Ibovespa perde força, mas segue nos 90 mil pontos; dólar sai a R$ 3,83

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

SÃO PAULO  -  O Ibovespa segue apresentando desempenho positivo nesta segunda-feira, embora tenha perdido força e se afastado das máximas, em meio à redução nas tensões comerciais entre Estados Unidos e China. A melhora na percepção de risco por parte dos investidores, somada à forte valorização do petróleo, fazem com que os papéis mais ligados ao exterior e às commodities como um todo apareçam entre os principais ganhos do índice.

Por volta de 13h52, o Ibovespa avançava 0,95, aos 90.353 pontos, após chegar aos 91.242 pontos na máxima (1,94%) - novo recorde intradiário. O giro projetado é de R$ 14,1 bilhões ao fim do dia.

O índice perdeu parte de seu ímpeto após a abertura dos mercados americanos - o Dow Jones sobe 1,12%, o S&P 500 avança 0,98% e o Nasdaq tem ganho de 1,46% -, mas segue caminhando para encerrar a sessão na faixa dos 90 mil pontos pela primeira vez na história. A reação positiva ocorre após os governos americano e chinês acertarem uma trégua de 90 dias, período em que ambas as partes diminuirão as hostilidades comerciais.

Tal contexto faz com que o petróleo apresente recuperação firme neste início de mês, com o WTI e o Brent avançando mais de 3,5%. E, nesse ambiente, as ações da Petrobras, da Vale e das siderúrgicas aparecem como as principais beneficiadas.

Usiminas PNA (5,13%) tem o melhor desempenho do Ibovespa neste momento; Gerdau PN (4,37%), Metalúrgica Gerdau PN (4,13%), CSN ON (3,61%), Petrobras ON (3,6%), Petrobras PN (3,3%) e Vale ON (2,8%) também despontam entre os principais ganhos do dia, em meio à menor percepção global de risco e aos preços mais elevados das commodities como um todo.

Segundo um operador, o desempenho negativo dos papéis ligados ao setor de commodities no mês passado abriu espaço para uma recuperação mais intensa hoje. "Há uma recuperação dos preços nesses papéis, que estavam baratos. Muita gente aproveita para fazer posição, apostando que eles vão avançar ainda mais daqui para frente", diz. Internamente, ele ainda destaca que os investidores seguem acompanhando possíveis novidades a respeito da cessão onerosa - o projeto de lei pode ser votado amanhã pelo Senado.

Menos associadas ao cenário externo, as ações do setor bancário apresentam desempenhos mais modestos hoje. As units do Santander Brasil (1,92%) sobem com maior intensidade, mas Bradesco ON (0,71%) e Itaú PN (0,18%) não se afastam muito da estabilidade - Bradesco PN (-0,57%) e BB ON (-0,18%) viraram para queda.

Na ponta positiva do índice, destaque também para Marfrig ON (4,84%). A empresa anunciou a conclusão da venda da Keystone na última sexta-feira e, além disso, fez uma oferta pelos ativos bovinos da BRF na Argentina, segundo apuração do Valor - a companhia também propôs assumir a produção de hambúrguer da BRF no Brasil.

Entre as poucas quedas do índice no momento, Rumo ON (-1,72%) e Smiles ON (-1,67%) apresentam as maiores perdas - Ambev ON (-1,42%) e Iguatemi ON (-0,64%) aparecem em sequência.

Câmbio

O dólar opera em baixa desde o começo da sessão, captando o bom desempenho de toda a classe de ativos de riscos após a trégua EUA-China. A aproximação das duas maiores economias do mundo ameniza os temores sobre a guerra comercial, derrubando o prêmio de risco nas moedas emergentes.

Por volta das 13h50, o dólar comercial operava em baixa de 0,71%, aos R$ 3,8309, depois de tocar R$ 3,8163 nas mínimas do dia. Com a queda global da moeda americana, o real brasileiro tinha um dos dez melhores desempenhos do dia, seguindo os ganhos dos principais mercados em desenvolvimento.

O comportamento dos ativos mostra o sentimento de alívio em todo o mundo após o presidente americana, Donald Trump, se comprometer a não elevar, de 10% para 25%, tarifas sobre US$ 200 bilhões em importações da China a partir de 1º de janeiro. Em troca, a China se comprometeu a reduzir ou eliminar tarifas de 40% incidentes em carros produzidos nos EUA e exportados ao país asiático, explicou Trump em um tuíte no fim da noite.

Os dois lados concordaram em iniciar negociações para esfriar as tensões comerciais e discutir a transferência forçada de tecnologia, proteção à propriedade intelectual, barreiras não-tarifárias e questões cibernéticas e agrícolas, entre outras.

"Esse pontapé inicial foi dado, ajudando todas as moedas emergentes, e vem num momento em que se espera um menor aumento de juros americanos", diz Paulo Nepomuceno, estrategista-chefe da Coinvalores. Ele destaca, contudo, que a perenidade do movimento depende também do quadro interno. "Nossa agenda é grande. O próximo governo tem de tratar de muitos temas com agilidade, e negociar com o Congresso nunca foi tarefa fácil no Brasil", acrescenta.

O especialista projeta que o dólar deve ficar entre R$ 3,80 e R$ 3,85 até o fim deste ano, com algum recuo em 2019. No cenário para o ano que vem, a estimativa é a de que a moeda fique um pouco abaixo de R$3,80.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China é um dos fatores que têm pesado nas perspectivas de crescimento global, contribuindo inclusive para os riscos baixistas da política monetária americana. A trégua até poderia ser motivo de aceleração da inflação global, mas outros fatores ainda - como a queda das commodities - ainda evitam um amplo impulso nos índices de preços. Ou seja, os motivos de uma postura mais "dovish" do Fed vão além da disputa comercial.

"Por mais que a trégua pontual na guerra comercial tenha ocorrido, isso não é motivo para 'esvaziar' a postura mais dovish do Fed e de seu presidente, Jerome Powell, da semana passada", diz o operador Cleber Alessie Machado Neto, da H.Commcor. "Segue na mesa um Fed mais gradual 2019 e 2020", acrescenta. Para o câmbio brasileiro, o alívio também derruba o dólar. "Mas nossa resiliência foi praticamente anulada, após certas frustrações em termos de ajuste fiscal para este ano", aponta Machado Neto.

Juros

O otimismo dos investidores globais também determina o ritmo de negócios dos juros futuros. O DI janeiro/2020 passa de 6,99% no ajuste anterior para 6,93%, e o DI janeiro/2025 vai de 9,57% para 9,52% na mesma base de comparação.

Profissionais de mercado afirmam que a agenda local, nesse contexto, fica para segundo plano, mas também pode contribuir para o movimento positivo dos ativos. Hoje no boletim Focus a mediana das projeções de economistas para o IPCA em 2018 teve a sexta queda seguida, passando de 3,94% para 3,89%. Para 2019, o número foi para o quarto corte consecutivo, passando de 4,12% para 4,11%. Além disso, a FGV divulgou hoje o IPC-S de novembro com deflação de 0,17%, acumulando inflação no ano de 4,02% .

O DI janeiro/2021 tem taxa de 7,90% (7,94% no ajuste anterior).