Mercados voltam a sofrer com cena política

Publicado em 09/08/2018 por Valor Online

Mercados voltam a sofrer com cena política

A cautela com o quadro político não abriu muito espaço para um alívio nos mercados brasileiros. Mesmo em um dia de poucas surpresas, o desânimo com a corrida presidencial conduziu o Ibovespa para sua terceira queda consecutiva e inibiu uma recuperação do real contra o dólar.

A confirmação de que Geraldo Alckmin (PSDB) não conseguiu avançar em um importante colégio eleitoral - São Paulo - voltou a justificar novos ajustes de posição na bolsa. O movimento do mercado tende a acompanhar as intenções de voto já que o tucano é considerado um dos principais candidatos para levar à frente a agenda de reformas.

De acordo com a pesquisa CNT/MDA, Alckmin ficou em um empate técnico com Jair Bolsonaro (PSL) em São Paulo, mas numericamente abaixo de seu concorrente. O resultado já era esperado por boa parte do mercado, mas não evitou nova onda de desconfiança.

A piora no mercado de câmbio veio durante a tarde. O dólar comercial fechou praticamente estável, aos R$ 3,7657 (-0,03%), revertendo a queda do começo do dia. Há uma leitura no mercado de que o patamar de R$ 3,70 tem se tornado um piso para o dólar, ou pelos menos um nível em dias mais tranquilos. "O câmbio é um bom termômetro para essa eleição: se esquenta um pouco mais, o dólar já tem espaço para bater os R$ 3,90", diz um operador.

Nesta quinta-feira, começa uma nova etapa da disputa com o primeiro debate entre presidenciáveis. O evento acontece às 22h, com transmissão da Band. "O início da série de debates e, um pouco mais para frente, as campanhas eleitorais na TV são os fatores que trarão mais importância para as pesquisas. É a partir daí que surgem as apostas", diz Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio na Treviso Corretora.

O Ibovespa também intensificou as perdas na reta final do pregão, puxado pela onda de vendas mais forte nas ações do setor bancário. O índice caiu 1,49%, aos 79.152 pontos, depois de tocar 78.966 pontos na mínima do dia. O giro financeiro das ações do índice também não foi desprezível: R$ 8,8 bilhões.

Entre os destaques, a queda do petróleo combinada com o cenário político bastante embaralhado levou a ação ordinária (ON) da Petrobras a cair 2,02%, enquanto o papel preferencial (PN) da estatal desvalorizou 2,75%. A cautela também afetou os bancos e as varejistas. As units da Via Varejo caíram 6,90%, no pior movimento do Ibovespa, enquanto Bradesco ON cedeu 2,41%; Bradesco PN fechou com queda de 2,39% e a ação preferencial do Itaú Unibanco teve uma queda de 2,34% no dia.

Um operador de mercado também notou que algumas grandes corretoras estrangeiras, como o Morgan Stanley, intensificaram a atuação na ponta vendedora durante a tarde. E o motivo para isso foi um ajuste que fundos acabam realizando perto do fim dos negócios - e que ganha força com grandes casas atuando em sequência. No caso da Petrobras, os atrasos da votação do projeto da cessão onerosa no Senado são motivo adicional de pressão sobre os papéis.

Investidores têm se prontificado a enfrentar os próximos passos da corrida presidencial com posições mais leves ou até mais defensivas. O movimento acaba sendo intensificado por causa de boatos envolvendo os presidenciáveis, que elevam o sentimento negativo no mercado. Algumas especulações foram até desmentidas, como a suposta delação premiada contra Geraldo Alckmin. No entanto, isso não se traduziu em uma postura mais otimista dos investidores.

Nesta semana, foi observada uma grande ordem compradora nos juros futuros por parte de um fundo estrangeiro. E os ativos ainda sentem os efeitos da operação. O movimento de alta foi mais forte nos contratos mais longos, seguindo a aversão ao risco no ambiente local e também no exterior. Paulo Petrassi, sócio e gestor da Leme Investimentos, afirma que é natural que não haja ajuste imediato nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) uma vez que eles foram os ativos escolhidos na atuação do fundo que desfez a sua posição.

Na B3, o contrato de DI para janeiro de 2020 encerrou o pregão regular com taxa de 8%, ante 8,03% no ajuste anterior. Já o DI para janeiro de 2025 encerrou a sessão a 11,11%, ante 11,03% na véspera.