Líderes digitais

Publicado em 13/11/2017 por Valor Online

Júlio Figueiredo, da ESPM: "Os cursos são estruturados em torno da solução de problemas" A dúvida está na cabeça de grande parte dos líderes corporativos em todo o mundo: "E se um pequeno concorrente, nascido de uma garagem ou aceleradora, destruir o meu negócio amanhã?" O inquietante cenário, que há alguns anos soava como possibilidade distante, é hoje realidade. Nesse contexto, o mercado de educação executiva vem sendo constantemente desafiado a rever metodologias, conteúdos e a inovar para treinar líderes de negócios em uma sociedade digital e disruptiva. Mais criativo e adaptável, o executivo do futuro está em processo de construção e impõe às escolas de negócios o desafio de ajudá-lo a desenvolver suas competências. "Hoje precisamos concentrar nossos esforços em trabalhar habilidades que as máquinas ainda não têm: criatividade e inovação, liderança, inteligência emocional, adaptabilidade e capacidade de resolução de problemas", afirma Ricardo Basaglia, diretor executivo da empresa de recrutamento Michael Page. As escolas de negócios estão atentas: nos últimos anos, muitas delas vêm incluindo o desenvolvimento dos chamados "soft skills" em seus currículos e atividades. Essas competências relacionadas ao comportamento, segundo os especialistas, são fundamentais em gestores que vão liderar em tempos de inteligência artificial, digitalização e big data - elas são a ponte entre a máquina e o humano, e dão suporte à tomada de decisões estratégicas. "A inteligência artificial está mais focada em competências analíticas e racionais. Por isso a parte emocional e intuitiva do ser humano tem sido tão trabalhada pelos cursos de MBA, em habilidades como comunicação, liderança e empatia", afirma Alessandra Maciel, diretora de comunicação da Associação Nacional de MBA (Anamba), entidade que congrega nove instituições de educação executiva do Brasil. Ela diz que, nos últimos anos, as escolas vêm usando simulações e jogos, entre outras metodologias, para ensinar habilidades como cooperação e tomada de decisão dentro do ambiente profissional. Na Fundação Instituto de Administração (FIA), por exemplo, os cursos de MBA investem em simulações de negócios, videoaulas e em softwares inovadores para oferecer diferentes metodologias de aprendizado para os participantes. Uma delas é uma ferramenta desenvolvida internamente pelo time de tecnologia que permite que os alunos façam diagnósticos sobre as estratégias de inovação das empresas em tempo real. Outra atividade é um jogo de empresas feito em sala de aula em que os alunos concorrem entre si. "O desafio é tornar a aula atrativa e permitir que os participantes trabalhem suas competências ao mesmo tempo", diz Eduardo Savarese, gerente de tecnologia da FIA. À frente do núcleo de inovação e empreendedorismo da Fundação Dom Cabral (FDC), o professor Hugo Tadeu explica que a agenda de digitalização da instituição começou antes mesmo que surgisse uma demanda do mercado. Ele conta que, em uma pesquisa realizada com líderes de negócios do país, em 2015, a escola percebeu que os executivos estavam mais preocupados com temas como retorno sobre investimento do que com inovação e tecnologia. "São mundos antagônicos. A inovação é uma agenda de futuro que requer perdas e riscos, o que vai contra a agenda do retorno sobre investimento", diz. Paul Hunter, do IMD: "As pessoas estão mais interessadas na experiência de aprendizado do que em um título específico" O esforço das escolas em promover o aprendizado ativo, que inclui aulas mais dinâmicas, participativas e baseadas em projetos, também teve impacto sobre o perfil dos professores das instituições. Na ESPM, por exemplo, a estrutura das salas de aula foi reformulada em muitas das disciplinas e os mestres ganharam um perfil mais consultivo. "Os cursos são estruturados em torno da solução de problemas. Os alunos são desafiados com projetos e têm acesso a um conjunto de ferramentas, tendo o professor atuando como coaching", afirma Júlio Figueiredo, coordenador acadêmico de pós-graduação da ESPM. Essa transformação, segundo ele, levou a escola a repensar seus espaços de aprendizado, metodologias e conteúdos, mas também a atualização dos professores. Os requisitos para o corpo docente vão além da excelência acadêmica e incluem experiência profissional e atuação prévia em empresa com reputação de mercado. "Os professores precisam trafegar entre o mundo do estudo de caso e o do conhecimento teórico", diz. Com o avanço das novas tecnologias e a alta exigência dos alunos em relação a temas de inovação, a ESPM desenvolveu uma academia interna, que atualiza os mestres em temas e ferramentas atuais do mercado digital, por meio de cursos e workshops presenciais. Além da influência das novas tecnologias, as escolas vêm respondendo também às exigências das novas gerações de alunos, que demandam aulas dinâmicas e interativas. "O perfil do participante mudou muito nos últimos anos. Hoje eles querem prototipar, testar e validar informações, demandam pensamento crítico, temas mais complexos e uma abordagem holística de resolução de problemas", afirma Tadeu, da FDC. O ritmo de comunicação e o tipo de interação também mudaram, conta a professora Alessandra Montini, coordenadora dos cursos de MBA em big data e data mining na FIA. "Os alunos querem buscar a informação por conta própria, e só demandam a intervenção do professor se tiverem dúvida. Além disso, preciso estar preparada para me comunicar com eles em tempo real nas redes sociais. Essa geração não espera", brinca. Outra mudança é o peso dos casos práticos e reais, em detrimento da teoria, que hoje ocupa no máximo 30% do tempo em sala de aula. "As pessoas estão mais interessadas na experiência de aprendizado e no impacto que ele terá sobre o seu negócio do que em um programa ou título específico", diz Paul Hunter, diretor de aprendizado digital da escola de negócios suíça IMD. O enfoque no "mundo real" dos negócios vem fazendo com que as escolas busquem parcerias com empresas para desenvolver novos cursos e programas - é o caso da ESPM, que neste ano lançou um MBA com a IBM, e da Fundação Dom Cabral, que recentemente inaugurou um laboratório também em colaboração com a IBM e com a construtora MRV. Alguns dos novos programas, como "digital strategy in new business models", da FDC, são ministrados em inglês e trazem líderes de negócios internacionais para falar sobre negócios globais. "A ideia é entender como as empresas estão se estruturando para trabalhar em um mundo cada vez mais tecnológico", afirma o professor Hugo Tadeu. Quebrar a barreira entre conhecimento e prática, porém, continua a ser um desafio para as escolas. Ricardo Basaglia, da Michael Page, afirma que a capacidade de execução ainda é um dos pontos fracos dos candidatos nos processos de recrutamento - e isso independe do quanto eles estão familiarizados com as novas tecnologias. "É bom que a inovação esteja no radar dos executivos, mas é preciso que ela seja colocada em prática no dia a dia."