Grades curriculares incorporam mais disciplinas sobre inovação

Publicado em 13/11/2017 por Valor Online

Michele Quintano, diretor da Esade: "Estamos tentando nos adaptar, desenhando programas e conteúdos relacionados à digitalização" A velocidade das mudanças no mundo corporativo tem feito com que as escolas internacionais revejam seus currículos todos os anos, trazendo novas disciplinas ou complementando conteúdos com estudos de caso, simulações e linhas de pesquisa que acompanhem as revoluções do mercado. Atentas aos modismos, porém, elas ainda resistem a mudar a estrutura básica de seus MBAs e vêm optando por complementar a formação desses alunos com opções on-line, eletivas ou customizadas. "Todos os anos, criamos pelo menos cinco cursos com temas relacionados às novas tecnologias", afirma Peter Hirst, reitor de educação executiva da MIT Sloan. Nos últimos dois anos, ele conta, o ritmo de desenvolvimento de novos conteúdos acelerou - e boa parte deles vem sendo ministrada por via digital. Este ano, a escola lançou programas on-line sobre temas como efeitos da internet das coisas e da inteligência artificial sobre os negócios, big data e business analytics. A francesa Insead também intensificou o lançamento de cursos relacionados às novas tecnologias. Segundo o professor Joerg Niessing, diretor executivo do Insead eLab, nos últimos dois anos ao menos dez disciplinas eletivas foram introduzidas no currículo dos cursos de MBA. Elas vão desde empreendedorismo digital, fintech até um workshop de programação em diferentes linguagens. A ideia, segundo Niessing, é treinar os estudantes de MBA não para que sejam especialistas nesses temas, mas para que possam liderar a estratégia de inovação de suas companhias incluindo esses conceitos. Assim como acontece no mundo dos negócios, há uma tendência de maior flexibilidade e cooperação entre os departamentos das escolas, ao criar estudos de caso que reúnam conceitos de marketing, operações e finanças, por exemplo. "A ideia é buscar mais interdisciplinaridade e trabalhar em parceria para que possamos aprender juntos e pensar em como abordar assuntos de negócios tradicionais de maneira inovadora", diz Niessing. Os estudos de caso, ferramentas tradicionais nos cursos de MBA, são apenas uma das mudanças que as instituições vêm implementando nos últimos anos para atender à demanda constante por conteúdo inovador. É uma tentativa de responder ao grande desafio de boa parte das escolas de ponta em todo o mundo: o de atualizar os currículos de MBA, amarrados a uma carga horária e temática que é auditada constantemente por entidades certificadoras. A solução ainda não é tão clara para muitas delas e algumas vêm fazendo experimentos em outros programas, que conseguem responder de forma mais rápida aos movimentos do mercado. Os programas de educação executiva e os cursos de curta duração estão livres da obrigatoriedade curricular e têm mais liberdade de inovar. A espanhola Esade lançou um Digital Hub, que congrega programas executivos digitais e trabalha de forma mais especializada temas como big data e inteligência artificial, e-commerce e marketing digital. "Estamos tentando nos adaptar, desenhando programas e conteúdos relacionados à digitalização", diz Michele Quintano, diretor de programas abertos. O design thinking, uma tendência quando se trata em modelos de negócios, também é oferecido em muitos cursos da escola, assim como a disciplina de gestão da mudança. Os representantes das instituições de ensino executivo concordam, porém, que as áreas de conhecimento básicas dos negócios continuam a ter o mesmo grau de relevância - não há disciplinas que perderam importância nesse cenário de digitalização e novas tecnologias, mas temas que necessitam novas abordagens levando esses avanços em consideração. "Muitas vezes o curso não muda, mas o conteúdo sim. Em disciplinas de operações, é preciso falar sobre a Amazon, o que mereceria apenas uma breve menção há alguns anos", afirma Quintano. "Todos os cursos têm um componente digital. Não existe ensino de finanças digitais, mas sim de finanças em um mundo digital. O mesmo vale para estratégia. Estamos falando de um mercado onde precisamos levar em conta o aspecto da digitalização em todas as áreas do conhecimento", diz Niessing, do Insead. Peter Hirst, da MIT Sloan, alerta para os temas que podem ser apenas 'modismos' no mundo dos negócios. "Tentamos não ensinar os fatos novos, mas como trabalhar para que os alunos sejam cada vez mais autossuficientes, pensando de forma inquisidora e crítica", diz. Por isso, explica, os temas mais específicos e aprofundados em novas ferramentas ou tecnologias tendem a ser mais explorados em cursos customizados. Mesmo nesses casos, os conteúdos são sempre baseados em pesquisas. "Não queremos estar na moda, mas providenciar valores fundamentais e duradouros para as companhias", afirma.