Inscritos no Mais Médicos deixam postos de saúde e criam déficit no SUS, diz conselho

Publicado em 03/12/2018 por Yahoo Brasil

Um terço dos brasileiros que se inscreveram no Mais Médicos após a saída dos cubanos abandonou vagas ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) para atuar no programa do governo federal. O troca-troca deixou o programa Estratégia Saúde da Família (ESF) sem 2.844 profissionais, segundo dados do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems). O número, de acordo com o levantamento, é ainda maior se forem contabilizados médicos que atuam em outros serviços do SUS.

Leia mais:
Bancada evangélica acumula frustrações e espera nome no governo Bolsonaro
Universal, mas nem tanto, SUS pode ser aprimorado se ricos trocarem planos por sistema público

O conselho aponta que 34% das 8,3 mil vagas preenchidas no Mais Médicos foram ocupadas por profissionais que já atuavam em equipes do ESF. Na prática, eles mantém o mesmo trabalho, mas em outros postos e em regime de contratação diferente. O programa federal concede bolsa de R$ 11,8 mil e um auxílio mensal para pagamento de aluguel, alimentação e transporte. Já o contrato com as prefeituras previa salário abaixo de R$ 10 mil.

Presidente do Conasems, Mauro Junqueira, observa que o novo edital do Mais Médicos "está trocando o problema de lugar" ao invés de acrescentar novos profissionais.

"Se o médico sai de um serviço do SUS para atender em outro, o município de origem fica desassistido, independente se esse médico se desloca da atenção básica ou da especializada, principalmente em relação ao Norte e Nordeste, onde todos os estados têm municípios com perfil de extrema pobreza e necessitam da dedicação desses profissionais que já estão trabalhando", afirmou em nota publicada no site do conselho.

Segundo o Conasems, diversos estados já registram a transferência dos médicos. Em Roraima, das 43 vagas ofertadas, 36 médicos inscritos já trabalhavam no SUS - praticamente todos do Estado. Com 104 vagas, o Acre teve 79 profissionais inscritos, dos quais 57 já tinham vínculo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).

Na Bahia, mais de 400 médicos dos 765 inscritos trabalhavam na ESF. A taxa atingiu mais de 70% dos inscritos no Rio Grande do Norte e pelo menos 60% na Paraíba. No Amazonas, 188 das 322 já foram preenchidas - dos quais, 95 profissionais já atuavam na saúde pública. No Amapá, 26 dos 49 inscritos para 76 vagas já tinham vínculo com o SUS.

O Conasems também atenta para as taxas de desistência de profissionais que se inscreveram no programa e voltaram atrás.