da altura dos cabos de energia elétrica. Além disso, poderemos receber um público ainda maior, engajando mais gente - afirma.

Autor do livro "Antigamente que era bom: a folia niteroiense entre 1900 e 1986", lançado no início de janeiro, o pesquisador Leandro Silva explica que o antigo endereço ainda está muito presente na memória afetiva dos sambistas de toda a região.

- A Amaral Peixoto recebeu grandes desfiles, quando diversas gerações viram o carnaval de Niterói ser um dos melhores do país, onde Viradouro, Cubango e Sossego cresceram e amadureceram. Além de a estrutura ser superior, há todo um repertório de boas lembranças que perduram e ganham força com os critérios técnicos, já que um desfile ali seria mais plástico e facilitaria a logística de concentração para as escolas - analisa.

Niterói é, além do Rio, a única cidade da Região Metropolitana que ainda conta com um desfile próprio de carnaval. Seus três grupos reúnem 29 escolas. Assim, atrai também agremiações de cidades vizinhas, como Galo de Ouro, Sacramento e Mocidade Independente do Boaçu, todas de São Gonçalo. O movimento não é fruto do acaso: é reflexo do fim dos desfiles do município vizinho, ocorrido há dois anos. A história da folia mostra que os desfiles locais costumam ser intermitentes.

Everaldo dos Santos, presidente da Mocidade Independente do Boaçu, explica que a escola aderiu ao carnaval niteroiense em 2009, quando já não tinha mais adversários à altura em casa, após a conquista do pentacampeonato. Hoje na terceira divisão da folia niteroiense, lamenta não poder voltar nem mesmo se quisesse.

- Nós íamos muito bem lá, mas o carnaval aqui é mais forte. Chegamos a estar na Série A de Niterói, para a qual queremos voltar em breve. Para isso, precisamos deixar o Grupo C, o último, no qual estamos hoje - afirma.

A escola desenvolveu um enredo que parece escolhido sob medida para quem quer se livrar da recente sina de rebaixamentos: "Xô, xô, azar!". A verde, vermelha e branca colocará à prova seu destino às 18h desta terça-feira.

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