É hora de doar!

Publicado em 03/12/2018 por Zero Hora

Antes das eleições presidenciais de 2016, Tess Malone, 28 anos, raramente se envolvia com doações que não fossem para fundos de auxílio a catástrofes naturais ou campanhas individuais de financiamento coletivo no GoFundMe. Agora, entretanto, as contribuições - geralmente feitas tarde da noite, de maneira ansiosa, quase frenética - viraram gasto padrão para ela, tanto quanto as compras do mês ou comer fora.

Malone, que vive em Atlanta e trabalha no setor de comunicações da Georgia Tech, separa mais ou menos US$ 50 de seu orçamento mensal para apoiar causas e candidatos progressistas, incluindo a União Americana pelas Liberdades Civis, o National Network of Abortion Funds e o Planned Parenthood.

E há também os donativos mais esporádicos, que ela tende a fazer a outras organizações na base da necessidade - como quando enviou dinheiro para a Southerners on New Ground, depois do memorando recente do governo detalhando sua intenção de restringir as definições de gênero.

Irônica, ela explica que está se "automedicando com dinheiro", e o tratamento começou um dia depois de Donald Trump ter sido eleito à presidência.

"Eu estava no escritório, não conseguia parar de chorar, mas queria encontrar um jeito de me sentir um pouco melhor; aí comecei uma doação recorrente para a Planned Parenthood", conta. Alguns meses depois, Donald Trump assinou o decreto de proibição de viagem.

Sentindo-se impotente e sem saber bem como ajudar sem interferir, Malone passou a fazer outra doação mensal, dessa vez para a União Americana pelas Liberdades Civis. Sentiu que a contribuição era produtiva, ainda que em escala microscópica, além de ajudá-la a minimizar o desespero que ameaçava engoli-la.

"Só de fazer alguma coisa, ainda que uma doação pequena, já me dá a sensação de dever cumprido", afirma Malone, que também pediu votos na campanha ao governo do estado da Geórgia para Stacey Abrams e é voluntária, acompanhando as pacientes do Planned Parenthood.

Para Malone e outros que se sentem afetados pelo clima dos noticiários, que parecem alardear uma crise constante, investir em causas políticas e sociais como resposta automática às manchetes se tornou uma forma de se cuidar e se proteger.

Raiva ou medo como motivação para doar não é um fenômeno recente: diversas organizações civis e de direitos humanos testemunharam um aumento imediato após as eleições de 2016, com pessoas como Malone, estimuladas pelo choque e a frustração, injetando dinheiro em causas políticas e sociais que achavam estar ameaçadas com o novo governo.

Porém, dois anos depois, os donativos à base do pânico (também conhecidos como doações de revolta), geralmente facilitados pelos novos métodos digitais, se tornaram um mecanismo de enfrentamento preferido por muitos daqueles que se veem no fogo cruzado das notícias de última hora, os ciclos eleitorais tensos e os decretos-surpresa.

Em outubro, a ActBlue, ferramenta de arrecadação de fundos on-line para candidatos democratas e progressistas, fechou o trimestre mais bem-sucedido de seus 14 anos de história, registrando um aumento de 132 por cento nas contribuições (e 214 por cento de acréscimo no valor total de fundos arrecadados) em relação ao mesmo período em 2016. Em 28 de setembro, por exemplo, o site processou mais de US$ 11 milhões em doações - que, aliás, foi o dia em que Christine Blasey Ford prestou depoimento perante o Senado.

Talvez a prova mais contundente do poder dos donativos à base do pânico tenha ocorrido em julho, quando o Centro de Serviços Legais e Educação para Refugiados e Imigrantes (RAICES), uma ONG do Texas, arrecadou três vezes mais do que seu orçamento operacional anual em questão de dias com uma campanha criada logo após a divulgação da nova política do governo para separação de famílias na fronteira.

Doar para se sentir útil

Para muitos, é um ciclo já conhecido: a notícia bombástica, que pode ser um tiroteio em massa, a reversão de direitos civis, um grupo minoritário que se vê ainda mais vulnerável por causa de alguma legislação; a seguir, revolta e pânico. Por causa dessa ansiedade coletiva, ativistas sociais e políticos atraem as pessoas para organizações que já estão trabalhando para combater a questão abordada.

Aqueles que se apavoram, ficam ansiosos para ajudar - e talvez também para se sentir um pouco menos mal em relação ao estado do mundo, ainda que por um instante -, sacando do cartão de crédito ou da senha do PayPal, na tentativa de recuperar a sensação de controle, de ter a sensação de poder fazer alguma coisa oferecendo uma pequena quantia em dinheiro. E repetem a operação quantas vezes forem necessárias.

Para aqueles que têm esse privilégio, oferecer vinte dólares para uma organização qualquer hoje é tão simples quanto convidar um amigo para tomar café, e um preço irrisório pelo alívio do desespero existencial, ainda que breve.

"É algo que posso fazer de madrugada, por exemplo, quando entro em pânico", confessa Malone. Ao contrário dos protestos de rua e do voluntariado, enviar dinheiro é coisa instantânea, que pode ser feita a qualquer hora do dia ou da noite, quando chegarem as más notícias.

"Não tenho dinheiro suficiente para fazer uma diferença drástica, mas o donativo à base do pânico é uma nova realidade no nosso orçamento doméstico. Toda vez que algo horrível acontece, mando uma mensagem para o meu marido, tipo 'Doei mais US$ 50 para a ACLU porque está tudo horrível', ou 'Mandei uma quantia para o RAICES porque no caminho de casa para o trabalho só fiz chorar'", conta Christina Rentz, 39 anos, que vive em Durham, Carolina do Norte, e é gerente de selos da Merge Records.

O controle de armas é uma questão que faz essa mãe de dois meninos se sentir particularmente desesperada. Por isso, ela faz doações regulares à Everytown for Gun Safety, embora não se lembre qual massacre a levou a ofertar o primeiro donativo. "Acho que foi Parkland, mas... não é terrível isso - nem saber qual foi a tragédia que me motivou, porque são tantas? É horrível."

Ela diz que oferecer dinheiro alivia temporariamente a sensação de esgotamento e impotência. "É péssimo saber que você não tem resposta para nada; acho que é isso que me leva ao pânico. Acaba sendo natural achar que esse pessoal que lida com a causa saiba o que fazer, então você manda doações como se dissesse: 'Olhe, vá lá e encontre as soluções porque eu nem sei por onde começar.'"

No ano passado, ela também fez contribuições para a KIND Inc., o You Can Vote e o NAACP. "Não vejo lugar mais importante onde investir no momento. O quê, ir ao cinema de novo? O que é mais importante do que a segurança e a democracia? Não sei se faz alguma diferença, mas a sensação de agir é importante para mim."

O estímulo para dar

Não é só o pessoal da esquerda que está doando para aliviar a tensão política; no mês seguinte ao massacre de Parkland, na Flórida, a NRA recebeu um volume recorde de contribuições, totalizando US$ 2,4 milhões, a maioria na forma de doações de US$ 200 ou menos.

Um desses doadores foi Sam Swanson, de College Park, Maryland, que nunca contribuíra para a associação antes, e só se engajou ativamente na cultura do armamento este ano. O rapaz de 22 anos que trabalha em segurança cibernética acompanhou de perto os eventos de Parkland pelos fóruns conservadores do Reddit e ficou surpreso com os apelos para o controle de armas após o ataque. E conta que foi depois de assistir ao debate sobre violência armada na CNN que resolveu agir.

Ele se descreveu "enojado e revoltado" com o tratamento dispensado ao pessoal da NRA no evento, e temoroso pela possível legislação resultante do tiroteio. "Mas talvez, acima de tudo, eu tenha me sentido resoluto. Tinha de fazer alguma coisa para garantir que não só os meus direitos, mas os de milhões de outros que pensam como eu, fossem protegidos." E investiu US$ 30 pela adesão básica (além de comprar uma pistola 9 milímetros logo em seguida).

Desde então, Swanson continua contribuindo para várias organizações de apoio à Segunda Emenda. Em maio, Maryland aprovou a lei que proibia a coronha adaptada (bump stock), e o jovem reagiu doando US$ 50 para a Maryland Shall Issue, que planejava entrar na justiça contra o estado. "Doar para esse tipo de organização faz com que eu me sinta útil, mais seguro, e me dá esperança. É bom saber que não sou só eu brigando por esses direitos."

Por Gray Chapman