Macedônia, um nome em disputa há 25 anos

Publicado em 11/02/2018 por Carta Capital

De Salônica

"Só há uma Macedônia e ela é grega!", entoava uníssono um coro de mais de 90 mil pessoas no centro de Salônica, a segunda maior cidade da Grécia, em um encontro realizado em 21 de janeiro. De costas para o mar, a multidão se acumulava ao redor da estátua de Alexandre, o Grande, aluno de Aristóteles, legendário líder grego e rei da Macedônia que derrotou o Império Persa em territórios da Ásia Menor, Síria e Egito para criar um império em três continentes. A escolha do local foi simbólica: aos pés do maior ícone da história macedoniana, milhares de gregos vocalizaram sua oposição ao uso do termo Macedônia no nome do país vizinho Antiga República Iugoslava da Macedônia, um dos diversos Estados originados do colapso da Iugoslávia nos anos 1990. 

Desde a independência do ex-território socialista, em 1991, a Grécia recusa-se a aceitar o nome adotado pelo país - que foi aceito como membro da ONU sob uma nomenclatura provisória, cuja sigla é Fyrom. Negociações para solucionar a disputa começaram em 1995, sem sucesso. Na segunda semana de janeiro, os governos de ambas as partes voltaram a discutir o assunto, resultando no protesto em Salônica. 

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O tema é delicado na Grécia, onde é visto como uma questão de identidade e uma ofensa à história e à cultura daquele país, embora não se resuma a estes aspectos. O Ministério das Relações Exteriores grego acusa Fyrom de adotar o termo Macedônia, que "refere-se ao Reino e à cultura dos antigos macedônios, que pertencem à nação helênica", para "falsificar e usurpar" o patrimônio histórico grego afim de reclamar para si parte do território do país. Geograficamente, Macedônia é uma ampla região do norte da Grécia, que também se estende ao território de alguns países dos Bálcãs, incluindo Fyrom. O núcleo da Antiga Macedônia, contudo, está na Grécia.

Essa possível disputa territorial é aproveitada por nacionalistas extremos. Membros do partido neo-nazista grego Aurora Dourada, alguns integrantes do conservador Nova Democracia e clérigos linha-dura da poderosa Igreja Ortodoxa estiveram em Salônica. "Não há dúvidas de que o tema foi cooptado pela extrema-direita. O Nova Democracia parece ter sido pressionado por esses movimentos e seus deputados foram ao protesto por medo de que um novo partido fosse criado e diminuísse sua participação eleitoral", explica Dimitris Stamatopoulos, professor do Departamento de Estudos Balcânicos, Eslavos e Orientais da Universidade da Macedônia em Salônica. 

O bispo metropolitano de Salônica, visto por muitos como o líder dos nacionalistas que se opõem a um acordo com Fyrom, convocou a população para sair às ruas. O arcebispo de Atenas e de toda a Grécia, contudo, disse ao premier Alexis Tsipras que era preciso união nacional e não protestos. A igreja se opõe ao uso do termo Macedônia por Fyrom.

A marcha teve adesão bem inferior aos cerca de 1 milhão de pessoas que participaram de uma manifestação semelhante 1992, um protesto então apoiado pela classe política grega. A manifestação recente, entretanto, não deixa de ser relevante. "Ela foi uma expressão da hegemonia política da extrema-direita, com um envolvimento enfático da Aurora Dourada", destaca Stamatopoulos. 

Macedônia
Milhares de gregos reuniram-se nas redondezas da estátua de Alexandre, o Grande. "Só há uma Macedônia", gritava a multidão (Foto: Gabriel Bonis)

Apesar de nem todos os participantes do evento serem ligados à extrema-direita, o tom nacionalista era evidente. Milhares de bandeiras gregas foram agitadas por horas. A multidão resistiu ao frio, vento e chuva. "Quero que o resto mundo saiba que a Macedônia é grega. Fyrom usa o termo Macedônia, mas o seu povo não é macedoniano. Eles são eslavos e não têm o direito de roubar a nossa história", argumenta Tasos Dinas. Segurando um mapa dos Bálcãs do período pré-Segunda Guerra Mundial, ele mostra o atual território da Fyrom, chamado à época de Vardar Banovina e parte do então Reino da Iugoslávia. "Eles poderiam usar esse nome, por exemplo." 

A origem da disputa remonta ao anos 1940, quando a atual Fyrom passou a integrar a República Socialista Federativa da Iugoslávia como a República Socialista da Macedônia. Em 1944, a Assembléia Antifascista para a Libertação Nacional da Macedônia defendeu a unificação de toda a "nação macedoniana" e a "eliminação de fronteiras artificiais" dividindo os seus territórios, o que incluiria parte da Grécia. Josip Broz Tito, líder da Iugoslávia, nunca repudiou a ideia de uma "Grande Macedonia" e até fomentou uma insurgência na Grécia como forma de obter acesso ao mar Egeu.

A Grécia acusa Fyrom de exibir em seus livros educacionais o território macedônio grego dentro de uma "Grande Macedônia", além de usar símbolos da cultura grega e estátuas de Alexandre, o Grande. Atenas defende que Fyrom adote um "nome composto com um qualificador geográfico" ou temporal antes do termo Macedônia para não deixar dúvidas sobre a distinção entre os dois países e seus respectivos territórios. Até agora, Fyrom resistiu a essa solução, o que tem levado a Grécia a bloquear ambições internacionais do país, como a adesão à OTAN e à União Europeia. 

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Um acordo pode estar mais próximo uma vez que o novo governo de Fyrom parece ser mais aberto a concessões para algum nome composto, mas a situação não é simples. Tsipras se reuniu em 27 de janeiro com líderes de diversos partidos sem conseguir um consenso sobre o tema. O premier depende do partido populista de direita Anel, parte de sua coligação, que se opõe a qualquer uso do termo Macedônia por Fyrom. Sem a legenda, Tsipras perderia a maioria que detém no parlamento grego.

Uma pesquisa recente mostrou que 68% dos gregos não quer ver o país vizinho sendo chamado de Macedônia. "Este é um território grego. Podemos ser vizinhos sem nenhum problema, mas não podemos ter o mesmo nome. É historicamente incorreto", defende Christina Karageorgidou, sob intensa chuva ao fim do protesto. O seu amigo Giorgos Ploumakis completa: "A única forma de eles se chamarem Macedônia é se fizessem parte da Grécia, porque nós poderíamos reclamar aquelas terras se quiséssemos. Mas não faremos isso."