Já não se faz mais vice como Michel Temer

Publicado em 09/08/2018 por Valor Online

Já não se faz mais vice como Michel Temer

Dos declamados atributos de Ana Amélia e Hamilton Mourão nenhum supera o seguro-permanência que oferecem aos titulares de suas chapas.

Predileta dos ruralistas e integrante de um partido em ascensão no Congresso, a senadora do PP não representa sua cúpula nem se dispõe a defendê-la dos erros e malfeitos na legenda que presença mais farta tem na Lava-Jato. É a avalista dos minutos a mais que o Centrão ofertou ao candidato tucano Geraldo Alckmin no horário eleitoral gratuito, mas não se cansa de repetir que só responde por seus próprios erros.

Ao lado do general Mourão, o capitão, como o deputado Jair Bolsonaro é chamado em seu entorno, é um paladino da democracia. Como comandante militar do Sul, Mourão deu sucessivas declarações favoráveis à intervenção militar no auge da Lava-jato.

Os escolhidos protegem os titulares de um impeachment

Como vice, já foi capaz de ofuscar Bolsonaro indicando a indolência, a malandragem e o oportunismo como o melhor das três raças originárias da nacionalidade. Não foi pelos quatro segundos oferecidos por seu partido ao candidato do PSL, ou pela admiração mútua pelo coronel Carlos Brilhante Ustra que o general compôs a chapa.

O deputado Rodrigo Maia (DEM), que já se sentou na cadeira de presidente reeleito da Câmara, hesitaria os quatro anos da legislatura em colocar em pauta a votação do impeachment de um presidente que tenha por vice Ana Amélia ou Mourão.

Dois presidentes derrubados no espaço de uma geração tinham de ensinar alguma coisa. Como o lulismo lhe garantisse a máquina de fazer votos, o PT cuidou, em 2014, de colocar o presidente Michel Temer na chapa com a ex-presidente Dilma Rousseff para que o MDB garantisse, no atacado, a governabilidade de um partido que, egresso do mensalão, havia sido obrigado a recorrer ao varejo do apoio parlamentar.

Para o infortúnio dos ex-aliados petistas, não se faz mais um vice como Temer. A senadora e o general não têm o condão de atrair um grande eleitorado aos cabeças de chapa, mas seguem a lógica do PT, pelo avesso. Não são avalistas de uma maioria de governo, mas garantem que, se chegarem lá, Alckmin e Bolsonaro custarão ser derrubados.

A virtual entrada de Manuela d'Avila (PCdoB) na chapa petista tem o objetivo de, mais uma vez, privar Ciro Gomes de um aliado, mas não deixa de prover um seguro-permanência ao ex-prefeito Fernando Haddad. O centrão, como todos as paredes da Funasa o sabem, preferia que o PT tivesse escolhido o ex-governador Jaques Wagner.

Ciro foi desmontado à esquerda e arriscou um jogo de soma zero. A escolha da senadora correligionária Kátia Abreu, além de não lhe acrescentar nenhum tempo de televisão, tanto pode lhe trazer votos das fronteiras agrícolas do país quanto desfalcar os exércitos estudantis que formou nos dois últimos anos em andanças por universidades.

Os partidos do poder terão condições de repaginar o mapa da mina, mas uma rota pavimentada como a da posse de um vice como Michel Temer no governo vai demorar a surgir. Os anos petistas no poder marcaram um avanço extraordinário no poder do Congresso no embate com o Executivo. Das regras das medidas provisórias àquelas que regem os vetos presidenciais, passando pelo orçamento impositivo, a balança pendeu para os poderes legislativos. Por isso, o condão reformista do governo Fernando Henrique Cardoso que o mercado tanto almeja custará a se reproduzir, seja qual for o eleito.

Se as regras legislativas balizam a mudança, só as eleições são capazes de consolidá-las. Na fotografia da campanha em sua largada oficial, o quadro do Nordeste é dos mais intrigantes desse embate. A região assistiu, nos anos petistas, a uma mudança em sua elite política. Em dois terços dos Estados, incluindo os três maiores (BA, PE e CE), foi a esquerda (PT, PSB e PCdoB) que conquistou o governo. O MDB e o PSD ficaram confinados nos menores Estados (RN, SE e AL).

O avanço nos executivos estaduais também se reproduziu nas bancadas. Levantamento do ValorData mostra que, a despeito do impacto da Lava-jato, o PT resiste com uma bancada de deputados federais (18) na região, maior do que qualquer outro partido. Apenas a do PSB (14) se aproxima. Os partidos líderes da coalização governista, PP, PR e MDB, têm bancadas maiores no Sudeste do que no Nordeste.

Na tentativa de reconquistar os governos da região e reverter esse quadro, Temer loteou seu governo de ministros do Nordeste. Deu-lhes oito assentos na Esplanada, do coração da administração (Secretaria de Governo) a pastas de orçamentos vistosos (Transportes e Minas e Energia) e de alcance eleitoral (Educação e Cidades). Mais do que qualquer governo petista o havia feito.

O espaço não bastou para levar à arena eleitoral nomes como o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), que recuou frente ao favoritismo do governador Rui Costa (PT) à reeleição na Bahia. Tampouco animou os ex-ministros Bruno Araújo (Cidades) ou Maurício Quintella (Transportes) a entrar na corrida pelos governos de Pernambuco ou Alagoas, conformando-os à disputa pelo Senado.

A formação das chapas presidenciais mostrou que os concorrentes ao Planalto também fugiram da raia. Nenhum dos vices das principais candidaturas vem do Nordeste. A onipresença petista é parte da explicação por que um candidato como Geraldo Alckmin desistiu de configurar uma chapa capaz de disputar o segundo maior colégio eleitoral do país.

Como não terá à sua disposição máquinas de grandes caciques governistas no Nordeste (Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Ciro Nogueira), que pedirão voto para Lula, o tucano precisará contar com São Paulo para recuperar o prejuízo, cenário que a pesquisa CNT/MDA de ontem mostrou que ainda está longe de se configurar.

A seu favor, conta com o discurso da segurança no canto do país mais dilacerado pela violência. Terá tempo suficiente no horário eleitoral de rádio e TV, na região de menor penetração das redes sociais, para tentar rebater a acusação de Ciro de que São Paulo só conseguiu reduzir os homicídios porque exportou o PCC para o resto do país.

Ao optar por estratégia tão incerta, no entanto, o candidato só revela que viu risco ainda maior numa reprise de Temer em sua chapa eleitoral.

Maria Cristina Fernandes é jornalista do Valor. Escreve às quintas-feiras

E-mail: mcristina.fernandes@valor.com.br